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Era uma vez uma palavra que vivia confortavelmente no dicionário, tentando passar despercebida entre a multidão de letras. Até que – ah-ha! – alguém lhe apontou um holofote e fez com que toda a gente reparasse nela. É mais ou menos isso que se pretende com esta rubrica: mostrar, com as letras de uma mão e os desenhos de outra, porque é que estas são Palavras de Que Eu Gosto.

#4: ORNITORRINCO

Há bichos com mais sorte do que outros (ao que parece, a injustiça não olha a espécies). E o ornitorrinco é um deles: pertence a uma pequena elite de animais com nomes carismáticos. Podem não ser bonitos, mas a verdade é que a designação estilosa lhes dá charme suficiente para seduzir um zoo inteiro. Um nome com personalidade faz maravilhas.

O ornitorrinco é assim o equivalente ao Gainsbourg do reino animal. E não me refiro à voz nem às orelhas, mas à pinta. Basta apresentar-se pelo nome e as fêmeas caem-lhes aos pés como tordos. Nunca falha.

A técnica também resulta bem com humanos: eu sou a prova viva disso – fiquei completamente rendida à palavra ornitorrinco, foi amor à primeira audição – e algo me diz que há por aí mais pessoas com uma queda especial para bicharada de nomes patuscos. Gente que era capaz de levar um para casa só pelo prazer de poder dizer em voz alta: “Tenho um ornitorrinco, uma suricata, um guaxinim, um pintarroxo, um ratel.”

No caso do ornitorrinco, o aspecto consegue ser ainda mais insólito do que o nome. A sua bizarra fisionomia parece o resultado daqueles livros infantis em que se criam animais juntando uma parte de três bichos diferentes e o conjunto revela uma criatura estrambólica qualquer, que só existe mesmo na imaginação de quem a inventa.

A avaliar pela aparência, o ornitorrinco tinha tudo para ser um animal mitológico – ora vejam: corpo de castor, bico de pato e garras de urso. E ainda dizem que a realidade não supera a ficção. Pensando bem, devia era chamar-se caspaturso. Ah, mas depois já não era uma palavra de que eu gosto. Deixa cá ver… caspaturso… caspaturso… Bem, e daí, talvez até fosse.

Texto de Catarina Sacramento
Ilustração de Rita Cortez Pinto
(Publicado a 17 Abril 2014)

  • Catarina Sacramento (Leiria, 1977). Começou a ler e a escrever aos 6 anos e desde então não faz outra coisa. Licenciada em Ciências da Comunicação (FCSH/UNL), trabalhou sempre na área da cultura/artes (jornal Blitz, revista Time Out Lisboa, Texto Editores) e turismo/lazer (portais online, Lifecooler e Myguide). Viveu meia vida em Leiria e outra meia em Lisboa, com um saltinho a Macau pelo meio. É jornalista, parteira de livros e caçadora de erros em regime freelancer. Para a Preguiça Magazine, depois da série ‘Na Espreguiçadeira com…’ (uma entrevista em forma de questionário literário), criou agora esta rubrica mensal: ‘Palavras de que Eu Gosto’ são crónicas mais ou menos delirantes, ilustradas por Rita Cortez Pinto.
  • Rita Cortez Pinto (Lisboa, 1977). Construtora de desenhos em papel, o seu trabalho cruza vários universos que têm sempre em comum o mundo do Desenho. Movimenta-se entre as artes plásticas, a ilustração e também a arte-educação, com diferentes públicos, em especial o infantil. Tem formação superior em Arquitectura de Design pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa e o Curso Avançado de Artes Plásticas pelo ArCo. Expõe regularmente desde 1999 e colabora desde 2003 em diferentes instituições museológicas e projectos individuais na área da educação artística para crianças. Mais info no blogue acaixavoadora.blogspot.com e no site www.ritacortezpinto.yolasite.com.