David Fonseca

David Fonseca

Depois de conhecido o Relatório Eurobarómetro 2013, que evidencia um declínio na participação cultural em Portugal, a Zona Centro continua a parir mais notas musicais por metro quadrado do que colégios privados, ao que parece. Andará por aí uma nova combinação cósmica que faz com que haja outra vez uma ‘cena musical’ no centro do país?

Não é novidade, mas é oficial: tem havido um declínio na maioria das práticas culturais em Portugal. Se, em bom rigor, a crise estimula a criatividade e a resiliência, os indicadores que contribuem para o afundanço têm mais a ver com idas ao cinema, teatro, dança, monumentos, etc. Ainda assim, da próxima vez que alguém se queixar que não há crise, “porque os festivais estão cheios”, já os podemos mandar com legitimidade à bardamerda. A crise existe, não há dinheiro para usufruir de muita coisa, mas também é certo que há falta de interesse, os casos de iliteracia são gritantes e a falta de exigência é tal que só por ler um livro ou um jornal já se é considerado ‘intelectual’.

Portugal é imensamente pequeno, e mesmo assim as assimetrias existem, são vincadas e nota-se muito. É patético que numa distância de apenas três horas entre o denominado Norte e Sul, nos queiram convencer de que existem diferenças enormes. Norte? O Norte é da Holanda para cima, onde a malta fala uma língua parecida com a dos elfos.

Mais a sul, há quem ainda use o termo “lá na província” para o resto do país e vá mais rapidamente a Londres do que à estação de serviço de Aveiras. Também gosto muito de pints e, se pudesse, ia lá uma vez por mês. Porém, quem não conhece o seu território, o seu país, é simplesmente ignorante.

Homem de Marte e os Invasores

Homem de Marte e os Invasores

Se determinada banda não aparece na revista X ou Y, é como se não existisse? Isso até já nem se usa. Porém, certa indústria e alguns programadores teimam em bater na mesma tecla. É interessante como dentro das indústrias criativas, a musical – que supostamente dita modas e tendências – seja, em algumas partes do negócio, das mais conservadoras. Depois ficam muito admirados por verem uma editora como a leiriense Omnichord Records em parceria com a Fade In – Associação de Acção Cultural, juntas num stand em Espanha, num festival de profissionais da indústria.

First Breath After Coma

First Breath After Coma

14 MESES OMNICHORD_10

Nice Weather For Ducks

É lá com eles, pois Portugal fervilha – e o que o separatismo e a snobeira quiseram afastar, a tecnologia juntou. A transmedia veio para ficar; e, já agora, é de referir que os YouTube Video Awards também. A Zona Centro sempre foi fértil musicalmente, e – tirando um ou outro espaço temporal em que não havia muita oferta de bandas ou de sítios para tocar – sempre houve um circuito interessante de colectividades, bares, discotecas e mesmo festivais locais.

No diz que disse, a malta ouve histórias de resistência a bandas só porque não são ou não moram em Lisboa, e que fazem lembrar uma passagem de Fernando Pessoa: “A síndroma provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.” 

Last Day On Earth

Last Day On Earth

A concentração dos media é uma realidade, alguns artistas que se mudaram para a capital viram a sua carreira melhorar – é indiscutível -, há outros que, por mérito, conseguem furar, mas também é por isso que projectos como a Preguiça Magazine existem fora dos grandes centros, e temos agora mais de meio milhão de visitas para o demonstrar. Para tal contribuem igualmente muitas organizações, associações, editoras e media locais: veja-se a dimensão do Há Música Na Cidade para sentir o pulso da região.

E chega aquele momento em que a Preguiça abre a caixa de Pandora e fala de bandas mais em concreto. Como em tudo na vida, algumas delas ficam de fora. Esta coisa de acharmos que o nosso mundo é o mundo de toda a gente já enjoa, e é por isso que este pedaço aqui contado pelo escriba de serviço nunca iria ser totalmente abrangente; porém, é representativo. É desse que aqui se fala. Vamos a isso.

