Miguel Reis_5

Miguel Reis, 39 anos, é daquelas personagens hiperactivas que atormentam a consciência alheia. À medida que os outros acumulam projectos na gaveta, ele escreve, publica, canta, desenha, grava, exibe, cria e recria. Até 27 de Fevereiro acontece a exposição Retrospetiva 4, ilustrações de 2009 a 2014. Mas há mais, ainda este ano: o conto ilustrado Le Voleur de Rêves (a editar) e o surpreendente projecto Trocadero, experiências em francês com o músico João Guerra, que pode ser explorado aqui.

Entre Portugal e França, ponte sem início nem fim, o senhor Comenta A Dor tornou-se desenhador, cantor e escritor. Ou apenas a tentativa de cada um deles, ele próprio coloca a interrogação. “Há sempre muita dualidade, um plano instável. Isso reflecte-se um pouco nos desenhos, com grandes contrastes, e na escrita, onde vou do riso ao choro. Seja nas relações, nas amizades, no trabalho ou na criação em geral, tenho sempre uma dualidade que me faz procurar e desejar uma estabilidade maior”. Apenas as coisas mais simples, banais, garante. “Um amor, alguém que receba o meu, que queira uma família, ter a sorte de partilhar viagens com outros olhos”.

Retrospectiva 4. Os trabalhos cobrem três períodos diferentes: desenho preto sobre papel branco (Tuptankhal), desenho sobre fotos (Marshisusva) e canetas de tinta branca, prata e ouro sobre papel preto (Les 6 Moments d’Un Amour). “As personagens são as mesmas, levam consigo uma mensagem, talvez a minha. Desassossegos, esperanças”, explica Miguel Reis.

O traço acompanha o instinto – “não planeio nem penso objectivamente no que vou fazer” – mas há nesta exposição uma origem, um momento inspirador. “Em 2008 li alguns livros que falam sobre a civilização egípcia, em especial o faraó Toutankhamon e outros sobre a civilização Maia, o rei Pacal em particular. Acho que absorvi algumas descrições e imagens. Talvez tenha sido isso ou talvez tenha sido coincidência e tenha despertado uma figura que eu já tinha. Em todo o caso, qualquer semelhança entre mim e os rostos carecas das minhas personagens é pura coincidência”.

Costumo dizer que sou um coração com pernas. Ele é que me faz andar, me motiva e as mãos e a cabeça são os seus acessórios. Penso e escrevo, penso e desenho. Não há nuvens na minha vida, e quando houve, fui eu que as criei”

Natural de Blois, cidade francesa de reis e cortesãs, do espírito do homem renascentista, Miguel Reis reside em Portugal desde 1995 e em Leiria desde o ano 2000. Nos próximos tempos vai regressar à casa de partida. Lyon, para gerir o showroom e os mercados francófonos de uma empresa de roupeiros, portas e aros. Se quando chegou a terras de Viriato, depois de cursar Marketing, vinha à procura de liberdade, agora que volta à Gáulia não tem receio de se enfiar numa gaiola dourada. “Sempre gostei de gaiolas, desde que não tenham pássaros enclausurados. A Gaiola Dourada tem algo de sensível e poético e reflecte bem a condição do emigrante, bem como a relação complexa entre filhos e pais, uns emigrantes e outros nascidos dessa emigração”, afirma à Preguiça. “Claro que emigrar custa imenso. Deixar amigos e família é doloroso, mas mais doloroso seria ficarmos estáticos e não fazer escolhas”.

Retrospectiva 4
Exposição até 27 de Fevereiro de 2014 na Biblioteca José Saramago do Instituto Politécnico de Leiria.

Percurso
Miguel Reis iniciou-se na banda desenhada na adolescência, participou em diversas exposições colectivas e individuais, foi finalista do concurso de BD da Amadora em 2011 e do concurso de BD FIL de Lausanne em 2012. Entre 1998 e 2001, compôs e cantou no projecto rock Flower Mind. Tem um livro publicado (Há Dias de Sorte) e outro pronto a editar (Le Voleur de Rêves, conto ilustrado). Escreveu as letras do disco Horas Sem Dias, de Ludgero Rosas.

Na internet
miguelreisart.jimdo.com

Texto de Cláudio Garcia
Fotografia de Ricardo Graça
(Publicado a 13 Fevereiro 2014)