Dizem os escritos acerca de São Pedro de Moel que a primeira residência de Verão na localidade pertenceu aos marqueses de Vila Real, já lá vão uns séculos. O edifício junto à praia já não existe: julga-se que no seu lugar está a casa onde envelheceu o poeta Afonso Lopes Vieira, entretanto convertida em colónia balnear. Desde meados do século XX, as moradias de férias multiplicaram-se, com uma característica frequente: a marcada personalidade dos projectos e a influência do estilo modernista.

Em São Pedro de Moel, um roteiro focado na arquitectura pode basear-se no nome das famílias. A imagem exterior de algumas habitações é tão forte que os proprietários parecem ficar associados à individualidade das casas que compraram ou mandaram construir.

Casa Manuel Augusto Rosa O - Cópia

Casa Manuel Augusto Rosa, 1954

Entre a mata nacional e o mar, a organização urbana da estância turística começou a ser ditada por um documento de 1860, que determina o traçado geométrico dos primeiros arruamentos. Mas é o plano geral do arquitecto José de Lima Franco, em meados do século XX, que adopta a conhecida configuração radial, com as novas vias a desenharem quartos de circunferência a partir de uma rotunda. Os enfiamentos visuais com o mar, a baixa densidade de construção e a comunhão com a paisagem, preservando o pinheiro bravo e integrando-o no casario, permanecem até aos dias de hoje.

Não há em São Pedro de Moel uma arquitectura dominante, homogénea, mas é possível identificar um estilo popular, que se caracteriza pelo uso da madeira e de outros materiais comuns na região, e um outro registo, modernista e internacional, com influências brasileiras, assente no funcionalismo, na racionalidade da composição da fachada, no minimalismo e na simplicidade.

Casa Augusto Roldao - Cópia

Casa Augusto Roldão, 1955

Casa Joao Franco Frazao - Cópia

Casa João Franco Frazão, 1956

É a partir do I Congresso Nacional de Arquitectura, em 1948, que o Movimento Moderno se começa a inscrever na arquitectura portuguesa. Em São Pedro de Moel, por moda ou convicção, surge um conjunto de casas que revelam essa modernidade.

Segundo Emmanuella Silva da Quinta, autora de uma dissertação de mestrado sobre o modernismo em São Pedro de Moel, os sinais passam “pelo telhado borboleta com duas águas convergentes, pelo uso de brises-soleil e grelhas, pela marcação da horizontalidade dos vãos”, entre outros efeitos impregnados de energia, movimento e dinamismo. Os ângulos agudos, as cores e texturas, as linhas e paredes oblíquas, as coberturas inclinadas, os envidraçados, a casa-máquina com uma organização interna funcional. Há, ao tempo, um estilo de vida associado ao moderno que se manifesta na grande expressividade dos edifícios. A partir da década de 60, aparecem obras híbridas que recuperam soluções antigas e tradicionais, abrindo espaço para projectos com outra riqueza e solidez conceptual.

Casa Joao Simoes - Cópia

Casa João Simões, 1953

Casa Marques Roldao - Cópia

Casa Marques Roldão, 1952

Emmanuella Silva da Quinta identifica a casa Marques Roldão, projectada em 1952 por João José Tinoco, como pioneira nas construções de linguagem moderna em São Pedro de Moel, desencadeando a corrente da década de 50. Posteriormente, a maioria é da autoria de António Baroseiro, um projectista da Marinha Grande à época bastante requisitado. Mas uma visita a São Pedro de Moel vale pelo conjunto, em diferentes abordagens, com assinatura de arquitectos como Manuel Taínha e Charters Monteiro, Camilo Korrodi, Frederico George ou Egas José Vieira.

Sugestão de roteiro
Casa Joaquim Silva
Rua Dr. Nicolau Bettencourt
Construção: 1950
Autor: Camilo Korrodi

Casa Marques Roldão
Avenida da Liberdade
Construção: 1952
Autor: João José Tinoco

Casa João Simões
Avenida do Farol
Construção: 1953
Autores: João Pedro Mota Lima e Pinto e Cunha

Casa João Franco Frazão
Avenida do Farol
Construção: 1956
Autor: António Dinis Baroseiro Júnior

Casa Manuel Augusto Rosa
Rua D. Dinis
Construção: 1954
Autor: João Pedro Mota Lima

Casa Augusto Roldão
Rua D. Dinis
Construção: 1955
Autor: António Dinis Baroseiro Júnior

Casa António Reis
Rua do Depósito da Água
Construção: 1963
Autor: Frederico George

Casa Ernesto Borges
Rua das Saudades
Construção: 1964
Autores: Manuel Alzina de Menezes e Erich M. Corsépius

Texto e fotografias de Cláudio Garcia
(Publicado a 7 Novembro 2013)