Enfardar pela Europa Madrid e ToledoJá estavam com saudades dos nossos relatos gastronómicos kerouakianos, que é como quem diz em modo on the road, confessem. Pois é: quem não serve para comer não serve para trabalhar, lá diz o ditado. Mas fiquem descansados: preguiça de dar ao dente é bicho que não ataca por estes lados. Desta vez o destino foi Madrid, com um salto a Toledo pelo meio, e o que propomos é um roteiro low cost, com umas coisas bem típicas, outras nem tanto e uma mão-cheia de lugares onde vale mesmo a pena parar. Nem restaurantes de luxo, nem só bocadillos no bucho.

Já se sabe que quando se vai de viagem, além da mala feita e dos olhos e ouvidos bem abertos, convém levar também os maxilares prontos, à espera de ordem para atacar. É que isto de andar a ver monumentos e museus de empreitada é muito bonito, a papar quilómetros em duas pernas como se não houvesse amanhã (e sobretudo como se não houvesse cãibras, nem dores nos gémeos), mas há que parar de tempos a tempos para encher o depósito.

Esqueçam lá os chefs com estrelas Michelin e os terraços XPTO no cimo de um prédio de 15 andares, que viram no programa do Bourdain – até rimou. Na Preguiça também se fazem descobertas bem jeitosas, mas com um zero a menos na conta (o que, parecendo que não, faz uma diferençazita). Como os melhores churros com chocolate da cidade, por exemplo. Mas já lá iremos.

Antes disso, só um parênteses de esclarecimento para o caso de se estarem a interrogar acerca do nome desta rubrica. Então no país das tapas não devia ser petiscar, em vez de enfardar? E a resposta é não. O caminho pode ser outro, mas o resultado é o mesmo: seja na versão tuga mais enfarta-brutos ou na modalidade pica-aqui-pica-acolá tão apreciada pelos nossos vizinhos, a verdade é que se acaba invariavelmente com uma barrigada de comida de todo o tamanho, acreditem.

Quem tem tapa sempre escapa

IMG_2944IMG_2951O primeiro sítio onde esta tese ficou provada foi no Mercado de San Miguel. Um espaço de visita obrigatória, com paredes envidraçadas, bancas de tudo e mais alguma coisa (frutas, enchidos, queijos, ostras, mariscos, chocolates, vinhos) e mesas ao centro, onde arranjar lugar é mais ou menos como aquele jogo das cadeiras quando acaba a música, só que sempre – e não apenas no fim da música. Os preços são um bocado inflacionados, mas dá para provar um pouco de tudo e vale sobretudo pelo espaço e pela experiência. Funciona das 10h às 2h non stop, embora ao anoitecer seja especialmente animado.

E no dia seguinte foi feita a prova dos 9 no Lateral. Sim, dos 9 pratos (Calma! Foi para 4 pessoas, não sou nenhum javali. Dois eram doses pequenas e os outros sete pinchos, ok?). Escolhemos (respirar fundo): crepes com cogumelos; alcachofras fritas com presunto; beringelas fritas com salmorejo; mini-hambúrgueres com redução de Pedro Ximénez; bruschetta com presunto, tomate e azeite; tempura de vegetais com molho de iogurte; lombo de porco com queijo brie fundido; bruschetta de brie e presunto e foie-gras com maçã.

Aqui já se comem tapas em versão mais sofisticada, menos para turista ver e mais para madrileno comer. E é realmente bom. Muita malta na casa dos vinte e trinta, ambiente cool, decoração simples a roçar o betinho, com uma relação qualidade/preço simpática (média de 15€/pessoa) e um Luís de Matos dos cocktails a fazer magia com três M atrás do balcão: maravilhosos mojitos madrilenos. Não admira que o spot esteja sempre à pinha e aos fins-de-semana haja gente disposta a esperar uma hora e meia em pé (!) por uma mesa. Ah pois é. O conceito foi um sucesso absoluto e em poucos meses já têm 6 restaurantes (and counting). É ir lá daqui a meio ano e talvez já sejam o dobro.

