rc1Coimbra, Leiria, Lisboa e Porto, principalmente Leiria (onde viveu até aos 17 anos e reside actualmente) e Lisboa (onde trabalhou durante 12 anos), são as cidades no caminho de Rita Cordeiro, designer, criativa de muita cor e múltiplas facetas, senhora de um talento especial para as artes visuais e de um olhar invulgar para a fotografia que lhe vale, até à data, 24 mil seguidores no Instagram.

Quem conhece as marcas wooler e cooler, conhece a Rita Cordeiro, modelo em auto-retrato nas suas próprias peças de crochet e tricot. Mas há mais, muito mais. Licenciada em Design da Comunicação Visual, dedica-se especialmente ao design editorial e aos livros. Não vive sem canções – “a minha vida tem banda-sonora desde que me lembro, o que traz grandes vantagens no que diz respeito às memórias, que têm sempre música a acompanhar – e não sai de casa sem máquina fotográfica ou, mais recentemente, sem o belo do iPhone. Nasceu em Coimbra em 1974.

“Sou uma rapariga no limbo entre o moderno e o tradicional”

Quando tens de explicar em que área trabalhas, o que dizes?
É simples: sou designer, quer quando trabalho na parte gráfica quer quando trabalho nas minhas peças em crochet, uma vez que sou eu que as crio, desenvolvo e produzo. Depois, para além disso, sou um bocado a mulher dos 7 instrumentos, já que sou eu que faço tudo, desde as peças, passando pelas fotos (todas as fotos da cooler e da wooler são auto-retratos), até à embalagem e ida aos CTT.

Trabalhas em casa?
Desde que voltei para Leiria trabalho como freelancer. Por isso, sim, trabalho maioritariamente em casa quando estou a fazer projectos gráficos. A grande vantagem do crochet é ser portátil, o que me permite trabalhar quando e onde eu quiser. Quer para uma coisa quer para outra, o que não pode faltar é a música. Não sou uma pessoa muito metódica, pelo que nunca faço as coisas pela mesma ordem ou segundo determinado hábito. Por um lado, é caótico. Por outro, é uma forma maravilhosa de contornar a monotonia e as rotinas.

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O artesanato urbano está um pouco na moda, mas tu começaste mais cedo do que a maioria das pessoas, julgo eu. Como e porquê?
Não sei se comecei antes da moda que se instalou, mas a intenção nunca foi fazer artesanato urbano. Nem sei se sei o que isso é. Uma amiga minha diz-me (e tenta convencer-me), há anos, que o que eu faço não é artesanato, mas sim jóias em linha e lã. Aprendi a fazer crochet com 7 anos e voltei a ele, após uma longa hibernação, quando a minha filha nasceu, há quase 8 anos, quando todos os tesouros feitos pela família vieram parar às minhas mãos e me lembrei de que sabia “falar aquela língua”. Regressar ao crochet foi como voltar a andar de bicicleta: nunca se esquece, por muito tempo que passe. Na altura, comecei por fazer mantas e depois fiz uma gola, que publiquei no flickr, e que foi um sucesso. Os pedidos sucederam-se e percebi que o projecto tinha pernas para andar e criei a wooler. No Verão seguinte criei a cooler.

Gosto de descobrir pontos pouco vulgares e de os usar em contextos menos óbvios e valorizo muito a cor e a forma. Acho que a maior inspiração vem do dia-a-dia, de todas as coisas com as quais me identifico

Que conselhos darias a quem procura iniciar um percurso semelhante, baseado em blogues e comércio online?
Ser sempre original. Ser persistente e não desistir à primeira contrariedade. Desmanchar e refazer muitas vezes. Procurar o acabamento perfeito. Ter boas ideias dá, realmente, muito trabalho, mas não há nada mais gratificante do que o reconhecimento posterior de que se conseguiu alguma coisa verdadeiramente inovadora.

O que é que te inspira para criar?
A minha inspiração principal vem do crochet clássico, que aprendi quando era pequena, mas tento que seja apenas um ponto de referência num tipo de aplicação menos convencional e que se distancie do que, há não assim tanto tempo, era considerado piroso e fora de moda. Gosto de descobrir pontos pouco vulgares e de os usar em contextos menos óbvios e valorizo muito a cor e a forma – e acho que isso se traduz como característica principal no meu trabalho. Acho que a maior inspiração vem do dia-a-dia, de todas as coisas com as quais me identifico. Penso muitas vezes em coisas que supram as minhas próprias necessidades. No que eu gostaria de usar. Tenho um grande fascínio por peças multi-funcionais, das golas que se transformam em capuz ou dos colares que se transformam em gola e surpreendo-me muitas vezes com novas utilizações que as pessoas dão às peças (como, por exemplo, usar um colar como cinto!).

