184956_155702211150843_7747045_n (1)

Foto de Sérgio Lemos

Inaugura esta sexta-feira (dia 1) no foyer do Teatro José Lúcio da Silva a exposição ‘Bandas Sonoras’, de Rita Carmo. Dela já alguém disse que é “a” fotógrafa de música em Portugal, uma apresentação simples e curta, mas verdadeira. A leiriense radicada em Lisboa está há 22 anos na Blitz, o que significa que chegou à revista quando ela era um ele, “o” jornal para todos os melómanos do universo rock, pop e metal, no tempo em que não havia YouTube nem Bandcamp, muito menos Spotify.

Começámos a ver imagens de Rita Carmo no Blitz no ano em que os Nirvana editaram Nevermind e os maiores concertos em Portugal aconteciam no Pavilhão Carlos Lopes, no Íncrivel Almadense ou no Dramático de Cascais. A lista de vedetas internacionais fotografadas por Rita Carmo não cabe em poucas linhas e já esta semana recebeu mais uma entrada, com a passagem dos Thirty Seconds to Mars pelo Meo Arena (podem ver o resultado final aqui). Também a nova geração de músicos portugueses, nomes como Márcia, David Fonseca ou Legendary Tiger Man, cresceram em palco diante do olhar e da sensibilidade de Rita Carmo.

A exposição ‘Bandas Sonoras’ reúne 30 retratos de artistas nacionais registados entre 2008 e 2013. Em simultâneo, Rita Carmo publica este mês o livro Bandas Sonoras – 100 Retratos na Música Portuguesa, pela Chiado Editora. Tal como quase todas as vidas, a da fotógrafa leiriense contém várias versões. Desde 1995 é responsável pela agência Espanta Espíritos, que produz design na área da cultura, em parceria com António Afonso. Como freelancer assinou diversas capas de CD e imagens de divulgação de músicos portugueses. É formadora, expôs em Portugal e no estrangeiro e antes de Bandas Sonoras publicou outras duas recolhas fotográficas em livro, Altas-Luzes (2003) e Portugal XXI – Imagens de Sons Portugueses (2008).

Na tarde do passado sábado, depois de preparar o almoço, a fotógrafa leiriense sentou-se para uma entrevista à distância, na internet, em que faz uma viagem por 22 anos atrás da câmara. Duas horas de conversa escrita, desde a primeira reportagem para o Blitz até à revelação do segredo que lhe permite captar a alma do artista. Pelo meio, uma pausa para agendar novo trabalho, por telefone. Já esta semana, através de email, ainda chegaram mais quatro respostas. Sempre profissional.

Quanto à música, Rita Carmo ouve-a sobretudo no carro, a conduzir: Márcia, Samuel Úria, Deolinda, Feist, Tori Amos, Radiohead, PJ Harvey, Adriana Calcanhotto, Au Revoir Simone, Bat For Lashes, Bernardo Sassetti, Clã, Beth Gibbons, David Fonseca, Legendary Tiger Man, Maria João, Mogwai, Norah Jones, Pink Floyd, Portishead, Sigur Rós, Talking Heads, This Mortal Coil, Walkmen…

“A fotografia não é só técnica; é muito – mas muito – conhecer as pessoas”

Em quantos concertos já estiveste, em trabalho?
Assim por alto, porque não é fácil contar, cerca de 3000 concertos.

Ficaram muitos para a história?
Ficaram muitos para mim, claro! Para fora, talvez o concerto dos Nirvana.

Costumas sair depois das três primeiras músicas ou ficas até ao fim?
Nem sempre é do conhecimento público que nós, repórteres fotográficos, temos acesso restrito no espaço e no tempo para fotografar um concerto. Depois de fotografar um concerto, há muito trabalho ainda a fazer: chegar ao computador, descarregar, escolher e tratar as fotografias. Colocá-las online no site a altas horas da noite. Tudo isto são várias horas de trabalho. Sim, são poucas as vezes que fico a ver, calmamente, um concerto.

