6b5de7bac9bd11e3a8050002c9147350_8Dizem que as longas horas passadas a conduzir em silêncio, sob temperaturas impraticáveis, sem nos cruzarmos com ninguém durante milhas e milhas, são bons pontos de partida para viagens interiores. Como a Maria que enfrentava a vida com uma perna às costas não é a mesma que, ultimamente, caminha vergada sob o peso das responsabilidades e de joelhos perante os problemas, lá fui eu seguir os conselhos da cultura popular: viajar pelo deserto e ver se me encontrava, no processo.

Estágio mete-nojo

Também dizem que não se deve ir para o deserto sem a devida preparação. Eu fiz três dias de treino intensivo em Coachella. Houve aeróbica com os OutKast e o Pharrel, levantamento de pesos pesados com o Ty Segall e os Motorhead, alongamentos nos Cage the Elefant e na Lana, com os Pixies fiz as pazes depois de uns anos sem nos falarmos, depois mais ginástica acrobática com o Fat Boy Slim, salto em altura com os Queens of the Stone Age e os Toy Dolls e sprints para o Beck e os Arcade Fire.

10251311_1423879221198947_34650781_n

No fim deste estágio, começou então a minha viagem pelo deserto, a partir de Palm Springs, que faz lembrar um bocadinho o nosso pior Algarve e sobre a qual se diz que a temperatura nesta altura do ano e a idade média dos habitantes são sensivelmente a mesma: 88.

Os coiotes também se abatem

Uma portuguesa entra num bar em Badwater e pergunta ao barman: “O que é que os coiotes comem”? O homem, Joe de sua graça, explica à europeia branquela que eles lançam o dente a tudo o que apanham, sobretudo animais de estimação. E, por isso, muitas pessoas acabam por disparar chumbo sobre eles. Este é povo de conversa fácil e a portuguesa, já animada pela segunda cerveja que teima em não lhe lavar a areia da boca, lança-se num arraial de louvores à sua própria terra, como que acometida por um ataque de bazófia.

9772a26aca9811e389e30002c9c7c81c_8

Como dizem os locais, “she’s having a crap attack”. Lá vai explicando, meio frenética, que faz daí a dias 40 anos que, no seu país, se fez uma revolução sem tiros – como se isso fosse motivo de orgulho para esta gente que está agora mesmo a aprovar uma lei que permite, em mais um estado, levar armas para a igreja e para o bar (tem tudo para correr bem, não tem?). Interrompo-me na narrativa por cinco segundos para pensar como raio se diz cravo em inglês… O meu interlocutor aproveita-se da minha pausa, e atira: “Yeah, but I always wanted to go to Spain”. Pronto, Joe, já ficaste sem gorja.

Las Piedras Rolantes

Já saí da Albufeira americana há dois dias e começo a achar que a coisa da viagem interior é bullshit americano. Yada yada yada. Gastei um dia só para atravessar o deserto de Mojave, que é terreno abundante em cactos e calhaus. Lá dentro, cruzo o Parque Nacional de Joshua’s Tree, onde pergunto a um lone ranger pela árvore que deu nome ao disco. “Essa já foi abaixo há muito tempo.” E isso faz-me pensar que os U2 são mesmo uma fraude. O que não falta por ali, musicalmente falando, são formações rochosas miraculosamente equilibradas, umas em cima das outras, que parece que vão começar a ceder à lei da gravidade, tipo rolling stones.

f2cf9572c9b811e3a6d70002c9db0328_8

É um espectáculo surreal. E quando pensas que os teus olhos não aguentam mais beleza, viras mais uma curva no caminho e… kapow! Vês um belíssimo jardim de cactos, com espécimes a perder de vista. Tento tocar num, porque os americanos me disseram para não o fazer e eles não mandam em mim. Sinto-me muito livre, mas ainda ando a coçar os braços.

O golpe mais sujo no ponto mais baixo

Ao segundo dia de road trip, passo por uma rua deserta de casas de madeira abandonadas, com aspecto de estarem ali desde os tempos dos cowboys. À medida que leio a placa que diz “Shoshone. Last residente moved out in 1986”, apanho o Dylan a cantar na rádio, na sua fase mais nasalada: “How does it feeeeeeel, To be on your ooooooown, like a complete unknoooooown”. De repente, ele fica mudo. E é então que percebo que entrei no coração do Death Valley, onde as ondas da rádio vão para morrer. Dentro da minha cabeça, dou por mim a citar as escrituras, como um personagem do Tarantino ou uma letra do Nick Cave: “Even though I walk through the valley of the shadow of death, I will fear no evil”.

ea3316f0c97c11e389a50002c9e194e4_8

Este deve ser o pedaço de terra mais impressionante que já vi na minha vida, contemplando a Islândia e alguns troços da China. Guio mais de 100 milhas sem me cruzar com ninguém, o termómetro do carro a marcar 100 Fº e a paisagem a ficar cada vez mais estranha e dramática. De um lado, há escarpas cor de laranja e roxas (são minerais, senhor, são minerais); do outro, há lagos secos e brancos do sal. Ao longe, vejo a areia a elevar-se como uma bruma e a formar, aqui e ali, pequenos redemoinhos. Pergunto-me se o Ford de aluguer resistirá intacto à sua força centrífuga. Chego então a um estacionamento no meio do nada, com quatro ou cinco carros lá parados. Uma placa anuncia: Earth’s Lowest.

Supostamente, é o sítio ao ar livre mais baixo do hemisfério, 282 pés abaixo do nível médio da água do mar. Eu cá acho que se chama assim porque este lugar, inóspito e insuportável, é o golpe mais baixo que o planeta te consegue atirar. Devolvo-lhe o ataque com todo o peso que carreguei até ali. Largo a minha bagagem, enterro no solo estéril as minhas dores e vou-me embora, celebrar a liberdade.

Fiquem sintonizados para cenas dos próximos capítulos, na rota dos Beatniks até ao Big Sur, em que o Ventil se me acaba e eu decido tentar deixar de fumar porque, de qualquer maneira, não se arranja uma bica decente em lado nenhum, e toda a gente que já fumou ou viu o filme do Jim Jarmusch sabe que café e cigarros vão melhor juntos. Como batatas fritas e ketchup. Ou o sol e a Califórnia.

Texto e fotografias de Maria Miguel Ferreira
(Publicado a 1 Maio 2014)