preguiça_magazineSecção quinzenal de ficção na Preguiça, coordenada por Paulo Kellerman. Quinze escritores criam pequenas estórias a partir de uma fotografia de Ricardo Graça.

O VITELO E O AMANTE
Jack London

Acordei menstruada. Sinto-a húmida e fria entre as pernas, enquanto a luz pálida da manhã se refracta contra a janela do hotel. Desenha sombras lânguidas no chão do quarto, e faz-me bela. Acordei assim; sentindo-me bonita e apaziguada como as papoilas selvagens.

Na minha infância, afoguei um vitelo no poço da casa dos meus avós. Deitei o animalzinho à água e mantive-me quieta a vê-lo sucumbir lestamente até ao fundo, esganiçando com os olhos esbugalhados e luzidios de terror. Depois morreu, envenenando, para sempre, a água do poço. Era um bebé de torso malhado. Naquela altura, eu tinha doze anos. E ainda me lembro – com uma soberba exactidão – que me sentia bela quando abrangida pela luz do campo que se reverberava límpida sobre o meu corpo.
Eu era uma criança, uma mulher, e hoje acordei bela. Estanquei o mênstruo.

Estou nua à janela do hotel e o meu amante ainda está a dormir.

O que me ocorreu não foi um ímpeto fugaz de lascívia e loucura. Eu decidi ter um amante com a mesma quietude e determinação com que matei o vitelo no poço. O meu amante judeu chama-se Baruch. Encontramo-nos uma vez ao mês aqui no hotel em Amesterdão. Ele é um homem jovem de cabelos loiros descaídos sobre os olhos e a tez bronzeada dos tamarindos. É abençoado. Aos dois anos de idade, por causa de uma infecção meningocócica, amputaram-lhe metade de um braço. E foi a partir desse dia que ele formou a inabalável consciência da sua inteireza com a vida.

Eu não o amo; nem ele a mim. Admiramo-nos mutuamente,

– és tão bonito! – digo-lhe.

– e eu amo-te.

– sabes bem que não há amor entre nós. Eu não te amo, e nem tu a mim. Não acontecerá. Ponto.

– sim, eu sei.

– se tivesses o braço inteiro serias incompleto, sabias?! E talvez fosses uma lástima como homem. E não estaríamos aqui, agora. Se não fosse aquele estúpido vitelo a afogar-se no poço, talvez eu não tivesse a coragem de estar na cama contigo. O que há entre nós não é amor; é honestidade sentimental.

Baruch acaricia-me o rosto e o corpo com o coto do braço. Eu sinto-lhe a cicatriz rugosa deslizando sobre a minha pele. É como se os seus gestos me guiassem para uma nova moldura corporal; como se do meu corpo irrompesse a renovação de um outro corpo. Exaurimo-nos durante longas horas. Em Amesterdão, longe de tudo. Bebemos várias garrafinhas de whisky do minibar. Fazemos sexo oral, e eu enxugo-lhe o suor da testa com a ponta do lençol.

Baruch, o meu amante judeu, está a dormir. E eu sinto-me bela. Ainda hoje não sei o que me levou a matar o vitelo. Fi-lo de súbito e não sinto remorsos. Acordei menstruada e sinto-me bela ao lado do meu amante. Deitada sobre o seu braço amputado.

Texto de Jack London
(Publicado a 29 Maio 2014)