Na tua exposição, que inaugura esta semana em Leiria, há um fio condutor entre as fotografias, há um tema?
A música! São só músicos portugueses. Características comuns entre eles? Não, só estilística, das fotografias, que são todas feitas por mim. Ou seja, acho que ficam bem umas com as outras. São retratos e nenhum é de estúdio.

Alguma fotografia da exposição tem uma história?
Todas têm histórias! Aliás, muitas das fotografias têm histórias mais interessantes do que as próprias fotografias. Os Deolinda, no Mercado da Ribeira: andei como louca à procura da entidade a quem pedir autorização para fazer a sessão no Mercado, ninguém me dizia a quem me deveria dirigir. A EGEAC, a Câmara de Lisboa… pensei que era uma empresa que tomava conta do piso dos restaurantes em cima do Mercado, liguei e não eram eles. Finalmente cheguei à senhora que era a pessoa certa, descrevi os Deolinda como sendo uma banda que não era bem fado, mas era música portuguesa, uma rapariga que canta, guitarra, contrabaixo, e a senhora diz-me: “Ah! Mas os rapazes são meus sobrinhos!!!” O mundo é uma ervilha. A sessão dos Dead Combo, que foi feita no meio do rio Tejo, ao nascer do Sol, foi uma sessão muito engraçada de fazer.

“Nunca ambicionei ser fotógrafa do Blitz

Demoraste muito tempo para chegar a esta selecção final?
Esta exposição começou com uma selecção que fiz para o Barreiro há dois anos. Aliás, vamos começar pelo princípio. Há uns anos pediram-me fotografias que eu tivesse feito a artistas e que tivessem Lisboa como cenário, para uma mostra no Chiado, a “A Maior Exposição do Mundo”. Eram impressões grandes, em k-line, que estiveram em montras no Chiado. Na altura, imprimi os Deolinda, Dead Combo, Mísia, Mariza, Jorge Palma, Oquestrada, Buraka Som Sistema. Aí o fio condutor era Lisboa, música e músicos portugueses. Essas impressões ficaram e evoluíram para uma exposição que esteve no Barreiro, em Outubro de 2011. Daí, a exposição partiu para os Açores. Logo no Barreiro, houve este contacto com o Teatro José Lúcio da Silva. E eu pedi para ser apenas este ano, porque tinha o projecto do livro, que não é mais do que esta exposição em larga escala. Juntar o livro à exposição fazia todo o sentido. Entretanto, acrescentei mais “telas” à exposição. Eram 24 e agora são 30, com algumas reimpressões.

Dead Combo por Rita Carmo, exposição Bandas Sonoras

Dead Combo por Rita Carmo, exposição Bandas Sonoras

Uma pergunta muito original: como é que te tornaste fotógrafa de música?
Por acaso. É a minha resposta de sempre e é a verdade. O Blitz é o meu primeiro emprego há quase 22 anos. Existe desde 1984 e eu entrei em 1992.

Querias ser fotógrafa? Querias ser fotógrafa de música e do Blitz?
Não… aliás, eu comprava por vezes o Blitz quando ainda era jornal, desde miúda, em Leiria. Já em Lisboa, conheci um dos fotógrafos que passou pelo Blitz, o Carlos Didelet, mas nunca ambicionei ser fotógrafa do Blitz.

Ainda te lembras da primeira fotografia publicada?
Lembro, claro. A primeira foto de todas foi uma passagem de modelos. Eu era finalista do curso de Moda no IADE e a repórter do Blitz pediu-me para fotografar o desfile dos meus colegas (estilistas) para o jornal. Eu era finalista do curso de Moda, mas com a especialidade de Fotografia de Moda. Esse “trabalho” não o senti como trabalho. Só depois me pediram para fotografar um concerto, e aí sim, era trabalho. Era um concerto-brincadeira de domingo de Carnaval. A banda era Os Cavacos. Zé Pedro e Jorge Palma. Uma brincadeira em época “cavaquista”. Lá está, ainda bem que comecei assim, porque também era uma “espécie de concerto”. E eu não estava preparada para uma coisa a sério! Sou autodidacta, sem qualquer formação em fotografia.

