palavras_mafarrico_Rita_Cortez_PintoEra uma vez uma palavra que vivia confortavelmente no dicionário, tentando passar despercebida entre a multidão de letras. Até que – ah-ha! – alguém lhe apontou um holofote e fez com que toda a gente reparasse nela. É mais ou menos isso que se pretende com esta rubrica: mostrar, com as letras de uma mão e os desenhos de outra, porque é que estas são Palavras de Que Eu Gosto.

 #6: MAFARRICO

Os meus sonhos são sempre filmes de acção ou de terror. Nada menos intenso do que isso. Deve ser por essa razão que, em terreno cinematográfico, não morro de amores por nenhum dos géneros. Pudera, a ver filmes desses todas as noites uma pessoa cansa-se. Cansa-se nos dois sentidos: farta-se e sai-lhe do pêlo.

Desconheço a origem desta veia onírica hiper-realista, mas desconfio que posso ter mesmo um projeccionista a viver no cérebro há muitos anos sem pagar renda. Ou isso ou a minha cabeça está convencida de que o Carnaval é quando ela quiser, três dias de regabofe por ano não lhe chegam.

Talvez seja uma doença qualquer para a qual ainda não arranjaram nome. Mas eu já me antecipei no diagnóstico: tenho um subconsciente hiperactivo. Reguila é dizer pouco: dá mais trabalho do que uma ninhada de putos irrequietos.

E isso vai desde sonhos onde estou presa num prédio em chamas, que mete três anões incendiários na garagem e um motard de rabicho a levar-me em braços para me salvar, até outro em que o meu primo Luís anda a esmagar morangos para pintar o cabelo à Peaches (“só uso tintas naturais!”, explicava ela). Ou um outro sonho em que estou em casa do José Rodrigues dos Santos (ninguém merece!), no seu escritório/biblioteca, e ele me pede para lhe passar um livro: “Dá-me aí a Bíblia”, diz-me. E eu estico o braço, identifico a lombada de couro vermelho na prateleira, mas quando a puxo e olho para a capa, já se transformou n’A Espuma dos Dias, do Boris Vian. (A Bíblia dele e a minha. Está certo.) E como estes há tantos, tantos mais hinos à Surreal Parvoíce.

Digam lá que não há aqui mão do mafarrico. Só pode. Daí a minha teoria: É bem provável que o projeccionista tenha um ajudante e, juntos, os malvados se divirtam a atazanar-me sempre que fecho os olhos. Deixa lá a garota adormecer e, pimba!, toma lá mais um sonho maluco. Andam nisto há anos e não se aborrecem.

O mafarrico é o responsável pela secção de tropelias, partidas e afins. Maldades a sério é outro departamento, a cargo do belzebu, o chifrudo himself – esse, sim, uma espécie de Don Corleone da máfia satânica. O mafarrico é só um diabrete choné, inofensivo, daqueles que ladra mas não morde. É ele o porteiro dos sonhos: sem músculos de Popeye nem tabletes de chocolate abdominais, mas com critérios rigorosos de selecção à entrada. Uma coisa é certa: nunca deixa entrar o tédio. Mas a tranquilidade e a paz de espírito também ficam sempre à porta.

Texto de Catarina Sacramento
Ilustração de Rita Cortez Pinto
(Publicado a 12 Junho 2014)

  • Catarina Sacramento (Leiria, 1977). Começou a ler e a escrever aos 6 anos e desde então não faz outra coisa. Licenciada em Ciências da Comunicação (FCSH/UNL), trabalhou sempre na área da cultura/artes (jornal Blitz, revista Time Out Lisboa, Texto Editores) e turismo/lazer (portais online, Lifecooler e Myguide). Viveu meia vida em Leiria e outra meia em Lisboa, com um saltinho a Macau pelo meio. É jornalista, parteira de livros e caçadora de erros em regime freelancer. Para a Preguiça Magazine, depois da série ‘Na Espreguiçadeira com…’ (uma entrevista em forma de questionário literário), criou agora esta rubrica mensal: ‘Palavras de que Eu Gosto’ são crónicas mais ou menos delirantes, ilustradas por Rita Cortez Pinto.
  • Rita Cortez Pinto (Lisboa, 1977). Construtora de desenhos em papel, o seu trabalho cruza vários universos que têm sempre em comum o mundo do Desenho. Movimenta-se entre as artes plásticas, a ilustração e também a arte-educação, com diferentes públicos, em especial o infantil. Tem formação superior em Arquitectura de Design pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa e o Curso Avançado de Artes Plásticas pelo ArCo. Expõe regularmente desde 1999 e colabora desde 2003 em diferentes instituições museológicas e projectos individuais na área da educação artística para crianças. Mais info no blogue acaixavoadora.blogspot.com e no site www.ritacortezpinto.yolasite.com.