Sandrine Cordeiro_int

Vinte anos de pintura cabem em dois pisos do edifício do Banco de Portugal, em Leiria? Cabem. A retrospectiva que inaugura este sábado, dia 5, viaja através de sete conjuntos de obras, revelando o experimentalismo constante e a grande versatilidade de Sandrine Cordeiro, quase como múltiplas personalidades trazidas à tela em diferentes momentos.

Sete fases, sete vidas, que podem, ou não, explorar-se cronologicamente de sala para sala. Os trabalhos mais antigos encontram-se agrupados sob a etiqueta “Vaguear” e são essencialmente explorações a óleo de elementos arquitectónicos. A partir daí, a exposição desdobra-se em vários sentidos, raramente semelhantes, até chegar a 2014 e à produção mais recente, “Sete”, um retrato quente das ruas de Cuba onde o corpo humano se torna protagonista da pintura de Sandrine Cordeiro pela primeira vez em muito, muito tempo.

Mas, 7/1 Sete é mais do que uma retrospectiva: é também uma angariação de fundos a favor da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral (APPC) de Leiria (25% de cada venda) e ainda o pretexto para sete sábados com música, dança, teatro e histórias de miúdos e graúdos. Estão de serviço o pianista Fabrício Cordeiro, a voz de Laura Marques, o projecto Tokushima, a Orquestra Juvenil da Sociedade Filarmónica Vermoilense, a companhia Te-Ato, o Banco Bailado e Ana Moderno.

Sandrine Cordeiro _ Preguiça Magazine_6

Assinalando duas décadas de pintura, Sandrine Cordeiro aproveita para dar a conhecer quadros que provavelmente não voltariam a ser expostos. O primeiro salto estilístico acontece logo na segunda série, “Com os pés assentes no chão+corpo”, que representa o início dos trabalhos a acrílico, pastel e carvão. Todos os conjuntos remetem para um período específico – por exemplo, as formas geométricas de “Construir, Habitar, Pensar” são influenciadas pelos escritos de Martin Heidegger e outros textos sobre a vida nas cidades. Talvez o momento maior aconteça em “Projecto Página 76/05”. Aqui, há uma estética mais gráfica, quase pop, que é o final de um processo criativo complexo, entre a charada e a cabala. A artista natural de Paris partiu do seu próprio dia e ano de nascimento para produzir obras com as mesmas dimensões e espessura, cujos ambientes são a interpretação do texto da página 76 de livros escritos por autores falecidos em 1976. Confusos? A Maddona explica, mas o importante é o resultado e o resultado é muito interessante. Há caveiras construídas com bombons de chocolate, cruzetas, impressões digitais e fotografias de Sandrine Cordeiro em modo criança fotomaton. A ver. Outro ponto alto acontece na sala “Cortar”: antigas barbearias e respectivos instrumentos do ofício, quadros cheios de alma, apesar de nunca se encontrarem habitados.

Sandrine Cordeiro _ Preguiça Magazine_3

Nós não percebemos nada de pintura, mas gostámos de espreitar os preparativos. Vocês, por outro lado, podem sempre ir ao m|i|mo ver a exposição do namorado da Sandrine, João Ferreira. De certeza que eles não se zangam.

Bio
Sandrine Cordeiro nasceu em Paris, França, em 1976. Começou a desenvolver o gosto pelo desenho ainda em criança e no final da adolescência interessou-se pela pintura. Frequentou a Escola Superior de Artes Plásticas do Instituto Politécnico de Leiria, em Caldas da Rainha, fez teatro e actualmente ensina Expressão Artística na Escola de Formação Social Rural de Leiria.

  • Exposição 7/1 Sete
  • Vinte anos de pintura de Sandrine Cordeiro
  • 5 de Abril a 23 de Maio
  • Banco de Portugal, Leiria
  • 5 de Abril: Fabrício Cordeiro a solo (piano)
  • 12 de Abril: Orquestra Juvenil da Sociedade Filarmónica Vermoilense
  • 19 de Abril: “Mr. Swap”, pelo Te-Ato (teatro)
  • 26 de Abril: Laura Marques e Fabrício Cordeiro (voz e piano)
  • 3 de Maio: Banco Bailado (danças do mundo para todos)
  • 10 de Maio: “Modernices para miúdos e graúdos”, por Ana Moderno (histórias)
  • 17 de Maio: Projecto Tokushima (guitarra)
  • Todos os espectáculos às 16 horas

Texto de Cláudio Garcia
Fotografias de Ricardo Graça
(Publicado a 3 Abril 2014)