projecto Preguiça_20 sílabaSecção quinzenal de ficção na Preguiça, coordenada por Paulo Kellerman. Quinze escritores criam pequenas estórias a partir de uma fotografia de Ricardo Graça.

MARIANA, 11 DE FEVEREIRO DE 2015
Francisco Moreira e Liliana Carvalho

O vento haveria de intrometer‐se nas aspas do teu vestido e escrever no avesso da fotografia que ainda eras uma menina naquele dia. Aprendi contigo a confiar nestas coisas que nos ajudam a recordar os instantes em que fomos um sorriso, depois um abraço e, por fim, um caminhar de mão dada. Foi assim que te vi crescer, através de um calendário mágico: tiveste sempre dois anos. Ou cinco. Ou oito. Por essa altura, tive medo de uma bicicleta a correr em direcção à pele dos teus joelhos. Mas havia sempre uma vizinha aflita que tirava o coração da lixívia e ia em teu socorro – estás bem, filha? – e só o carinho era água fresca a correr pelos teus joelhos ardidos. Foi também por esse tempo que decidiste não gostar mais de balões nem de papagaios de papel. “O que foi feito para voar não pode estar preso a um cordel”, disseste tu e disse o teu pé a bater no chão. Mal me chegavas à cintura e já sabias tanto.

Sabes, um dia vou contar‐te um segredo – eu sabia sempre quando tinhas algo para dizer, ainda que não o quisesses. Quando esse dia chegar, vou dizer‐te que eram as tuas mãos. Que as escondias, como se soubesses que seriam elas a revelar o que querias guardar só para ti. Mas como poderias tu, menina que eras então – terias três, quatro ou sete anos – querer guardar tão grandes segredos? Tão pequena e já não havia torres nem castelos demasiado altos para ti.

O vento intrometeu‐se nos álbuns da minha memória e escreveu nas elipses do tempo que eras ainda uma menina na fotografia daquele dia. E terás o nome que os olhos da tua mãe me sussurrarem ao ouvido.

Seremos felizes. Para sempre.

(Publicado a 15 Maio 2014)