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“A fotografia faz parte da minha vida e, tal como a música, é impossível viver sem ela”

Há algum conceito, referências, alguma identidade que passa de peça para peça e lhes confere coerência?
Gosto muito de descontextualizar num lado e contextualizar noutro e acho que tenho algumas influências tribais em algumas peças da cooler, outras mais tradicionais na wooler. Também gosto de brincar com a escala das coisas, se bem que essas peças não sejam usáveis por pessoas mais clássicas. Mas é engraçado perceber que as pessoas mais clássicas também gostam do meu trabalho e fazem encomendas de modelos mais extravagantes em cores mais suaves. A maior recompensa é o reconhecimento das peças como sendo minhas. Quem me segue consegue reconhecer o meu trabalho e isso acaba por me demonstrar que há mesmo um fio condutor, que às vezes me escapa por estar tão embrenhada nele.

Tanto o imaginário da wooler e da cooler como muitas das tuas fotografias no Instagram parecem um diálogo entre o moderno e o tradicional, entre o passado e um presente vanguardista. Concordas?
Tenho sempre muita dificuldade em analisar aquilo que faço e é sempre muito engraçado perceber a perspectiva das outras pessoas. Mas parece-me que essa conclusão faz todo o sentido, uma vez que o meu trabalho se baseia numa técnica ancestral, o crochet, aplicada em acessórios úteis, confortáveis e, espero, inovadores. Tento utilizar o que sei de uma forma menos convencional e acho que posso dizer que sou uma rapariga no limbo entre o moderno e o tradicional.

Gosto do Instagram porque tornou o exercício de fotografar mais imediato e acessível a toda a gente, pela facilidade e simplicidade com que se percebe o que move as pessoas no seu dia-a-dia. Para mim, é mesmo uma espécie de magia!

Em criança já tinhas inclinação para esta coisa dos trabalhos manuais?
Sempre fui bastante criativa e, quando era pequena, bastante irrequieta. A minha avó paterna conseguiu o prodígio de me manter sossegada com uma agulha e uma linha na mão. Consigo lembrar-me da estar na praia a fazer crochet e de como essa memória é boa. Sinto-me orgulhosa por poder honrar a memória da minha avó Tina que, ao semear isto em mim, estava longe de sonhar que um dia, passados tantos anos, eu traria o que ela me ensinou até aqui.

rc10Tens mais de 24 mil seguidores no Instagram… como é que isto aconteceu?
Pois é, uma verdadeira surpresa! Ainda hoje fico meia incrédula, mas o que aconteceu foi que o Instagram reparou em mim e passei a ser uma utilizadora sugerida, o que me trouxe uns bons milhares de seguidores. E, no final de 2013, tive um destaque no blogue, com direito a entrevista e tudo. O número é gratificante, claro, mas o que eu gosto mesmo é de saber que há pessoas deste e do outro lado do mundo, com experiências e vivências tão diferentes da minha, que valorizam e se identificam com o que eu faço. Eu gosto do Instagram pelas fotos, porque tornou o exercício de fotografar mais imediato e acessível a toda a gente, pela facilidade e simplicidade com que se percebe o que move as pessoas no seu dia-a-dia. Para mim, é mesmo uma espécie de magia! Comecei a tirar fotografias quando tinha 15 anos e, desde o advento da fotografia digital (e porque deixei de ter dinheiro para todo o processo que a fotografia analógica exige), fotografo todos os dias e colecciono as coisas de que não me quero esquecer. A fotografia faz parte da minha vida e, tal como a música, é impossível viver sem ela.

Na internet
blog.ritacordeiro.pt
instagram.com/ritacordeiro
wooler-shop.blogspot.pt/
facebook.com/woolerbyritacordeiro
cooler-shop.blogspot.pt/
facebook.com/coolerbyritacordeiro
flickr.com/photos/inmypocket

Entrevista de Cláudio Garcia
Fotografias de Rita Cordeiro
(Publicado a 27 Fevereiro 2014)