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São já uma dezena os convidados que passaram pela espreguiçadeira da Preguiça. E se todos têm em comum o gosto pelos livros, no caso de Joaquim Vieira conta a dobrar: como leitor e escritor. Jornalista, autor de um número respeitável de ensaios, biografias e documentários, este verdadeiro maratonista das letras contou-nos o que lhe vai na alma… e nas estantes, claro.

1. O que estás a ler neste momento? Recomendas ou nem por isso?
Tenho vários livros com a leitura a meio, uns interrompidos, outros adiados. Nenhum especialmente recomendável.

2. O que mais facilmente te leva a pegar num livro: a capa, o título, o autor, os amigos ou os desconhecidos?
O autor.

3. Diz-nos um autor que descobriste ultimamente e tens pena de não ter descoberto mais cedo.
Ultimamente, nenhum. O último deve ter sido há uns 20 anos. Primo Levi, talvez.

4. Se houvesse um incêndio na casa do teu vizinho, que livro aproveitavas para atirar para a confusão?
Tenho uma estante cheia deles à espera desse momento.

5. O bichinho dos livros passa de pais para filhos? Conseguiste contagiar os teus filhos ou algum deles é imune?
Sei que o meu pai me contagiou. Quanto aos meus filhos, que têm 16 e 9 anos, ainda é cedo para dizer (a TV, os computadores e os tablets são tramados).

6. Se fosses uma personagem do Farenheit 451 (Ray Bradbury/François Truffaut), que livro gostarias de memorizar para garantir que sobrevivia à passagem do tempo?
Ulysses, de James Joyce.

7. Já te rendeste ao tablet? Ou és fiel ao papel em toda e qualquer circunstância?
Já me rendi, para a leitura dos jornais. Recomendo.

8. Há algum livro que queiras ler há muito tempo, mas ficas sempre pela intenção?
Inúmeros. Precisaria de um ano sabático.

9. A partir de quantas páginas um livro te desmotiva a pegar-lhe? E qual foi o maior calhamaço a que já te aventuraste
Nalguns casos, é a partir da página 1; noutros, pode ser mais. Lembro-me especialmente do calhamaço que era o Doutor Jivago, de Boris Pasternak, mas devorei-o.

10. “Não negue à partida um género que desconhece” podia ser o teu lema? És transversal, quanto a géneros e estilos de escrita, ou tens claramente favoritos e suspeitos?
Sou transversal, versátil, como queiram chamar.

11. O que é preciso para se ser um leitor com L grande? Isso é uma espécie em vias de extinção?
Alguém que faça da leitura um objectivo de vida. Haverá sempre gente assim. As leituras é que podem variar.

12. O que achas verdadeiramente de alguém que tem uma casa sem livros?
É alguém que prefiro não achar.

Questionário de Catarina Sacramento
Ilustração de Rui Cardoso
(Publicado a 7 Novembro 2013)

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  • Joaquim Vieira nasceu em Leiria em 1951. Quando se matriculou no curso de Engenharia de Máquinas, no Instituto Superior Técnico, ainda não sabia que aquilo que o esperava, afinal, seria um percurso no jornalismo, ensaio e documentário. Aí é que ele ia ser (como no anúncio da Regisconta, lembram-se?) ‘aquela máquina’.
    Antes do 25 de Abril escapou ao lápis azul mas não à prisão, onde esteve durante ano e meio. Depois da Revolução de 74, foi estudar Jornalismo para Paris. Apesar de preferir a imprensa, começou pela televisão e acabou por marcar o jornalismo televisivo com uma forma inovadora de fazer notícias e reportagens. Foi membro da direcção de vários órgãos de informação (Expresso, RTP, Grande Reportagem) e, já mais recentemente, provedor do leitor do Público.
    A escrita, essa, esteve sempre bem presente na sua carreira. Assinou a série em 10 volumes
    Portugal Século XX – Crónica em Imagens e dirigiu uma colecção de 18 fotobiografias, da qual escreveu os volumes sobre Salazar (2001), Almada Negreiros (2001), Marcelo Caetano (2002) e Joshua Benoliel (2009). Publicou ainda a Crónica de Ouro do Futebol Português (5 volumes) e A Nossa Telefonia – 75 anos de Rádio Pública em Portugal (2010).
    Também foi co-autor de Mataram o Rei! – O Regicídio na Imprensa Internacional (2007), República em Portugal! – O 5 de Outubro visto pela imprensa internacional (2010), Os Meus 35 Anos com Salazar (2007) e da série juvenil Duarte e Marta. Escreveu ainda Jornalismo Contemporâneo – Os Media entre a Era Gutenberg e o Paradigma Digital (2007), Mocidade Portuguesa – Homens para um Estado Novo (2008), A Governanta (2010) e Só um Milagre nos Salva (2011).
    Entre os documentários que realizou destacam-se Maior que o Pensamento (sobre José Afonso, 2011, RTP1), Os Mitos da República (2012, RTP2), O Último Comunista (2005) e Franco e Salazar – Os irmãos ibéricos (2004).
    O valor do seu trabalho foi reconhecido em diversos momentos: com o Prémio de Jornalismo da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, em 1995; o Prémio Fernando Pessoa de Jornalismo, em 1994; o Prémio Gazeta de Reportagem do Clube de Jornalistas, em 1988; o Prémio de Reportagem do Clube Português de Imprensa, em 1988 e o Prémio de Reportagem Norberto Lopes, da Casa da Imprensa, em 1987.
    Nos últimos tempos regressou em força aos livros: em 2013 chegaram às livrarias duas biografias da sua lavra – Mário Soares: Uma Vida e Álvaro Cunhal: o Homem e o Mito.