Só na pop, os Nice Weather for Ducks, da zona de Leiria, tiveram mais airplay e destaque na rádio pública espanhola – Rádio 3 – do que em Portugal. Os First Breath After Coma e os Les Crazy Coconuts actuaram no festival Monkey Week, no Sul de Espanha, e a Preguiça esteve lá para confirmar que recolheram grandes elogios por parte dos presentes. Às tantas, este escriba preguiçoso questionou-se: “Será que estes espanhóis não conhecem nada, e tudo o que vem de Leiria é maravilhoso para eles, ou então temos de facto um punhado de bandas na Região Centro verdadeiramente boas?”

Pedro Santo

Pedro Santo

Born a Lion

Born a Lion

Pelas reacções, a hipótese correcta só pode ser a segunda. E, sim, nós também somos portugueses; sim, as bandas da Região Centro também representam o bom nome de Portugal lá fora. Mas atenção que ninguém pede tratamento diferenciado, ou descriminação positiva. Para furar tem de se ser bom, com a subjectividade que isso de ‘ser bom’ ou ‘mau’ acarreta. Mais exemplos:

The Allstar Project no pós-rock, Born a Lion e Horse Head Cutters no rock’n’roll mais clássico, a energia dos Last Day On Earth, Aeon Pulse ou Clutter, a aridez dos These Are My Tombs, a melancolia dos projectos a solo, como Yesterday , The Flowering, e Dr. Majick, os instrumentais à viola de Grutera e também dos Les Enfants Terribles, a viola clássica de Pedro Rodrigues que anda pelo mundo, o piano de André Barros, a toada mais jazzística dos Moustache, assim como toda a Orquestra Jazz de Leiria, os projectos via vibrafone de Paulo Santo, Nuno Rancho quer a solo quer acompanhado, Carlos Martins com a sua Caruma, mas também em outras mil e uma aventuras, António Cova nos seus devaneios a solo ou com os Bordel Ravel, Pedro Santo desorientado ou com Bússola, o Coro Ninfas do Lis, o celebrado regresso do punk hardcore dos Sarna ou dos No More Rock’n’Roll Business, os persistentes Monomonkey, a Miss Cat e o Rapaz Cão – que quando não ladra improvisa como Rapaz improvisado -, O Homem de Marte que tem rodado bastante, projectos mais comunitários como os Tocándar, o hip-hop de XL ou RESI2430, o beatbox de Fubu, os muito internacionais ESC no industrial, os eternamente cool Black Leather, a música para bebés de Paulo Lameiro, e, sim, The Gift, Sean Riley e David Fonseca à cabeça.

Sean Rilley

Sean Riley

Vivemos tempos de excepção: perante as adversidades, responde-se com atitude. Está-se a atravessar um bom momento – no que toca à criatividade, entenda-se – na nossa cultura regional, coisa que já não acontecia, pelo menos com esta intensidade, desde o final dos anos 90. Num país onde a cultura se encontra muitas vezes aprisionada pelas programações autárquicas, aqui a iniciativa privada é relevante e com bons resultados. A região de Leiria só não é um case study a nível nacional, porque é um anão político em termos mediáticos. Veja-se uma cobertura de eleições e a quase irrelevância que a capital de distrito tem no panorama nacional.

Não se pense, porém, que alguém está rico na Zona Centro por apostar na cultura. A maioria das organizações e associações trabalha em regime de voluntariado, onde o que importa é contribuir para alguma dignidade civilizacional, essa mesmo que nos querem tirar quando, nos gabinetes ministeriais, se faz de tudo para desincentivar a produção cultural. Por outro lado, os oportunistas estão sempre ao virar da esquina e também é preciso dizer ‘não’ em certos casos em que esta vontade de fazer coisas é confundida com trabalho grátis. A Preguiça é disso exemplo: quatro pessoas asseguram o compromisso e todos os restantes colaboradores têm a total liberdade de nos mandar à merda a qualquer momento, se assim o entenderem. Nós por cá só nos resta agradecer as colaborações fora de série que temos tido ao longo de todas estas semanas desde Janeiro.

Se bem que um povo pouco culto questiona muito menos, é claro que não há um plano maléfico envolto em secretismos maçónicos de embrutecimento geral e de destruição da humanidade. Quem governa é simplesmente tóxico pela sua inércia e profunda incompetência. Mas também não é por acaso que regimes ditatoriais foram atrás dos artistas em primeiro lugar. Tirem conclusões, se quiserem.

Texto de Pedro Miguel
Fotografias de Ricardo Graça
(Publicado a 14 Novembro 2013)