Museus Marinha Grande_35E, de repente, a Marinha Grande é uma cidade de museus, um destino para quem gosta de colecções e exposições, acervos e artistas, colectivas e retrospectivas. Do vidro e dos moldes, inevitavelmente. Contado quase não dá para acreditar, porque durante largo tempo era mesmo assim – impossível. Mas existe. No cenário urbano dominado pelo ritmo das empresas, as actividades industriais que estão na origem do desenvolvimento do concelho ganharam lugar de honra entre as artes, através de novos núcleos expositivos, onde bate o coração da cultura.

Há vida no centro histórico, é o que é. Nos últimos meses de 2013, os marinhenses ganharam um Núcleo de Arte Contemporânea – o único em Portugal dedicado ao vidro nas artes plásticas – e um espaço exclusivo para a Colecção Visitável do futuro Museu da Indústria de Moldes (outro sonho antigo que se torna realidade). Recuperaram o Museu do Vidro – especializado em peças decorativas e utilitárias, esteve encerrado dois anos – e viram nascer oficinas de artesãos com maçariqueiros, lapidários e gravadores a trabalhar ao vivo, além de ateliês educativos para as crianças do primeiro ciclo, um auditório e uma cafetaria de apoio.

É tudo? Não é tudo. Isto é projecto de quando a troika não riscava nada e os milhões da Europa choviam sem sombra de pecado (quatro milhões comparticipados a 85%). Para o completar, falta o arranque da zona comercial no Edifício da Resinagem e, sobretudo, a abertura da Casa da Cultura, novo nome do Teatro, que está a ser alvo de profunda intervenção. Este é o presente. Quando se olha o passado, percebe-se que por ali já existiam – no mesmo complexo da antiga Fábrica Stephens – uma Galeria Municipal, a Biblioteca, o Arquivo e a Escola Profissional e Artística (EPAMG).

A grande aposta, o principal impacto, resulta do Núcleo de Arte Contemporânea. De uma só vez, coloca a Marinha Grande no mapa da expressão artística moderna e através de um intervenção arquitectónica arrojada – o “Cubo de Vidro” – confere dignidade a um conjunto de imóveis que se encontravam desocupados.

E agora? “O ano em que tivemos mais visitantes foi 2004, beneficiámos do Euro. A média de visitantes antes de o Museu fechar era de 20 mil por ano. Agora estamos a abrir o único Núcleo de Arte Contemporânea em Portugal dedicado exclusivamente ao vidro”, afirma Catarina Carvalho, conservadora do Museu do Vidro e responsável pelos museus municipais. A infra-estrutura está aí. A cidade industrial subiu um degrau na pirâmide de Maslow. Resta programar, fomentar hábitos, à espera que os equipamentos se encham com o que é mais importante: as pessoas.

Núcleo de Arte Contemporânea

  • Edifício da Resinagem – Pisos 1 e 2
  • Praça Guilherme Stephens
  • Terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00
  • Entrada gratuita
  • Inaugurado a 19 de Outubro de 2013

Começamos pelo mais impressionante, o NAC, no renovado Edifício da Resinagem. Destaca-se logo pela estrutura arquitectónica que o acolhe, um cubo envidraçado que emerge na paisagem, com 15 metros de altura. Reservado para o vidro nas artes plásticas. No piso 2 apresenta a exposição permanente, a Colecção de Arte Contemporânea do Museu do Vidro, cobrindo o período desde 1986 até à actualidade. Inclui peças de artistas portugueses e estrangeiros – Júlio Liberato, Erga Rehns e Maria Helena Matos, entre outros – realizados durante workshops na antiga Fábrica Escola, também trabalhos do pintor Gama Diniz, criações produzidas na Marinha Grande por diversos autores – Michael Taylor, Hiroshi Yamano e Barbara Walraven, por exemplo – e outras obras adquiridas pelo município (as jarras de Gilles Bettison e a caixa de Kyohei Fujita, nomeadamente), além de prémios e menções honrosas da Bienal da Marinha Grande, em que se destacam o mais recente primeiro lugar (de José Aurélio), as esculturas de João Limpinho a partir de materiais reciclados e as experiências de Teresa Almeida com vidro luminescente.

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No piso 1, encontra-se a exposição temporária, actualmente uma colectiva com o título “O lado feminino do vidro – glass seen throught feminine eyes”, trabalho de 16 mulheres de diferentes nacionalidades, da Austrália aos Estados Unidos, de Inglaterra à Noruega. Vale a pena dedicar atenção à escultura e instalação de Valeria Florescano. Cálices em vidro que representam trajes étnicos mexicanos e cujas sombras se projectam numa tela onde são exibidos filmes de natureza etnográfica, remetendo o público para outros lugares e épocas.

Colecção Visitável do Museu da Indústria de Moldes

  • Edifício da Resinagem – Piso 0
  • Praça Guilherme Stephens
  • Terça-feira a domingo, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00
  • Entrada gratuita
  • Inaugurado a 13 de Dezembro de 2013

Com o título “Esculpir o Aço”, é o embrião do futuro Museu da Indústria de Moldes e retrata 70 anos de história, desde os primeiros moldes para vidros até ao momento actual de moldes para plásticos, em que o sector colabora no fabrico dos mais variados bens, mas sobretudo automóveis, desde a ideia até à industrialização, passando pela engenharia de produto.

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Oficinas ao Vivo

  • Jardim Stephens
  • De terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00
  • Entrada incluída no bilhete do Museu do Vidro
  • Inauguradas a 3 de Agosto de 2013

O círculo de novidades fecha-se do outro lado da estrada, no Jardim Stephens. Ao entrar, à direita, junto à Galeria Municipal, ficam os serviços educativos e as oficinas de demonstração de fabrico e de decoração de vidro. Artesãos e artistas do vidro que, rotativamente, trabalham ao vivo, demonstrando as várias técnicas de fabrico e decoração, nomeadamente maçariqueiros e um lapidário e gravador. Podem ser adquiridas peças.

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Museu do Vidro

  • Jardim Stephens
  • De terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00
  • Bilhete: 1,50 euros (desconto de 50% para estudantes, pessoas com deficiência e reformados)
  • Reabriu a 13 de Julho de 2013

Ao entrar no Jardim Stephens, à esquerda, acede-se ao Museu do Vidro, reaberto no Verão passado após dois anos de portas fechadas. “Foi a primeira reestruturação de fundo desde a inauguração em 1998”, resume Catarina Carvalho. No piso 1 e 2 há novos núcleos, novas peças – que estavam em reserva – e novos materiais de comunicação, sempre com foco na dimensão decorativa e utilitária do vidro. Destaque para uma jarra da autoria de Vilma Libana, filha do mestre vidreiro José Roque de Jesus “Líbano”, um cristal lapidado e gravado a ácido que representa a cena da Última Ceia de Cristo com os Apóstolos. A zona dedicada ao processo e ao ambiente industrial, ao historial fabril, às matérias-primas e à química do vidro, também se encontra renovada. Quanto à exposição temporária, no piso térreo, trata-se de uma colecção de vidro contemporâneo e do acervo da Real Fábrica de La Granja, nos arredores de Segóvia, Espanha, que foi fundada no século XVIII.

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Texto de Cláudio Garcia
Fotografia de Ricardo Graça
(Publicado a 16 Janeiro 2014)