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Lembram-se da última vez que levaram uns sapatos para o arranjo? Ou melhor, alguma vez mandaram um par de sapatos para o arranjo?

Viriato Relvas, sapateiro há 60 anos, faz parte da mobília do centro histórico de Leiria. É na Rua do Beirão, nas traseiras da Biblioteca Municipal que tem a oficina para onde foi ainda miúdo aprender a tapar a boca a sapatos esfomeados.

Teve a sorte de ser aprendiz de Eduardo Gomes da Silva, um mestre no ofício que, na década de 50, formava jovens sapateiros, essa profissão com futuro.

Viriato foi ficando e ainda lá está… e se por acaso não está é porque foi ali ao Colonial ou ao Porto Artur beber uma tacinha e petiscar qualquer coisa com a malta amiga. Para qualquer assunto, o número de telefone está na porta para não deixar descalço o freguês que aparecer na hora do lanche.

O normal seria pensar-se que passa os dias com alguma solidão, que o trabalho já não chegue sequer para ocupar a cabeça ou que a sua permanência não fosse já mais do que uma simples rotina, como acontece com a maioria dos da sua geração… Afinal, quem precisa de sapateiros nos dias de hoje?

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Desenganem-se. Atolado de sapatos naquele pequeno cubículo onde ainda se serve da antiga máquina de coser Singer e da lamparina com que aquece a graxa de lata, Viriato é dos mais requisitados sapateiros da nossa praça. Minucioso com os pormenores – “tudo trabalho manual”, garante – e é assim que se constrói uma boa reputação.

Admite que os tempos mudaram: “Agora há sapatos tão baratos e de má qualidade que nem merecem o arranjo, mas há quem os traga e às vezes até fica quase mais caro o conserto do que uns sapatos novos…. e depois é isto que se vê” [sacos e sacos com calçado que os donos não foram levantar]. Lá vão ganhando com isso as instituições de apoio aos mais desfavorecidos, onde o sapateiro os entrega para serem doados.

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Mas nem tudo são sapatos reles. Viriato Relvas diz que “Leiria ainda é uma cidade onde as pessoas calçam e vestem bem”, por isso também trata da saúde a bom calçado. Tem clientes fiéis, daqueles que compram sapatos duracell, que duram e duram e duram…. muda-se as capas ou as solas, dá-se um bom banho de graxa e estão como novos.

Tens alguns desses? Talvez esteja na hora de investires e se por acaso ainda ninguém te disse, o calçado português é do melhor que se faz por aí.

Texto de Paula Lagoa
Fotografias de Ricardo Graça
(Publicado a 13 Março 2014)