Estavas entusiasmada? Nervosa?
Nervosa, claro que sim. No Johnny Guitar, iluminado com uma lâmpada. Muito mau! A minha sorte é que o Blitz dessa altura era um jornal mal impresso. Fotografias mínimas (de concerto) e não se notou o quão mau era. O primeiro ‘trabalho mesmo trabalho’ foi algum tempo depois, uma noite com dois concertos (e eu fiz os dois), Madredeus em Xabregas e Carlos Paredes no São Luiz. Aí sim, foi a sério.

E havia mais fotógrafas, mulheres, na música?
Não há/havia fotógrafos especialistas… na altura éramos muito poucas mulheres. Lembro-me de umas seis em jornais. Mas hoje há imensas jovens. Não sei se perdurarão, mas há. Para mim nunca foi uma questão. Já a idade era. Comecei com 21 anos e os meus colegas, na sua maioria, eram homens. À noite eram normalmente homens mais velhos que iam fazer o concerto como último serviço do dia. Acho que olhavam para mim como miúda, obviamente.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Quando é começaste a chegar aos concertos, em serviço, com a mesma confiança do Mick Jagger em palco?
Nunca demonstrei o meu nervosismo. É uma qualidade/defeito meu. Às vezes estou nervosa e ninguém nota. Obviamente há menos surpresas hoje. Já me aconteceu quase tudo, mas nunca se sabe… Porém, não sou fria. Nunca fui e adoro o que faço, ainda hoje. A parte do tempo, os vinte e tal anos, apenas faz com que seja mais complicado fazer coisas que nunca fiz. Ou desvalorizar determinadas coisas, porque já as vi antes. Ou pensar: não vou fazer isso, já fiz.

Obriga a puxar mais pela imaginação?
Muito mais. Às vezes até tenho a noção de que deveria fazer de novo, porque faria diferente.

O digital mudou a tua maneira de trabalhar?
Completamente. Fui relutante a mudar, porque o digital inicialmente era muito mau, em termos de qualidade de imagem. E eu, dois anos depois de estar no Blitz, comecei a fotografar em slide, que é super exigente. O primeiro digital era péssimo, imagens pequenas com má qualidade, muito pior do que o slide. Só mudei em 2004. Já trabalhava com Photoshop e tudo o mais desde 1993, atenção. Em 1994 comprei o meu primeiro Mac.

Em que é que mudou a tua maneira de trabalhar, então?
Mudou tudo. Antes fotografava, ia ao jornal, revelava os rolos de slides. Tínhamos uma máquina de revelar para a qual eu fazia a química e estabelecia os tempos de revelação. Depois de revelado, escolhia as fotografias a entregar à redacção, e a gráfica escolhia depois a fotografia que era publicada; mandava digitalizar. O meu trabalho acabava quando entregava uma folha de slides à redacção. Hoje, saio de um trabalho (quer seja uma sessão quer seja um concerto) venho até ao meu computador, e todo o processo continua comigo. Entrego igualmente uma selecção de imagens à redacção para a revista, mas quando é um concerto, por exemplo, chego, descarrego, trato as imagens, faço o slideshow, coloco online. O digital trouxe mais liberdade e autonomia, e mais trabalho também. Mas sou eu que o controlo, é mais cómodo.

“A PJ Harvey foi tão simples e humilde que me impressionou”

Voltamos às perguntas originais: o que define um bom fotógrafo de música?
Ui… O sentido estético, será? Sentir a música sem se deixar levar por ela. Não podemos ser ‘fãzocas’. Não ser fã nem ter preconceitos. Tanto fotografo a Madonna, os U2, como fotografei os Dzrt ou o Tony Carreira. E fotografei mesmo. Todos eles super profissionais.

Consegues lembrar dois ou três trabalhos que são os que mais gozo te deram até hoje? Só para impressionar os leitores, faz aí uma lista de nomes.
Ahahah.

Os monstros.
É conhecido o meu gosto pelos Dead Combo. Gostei, obviamente, de ter feito uma curtíssima sessão aos White Stripes. A sessão à PJ Harvey num hotel em Lisboa. Por exemplo, uma sessão que fiz agora para a exposição (e para o livro) ao Paulo Furtado no topo da cúpula do Campo Pequeno ou ao David Fonseca, com ele vestido de astronauta. Vê-lo a entrar num hotel em Lisboa vestido assim foi maravilhoso. Madonna. A Madonna fotografei-a mesmo frente a frente, por acaso. Contrataram-me para fotografar a equipa da tournée com ela.

