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E o prémio europeu de cidadania vai para… Pedro Santos, natural de Porto de Mós, falso recibo verde, militante nos movimentos Geração à Rasca e 12M, fundador da Academia Cidadã e antigo presidente da Associação de Estudantes da ESECS, em Leiria.

Sim, enquanto a maioria de nós adormece no sofá todas as noites, há quem tire os pés da cadeira e se faça à vida. Uma história que começa na Corredoura há 27 anos, passa em Estrasburgo para a foto da cerimónia e regressa rapidamente a Lisboa. Quem quer reescrever o fim do filme antes que os créditos comecem a rolar não tem tempo a perder e há lutas que o jornalista da Visão não abandona, nem por breves instantes – a defesa do ambiente, o combate ao racismo e discriminação de género, a acção contra a precariedade laboral.

Neste texto não temos burocratas, mas sente-se o espírito de Clark Kent versão século XXI. Ainda há jornalismo de causas e Pedro Santos é dos que escreve para fazer a diferença. “Desde sempre os jornalistas foram activistas. A minha posição há-de ser sempre pelos mais fracos, os mais pobres, os mais desprotegidos. A base do jornalismo é a denúncia do que está mal e o controlo dos que detêm o poder”, dispara na conversa com a Preguiça, pronto para todas as cargas de kryptonite. Aqui fala-se de construir as bases de um novo país, rejeitar a injustiça social e quebrar antes de torcer. Coisa pouca, portanto. “Os jornalistas têm por obrigação profissional estar despertos para o que acontece e a maioria dos órgãos de comunicação social não estão, têm uma visão muito conservadora”.

Vamos então a 2011. Portugal, meio milhão nas ruas a lutar por melhores condições de trabalho, Pedro Santos de megafone em punho, na cabeça da manifestação. Contra a precariedade, mais tarde contra a austeridade, depois a favor da auditoria à dívida, agora na Academia Cidadã, projecto que quer activar a sociedade civil. O jornalista de Porto de Mós acredita que “cada um tem o poder e deve interessar-se pela causa pública”, pois “na maioria das vezes, as pessoas já têm a sabedoria, faltam-lhes as ferramentas e os recursos para serem mais autónomas”. Só é preciso uma espécie de faísca.

O galardão Personalidade do Ano – entregue também a João Labrincha – integra os Prémios Europeus da Cidadania Democrática e é atribuído pelo Fórum Cívico Europeu. Para Pedro Santos é mais uma etapa do percurso iniciado no jornal da escola e depois em pequenas associações cívicas e culturais do concelho de origem. Mais um tónico para contrariar o retrocesso em matéria ambiental – “este governo está a transformar o país numa grande mancha de eucaliptos” – e para furar a última barreira nas liberdades civis: o preconceito de raça e de orientação sexual.

E a abstenção? Não contem com ele para isso, nem com o sistema a cair de podre. “Alguns podem não votar por comodismo, outros porque estão desiludidos, mas se vivemos numa democracia que nos dá a possibilidade de votar e esse mundo está em risco, as pessoas não podem deixar que outros decidam por eles, não podem simplesmente demitir-se.”

Texto de Cláudio Garcia
Fotografia de Horta do Rosário

(Publicado a 29 Maio 2014)