trouxe-mouxe_palavras_de_que_eu_gosto_Rita_Cortez_PintoEra uma vez uma palavra que vivia confortavelmente no dicionário, tentando passar despercebida entre a multidão de letras. Até que – ah-ha! – alguém lhe apontou um holofote e fez com que toda a gente reparasse nela. É mais ou menos isso que se pretende com esta rubrica: mostrar, com as letras de uma mão e os desenhos de outra, porque é que estas são Palavras de Que Eu Gosto.

 #5: TROUXE-MOUXE

Ali numa certa idade (ou será melhor dizer até certa idade?) é certinho: tudo o que uma criança faz é mal feito. O jeito é pouco, a paciência menos ainda. Seja a puxar as orelhas à cama, a dobrar a roupa ou a procurar um quebra-nozes numa gaveta, os miúdos não atinam nem por nada. São pouco dados a tarefas minuciosas e têm sempre os radares da atenção sintonizados em tudo menos naquilo que os pais gostariam.

Lembro-me bem da sensação: os copos a escorregarem-me das mãos como se elas estivessem rotas, e sempre que a minha mãe me pedia uma coisa do frigorífico, acabava por ter ela de a vir buscar, já que eu conseguia estar com a porta aberta há duas horas e os olhos continuavam a não vislumbrar patavina. Claro que, mal ela lá chegava, dava com aquilo em aproximadamente 0,3 segundos. Um clássico.

E, em seguida, no seu tom materno complaciente (complacente + paciente) – o tom de quem sabe que, até virmos a ser gente, aquele processo repetido de tentativa e erro será sempre uma inevitabilidade –, chegava a confirmação verbalizada da minha inépcia: “Estás a fazer isso a trouxe-mouxe.” A minha mãe estava convencida de que era falta de vontade. Mas não: era mesmo falta de jeito.

Apesar de torcer o nariz à reprimenda, sempre achei graça àquilo do trouxe-mouxe. A própria palavra é meio trôpega e desconjuntada, como se lhe fosse cair uma letra a qualquer momento. Talvez ela também fosse trapalhona e estivesse sempre a marrar contra as esquinas dos móveis – uma espécie de girafa eternamente inadaptada à sua bizarra fisionomia, incapaz de calcular bem o espaço que ocupa. Uma palavra pré-adolescente, como eu era.

Uns anos mais tarde, uma vez por outra, havia de me fugir a cabeça para a asneira. Mas nessa altura ainda era só o corpo à beira do precipício: um corpo em desequilíbrio permanente, pequeno furacão de gestos bruscos, a tropeçar nos seus próprios pés e a levar tudo à frente. Mas há outra maneira de crescer sem ser a trouxe-mouxe?

Texto de Catarina Sacramento
Ilustração de Rita Cortez Pinto
(Publicado a 8 Maio 2014)

  • Catarina Sacramento (Leiria, 1977). Começou a ler e a escrever aos 6 anos e desde então não faz outra coisa. Licenciada em Ciências da Comunicação (FCSH/UNL), trabalhou sempre na área da cultura/artes (jornal Blitz, revista Time Out Lisboa, Texto Editores) e turismo/lazer (portais online, Lifecooler e Myguide). Viveu meia vida em Leiria e outra meia em Lisboa, com um saltinho a Macau pelo meio. É jornalista, parteira de livros e caçadora de erros em regime freelancer. Para a Preguiça Magazine, depois da série ‘Na Espreguiçadeira com…’ (uma entrevista em forma de questionário literário), criou agora esta rubrica mensal: ‘Palavras de que Eu Gosto’ são crónicas mais ou menos delirantes, ilustradas por Rita Cortez Pinto.
  • Rita Cortez Pinto (Lisboa, 1977). Construtora de desenhos em papel, o seu trabalho cruza vários universos que têm sempre em comum o mundo do Desenho. Movimenta-se entre as artes plásticas, a ilustração e também a arte-educação, com diferentes públicos, em especial o infantil. Tem formação superior em Arquitectura de Design pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa e o Curso Avançado de Artes Plásticas pelo ArCo. Expõe regularmente desde 1999 e colabora desde 2003 em diferentes instituições museológicas e projectos individuais na área da educação artística para crianças. Mais info no blogue acaixavoadora.blogspot.com e no site www.ritacortezpinto.yolasite.com.