Livro de BD comemorativo dos 10 anos dos Dead Combo

Livro de BD comemorativo dos 10 anos dos Dead Combo

Costuma haver espaço para alguma alguma conversa ou é tudo muito rápido e distante?
Troco sempre palavras. Preciso de estabelecer uma ligação, mesmo que seja rápido.

Das estrelas internacionais, quem é que te surpreendeu mais, pela positiva, como pessoa?
Não diria “o mais”, mas a PJ Harvey foi tão simples e humilde que me impressionou. Disponível e muito simpática, num domingo de manhã. Até a Madonna: nunca pensei que fizesse ali um concerto inteiro à tarde como ensaio numa tournée que estava mais do que ensaiada.

Insólitos, também tens para contar?
Trazer um microfone dos Madredeus da Croácia porque a equipa o tinha deixado num hotel. Nessa tournée dos Madredeus eu e a minha colega repórter, a Ana Ventura, viemos da Croácia até Veneza com a equipa de técnicos, à noite, e passámos a fronteira (para que não nos colocassem entraves por sermos jornalistas) como “raparigas do coro” dos Madredeus.

E músicos a quem te apetecia bater com a máquina, também houve?
Já houve, claro.

Também gostamos de um podrezinho.
Ahahah.

Já percebi que não te vais descoser.
Nah.

Sempre profissional.
Sempre.

“Sou padre, psicólogo, terapeuta. Vamos falando e eu vou ouvindo”

Alguma vez quebraste a tua regra de não ser fãzoca e pediste um autógrafo ou ficaste com algum recuerdo?
Tenho autógrafos de artistas em capas de discos que lhes fiz, claro que sim. Mas não lhes fui pedir ali no trabalho. E este livro, aliás, tem palavras deles, em alguns casos. São quase coisas tipo autógrafo, junto às fotos. Mas não me lembro de fazer isso com estrangeiros.

E alguns deles consideras amigos, naturalmente?
Sim, claro que sim. Um deles, o [Bernardo] Sassetti, tenho muita pena de que não esteja cá. Há alguns com quem existe ali mais ligação. E muitas vezes nas minhas sessões há como que uma conversa que mais parece terapia.

Quem é que faz de terapeuta?
Eu. Sou padre, psicólogo, terapeuta. Vamos falando e eu vou ouvindo. Sabe bem, são pessoas muito interessantes e eu vou absorvendo e deixando-os à-vontade. Quanto mais à-vontade estão, melhor é o resultado.

E ao fim de 22 anos, confirmas que é tudo sexo, drogas e rock’n’roll?
Bom, neste bocado de entrevista que tivemos, chegámos à conclusão de que não! No sex, no drugs.

Eu não cheguei.
Não?

Era a brincar. Convenceste-me que é tudo 90% de transpiração e 10% de inspiração.
Ah, mas é o contrário! Muita inspiração, que vem de dentro, que não se aprende. A fotografia não é só técnica; é muito – mas muito – conhecer as pessoas. Estar com elas e deixá-las estar. Pelo menos, em relação aos retratos.

Exposição “Bandas Sonoras”
Teatro José Lúcio da Silva Leiria
De 1 de Novembro a 1 de Dezembro de 2013
30 retratos bandas e artistas portugueses executados entre 2008 e 2013: António Zambujo, Bernardo Sassetti, Buraka Som Sistema, David Fonseca, Dead Combo, Frankie Chavez, Jorge Palma, Manuel João Vieira, Márcia, Mazgani, Mísia, Samuel Úria, Sean Riley and the Slowriders, The Legendary Tiger Man, entre outros.

Na internet
ritacarmo.blogspot.pt
facebook.com/ritacarmo.foto.imagensdepessoascommusicadentro
espantaespiritosdesign.com

Texto e entrevista de Cláudio Garcia
(Publicado a 31 Outubro 2013)