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Entramos e sentamo-nos. Pedimos uma bebida e ao som de um rock ‘n’ roll começamos a conversar, sobre cinema, claro está. Com a Preguiça é tudo à grande. Como tal, para começar, conversou com Paulo Kellerman, escritor leiriense que não gosta de estar parado e não diz que não quando a proposta é aliar a escrita ao cinema, à música, à fotografia, à ilustração ou à pintura.

1. Qual foi o último filme que viste? Que dizes?
Ensaio sobre a Cegueira, a partir do livro do Saramago. Pareceu-me fraquinho, mas se não tivesse lido o livro provavelmente iria achar bem mais interessante. É o que acontece quando se gosta muito de um livro que depois alguém transforma em filme.

2. Qual é o clássico do cinema que andas sempre a adiar?
As coisas do Manoel de Oliveira.

3. O teu top 3 filmes.
Isto dos tops não funciona lá muito bem comigo. Fazemos assim: escolho um filme de que gostei quando tinha 19 anos, um filme de que gostei quando tinha 29 anos e um filme de que gostei quando tinha 39 anos. Mas não lhe chamemos top. Os Condenados de Shawshank, Memento e O Sabor da Cereja. Ou então: Die Hard, Pulp Fiction e Amigos Improváveis.

4. O teu top 3 realizadores.
Se a pergunta fosse sobre três realizadores a que acho piada, talvez respondesse Woody Allen, Abbas Kiarostami e os irmãos Coen. Ou algo do género. Se falasse em quatro, poderia acrescentar o Tarantino. E em caso de serem cinco, acrescentava-se o Lynch.

5. Qual o teu actor e/ou actriz preferido(a)?
Julianne Moore, não sei explicar porquê. Mas pode estar relacionado com sardas.

6. A maior perda de tempo?
Quase tudo o que passa no canal Hollywood.

7. O que te leva a ver um filme? O realizador? A premissa? O elenco? Tudo isto junto? Ou nada disto?
Isso tudo. E nada disso. Geralmente é uma coisa de impulso, sem grandes racionalizações.

8. Se fosses uma personagem de um filme, qual serias e porquê?
Bom, deve ser suposto escolher o Super-Homem ou assim. Mas não. Talvez gostasse de ser o Philip Marlowe, uma personagem literária (criada pelo Raymond Chandler) que no cinema foi interpretado por muita gente, incluindo o Humphrey Bogart ou o Robert Mitchum. É uma figura solitária e misteriosa, nada óbvia, introspectiva, generosa, com tantos defeitos quantas as qualidades. Não salva o mundo mas, por vezes, ajuda a salvar uma pessoa; e isso é tudo aquilo a que podemos aspirar: ajudar alguém a salvar-se.

9. Um momento cinematográfico do qual te lembras recorrentemente.
O início do Platoon, talvez por causa da música do Samuel Barber.

10. Melhor banda sonora de sempre?
Trainspotting. Ou então O Piano, do Michael Nyman. Ou a banda sonora do Drive. Ou a música dos Air para As Virgens Suicidas.

11. Qual o filme da tua infância?
Música no Coração. Ainda tenho pesadelos por causa disso.

12. Que filme viste tantas vezes, ao ponto de saberes as falas de cor?
Nenhum, que sou fraquinho de memória. E não me lembro de ter visto um filme mais do que duas vezes.

13. Com que personagem do mundo do cinema gostavas de ter uma conversa de café?
Com a malta dos Simpsons.

14. Como escritor, qual achas que foi a melhor e a pior adaptação de uma obra literária ao cinema?
Sinceramente, não me lembro de nenhuma boa adaptação. Mas gosto muito de As Asas do Desejo, cujo argumento é de um escritor, Peter Handke. Não sei se conta. Quanto ao pior, uma adaptação que me irritou bastante foi A Mancha Humana, a partir de um livro do Philip Roth. As versões cinematográficas do Ripley, da Patricia Highsmith, também decepcionaram bastante. Queria ver o Orlando, da Virginia Woolf em filme, mas ainda não consegui.

    Paulo Kellerman nasceu em 1974 (Leiria). Além de numerosas edições de autor, colaborações dispersas na imprensa e participações em antologias literárias, publicou cinco livros de contos e foi o responsável pela concepção e edição de diversos e-books em colaboração com fotógrafos, ilustradores, músicos, pintores e escritores. Recebeu, entre outras distinções, o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores. Recentemente, o seu trabalho foi traduzido em Espanha. De momento, além de diversas actividades literárias, encontra-se envolvido num projecto cinematográfico e noutro musical.

Entrevista de Catarina Mamede
Ilustração de Rui Cardoso
(Publicado a 23 Janeiro 2014)