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Pois pois, o presunto assim fininho marcha bem e o queijo manchego ainda melhor, mas ao fim de um dia ou dois já se deita empanadas e croquetas pelos olhos e não se pode ver tanto pão à frente. Ele é tostadas com tomate ao pequeno-almoço, ele é sandochas (perdão, bocadillos) a torto e a direito. Por isso, é preciso variar um bocadinho. Se estiverem a ressacar de um bom hambúrguer (daqueles que já não cabem no conceito de fast food), o H3 lá do sítio chama-se Home Burger Bar: a carne é biológica, as opções são mais que muitas e incluem hambúrgueres de frango com brie ou de camarões picantes (11 a 13€). O espaço é acolhedor q.b. e já existem uns quantos espalhados pela cidade. Mas tudo restaurantes a sério, nada de luzes de cozinha em centros comerciais. Outra possibilidade em cenário mais kitsch é o Tommys Mel’s, ao estilo diner americano anos 50, onde há uma lista de batidos que nunca mais acaba e empregadas vestidas de pin-up.

IMG_3036À falta de máquina do tempo, na estação da Atocha apanha-se o comboio até Toledo e basta meia hora para ir parar outra vez à época medieval. Toledo deve estar para nuestros hermanos como Óbidos para nós, só que numa escala maior. Por lá come-se basicamente o mesmo que em Madrid, dá ideia que só muda a doçaria. Montra sim montra também repetem-se as mesmas caixas com bolinhas amarelas feitas de doce de ovos; outras de massapão e ainda os famosos toledanos (espécie de pastéis com consistência de areias, salpicados de amêndoa e recheados de chila), que parecem mesmo feitos para condizer com a arquitectura. É bom para trincar enquanto se descansa as pernas e se avista o Tejo (não é erro, é mesmo o Tejo) a passar lá em baixo.

IMG_3051Se não forem fãs do pão com tomate, podem tomar o pequeno-almoço no café bistrô da Livraria La Central junto à Plaza Callao. Ao fim-de-semana tem brunch. É o melhor de dois mundos: a livraria propriamente dita ocupa três andares, tem uma selecção de títulos de fazer inveja à Fnac e um pátio interior com um bistrô que convida a comer com os olhos, ou a acompanhar o desayuno com um livro, que vai quase dar ao mesmo. “Somos o que comemos”, lê-se na parede atrás do balcão. E quem sabe se o que lemos possa ser o pozinho de perlimpimpim da receita… gostamos de acreditar que sim (e eles, pelos vistos, também).

IMG_3050Outra alternativa, só para fígados corajosos, mas definitivamente dentro do espírito local, é começar o dia a mandar abaixo um valente prato de churros com chocolate. Basta ir até à Plaza del Sol e subir mais 50 metros até Los Pinchitos: uma cervejaria de ar chunguita aparentemente igual a tantas outras, mas com os melhores churros da cidade, garantiu-nos quem lá mora. E nós agradecemos a dica, porque são mesmo estaladiços, confirma-se, e o chocolate quente, espesso e escuro, dá para comer à colher. Ou para fazer de piscina onde os churros mergulham de cabeça: a ideia é essa (6€ para duas pessoas).

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Vai uma aposta como a maioria dos turistas não é tão bem servido noutros lados ou vai gastar o dobro ou o triplo à Chocolateria San Ginés, toda finória, que fica a poucos minutos dali? Ah ah, azarinho, quem manda não lerem a Preguiça? E do lado de cá da fronteira, se só a ideia desta bomba de colesterol matinal vos repugna, esperem até provar. Já sabem como é: primeiro Espanha-se, depois entranha-se.

Mercado de San Miguel
Plaza de San Miguel | Madrid
Tel: (0034) 915 42 49 36
Site: http://www.mercadodesanmiguel.es/

Lateral
C/ Arturo Soria, 126-128 | Madrid. Tel: (0034) 91 300 36 01
Passeo de La Castellana, 42 | Madrid. Tel: (0034) 91 575 25 53
Passeo de La Castellana, 89 | Madrid. Tel: (0034) 91 561 33 37
C/ Fuencarral, 43 | Madrid. Tel: (0034) 91 531 68 77
Plaza de Santa Ana, 12 | Madrid. Tel: (0034) 91 420 15 82
C/ Velázquez, 57 | Madrid. Tel: (0034) 91 435 06 04
Site: http://www.lateral.com/

Home Burger Bar
Site: http://homeburgerbar.com/web/

Tommy’s Mel’s
Site: http://www.tommymels.com/

La Central de Callao – livraria e bistrô
Calle Postigo de San Martín, 8 | Madrid
(junto à Plaza de Callao)
Site: http://www.lacentral.com/web/librerias/Callao/

Los Pinchitos
Calle Esparteros, 5-7 | Madrid
(junto à Plaza del Sol)
Tel: (0034) 915 31 75 56

Texto e fotografias de Catarina Sacramento
(Publicado a 27 Março 2014)