franscisco-rodrigues-lobo_-rota-dos-escritores

22 de Maio, dia da cidade. Dou por mim a olhar a estátua de Rodrigues Lobo, talvez a menos estática de todas as estátuas da cidade, tendo em conta as constantes mudanças a que já foi sujeita. Dou por mim a observar a praça com o seu nome, sempre repleta de leirienses e visitantes. E, neste dia da cidade de Leiria, uma pergunta paira na minha mente: Será que os leirienses sabem quem é Francisco Rodrigues Lobo? Afinal, este sim, ao contrário de outros escritores a quem dedicam anos e rotas literárias, é um poeta leiriense.

Há algum tempo, por questões académicas, dei comigo a revisitar a obra de Rodrigues Lobo. Nessa altura (para além de ter constatado a importância que a sua obra Corte na Aldeia teve ao inaugurar o estilo barroco na literatura portuguesa), apercebi-me de uma coincidência caricata: o poeta nasceu em 1580 (data do início do domínio filipino), o mesmo ano que viu morrer Camões, curiosamente o autor que o inspirou no seu conhecido bucolismo poético.

Corte na Aldeia, de 1619, é considerada uma das obras mais tardias e maduras do escritor, contribuindo para educar toda uma geração vindoura de homens das letras. Os seus 16 diálogos didácticos têm por objectivo a crítica ao domínio castelhano que assombrou o Portugal de Rodrigues Lobo (o poeta apenas viveu durante a dinastia filipina), funcionando como uma expressão de resistência a esse mesmo domínio.

Esta referência vem a propósito das famosas esplanadas da praça com o seu nome, e de como estas inspiram os transeuntes que decidem ali descansar um pouco e contemplar a bela vista para o castelo. É neste sentido que recordo saudosamente o poeta que, na dedicatória desta sua obra, alerta para a necessidade de cuidar da “língua e da nação portuguesas”.

Também é essa uma das minhas maiores preocupações. Contudo, todos os dias me apercebo de inúmeras calinadas, como “destrocar dinheiro”, “desfolhar o livro” ou “esqueceu-me”. E quando estou numa das esplanadas da praça, a ler um livro ou simplesmente a beber um café, olho de frente para o poeta e penso como ele se sentiria frustrado com o que se passa à sua volta. Às vezes, com aguçada curiosidade, ouço algumas pseudoconversas (aliás, pródigas – em Leiria, sobretudo na praça, considerada um lugar in), penso na futilidade da vida humana e acabo por me remeter ao silêncio, em divagações. E é nessa altura que compreendo que ninguém repara em Rodrigues Lobo, ninguém conhece Afonso Lopes Vieira e possivelmente ninguém se apercebe da estátua de Camões ou do pastor bucólico no nosso jardim.

Estimados leirienses: não se deixem levar pela inércia dos nossos dias e pela epifania da tecnologia e da informação fácil e imediata. Olhem o poeta de frente, leiam os seus versos ou outros quaisquer. Mas leiam, conheçam os nossos autores, desfrutem da praça com um livro no colo, embalando a língua portuguesa como a uma amiga que precisa de carinho constante. Rodrigues Lobo irá sorrir do seu pedestal e eu vou piscar-lhe o olho, esboçando também um sorriso.

Texto de Vanda Balão
Fotografias de Ricardo Graça
(Publicado a 22 Maio 2014)