fotografia (29)

Isaltinos, Ganas, o cabelo do outro, o Seguro e o Costa, o dinheiro das campanhas partidárias, toda a Coelheira, o BES, o BPN, as charolesas fúteis da vida, os inconseguimentos irrevogáveis de gente que perde facturas de submarinos, os camelos que adivinham quem ganha e os camelos que ganham sempre à custa de camelos como nós. Cavacos, Marias, Limas, Loureiros, deputados, engenheiros, iluminados, mestres, surdos e cegos e totós com muitas habilitações no mundo da habilidade. Vocês que podem realmente decidir o rumo deste barco e que não são sérios, competentes e dignos, deviam perder a tesão e afogarem-se na merda onde nos querem fazer desembarcar. Eu, por mim, estimo bem que se… todos. Incomodem a vossa e a dos vossos, esta é a minha vida e eu não vos quero cá. Bem sei que já foi feito, mas aqui vai mais um retrato da vida como freelancer.

fotografia (28)Enviei o último e-mail com fotos ontem às duas e pouco da manhã. O puto acordou às sete e nós também. Levantei-me e fui aquecer o titinho: o biberon, na linguagem cá de casa. Tentei que ele dormisse mais um bocado, sem sucesso. Saquei uma app de um gato que fala para brincar com ele e brinquei com ele enquanto respondi a mais uns e-mails. Orçamentos, cobranças e mais umas merdas para as quais não tenho jeito. Vi uma foto minha no Observador, assinada com o meu nome artístico, António Gomes, ainda dos tempos em que fotografava para dois jornais concorrentes. Agora não fotografo para um e pouco para o outro. Sim senhor, está fixe. Espero que a tenham pago.

10 da matina e tenho a minha tarefa de chauffer cumprida. Fui fazer umas fotos a um restaurante à pressa. Fiz uns telefonemas. Recebi uma mensagem do gato da app a dizer que o bichano precisava de ir ao wc, encaminhei-o à sanita virtual mais próxima. Recebi outra mensagem a dizer que me tinha esquecido de enviar um trabalho: voltei a casa, enviei o trabalho, que por acaso não estava grande coisa mas teve de ir mesmo assim. Almocei. Fui para São Pedro fazer mais umas fotos, atrasado, como quase sempre. Estacionei o carro com um bocadinho de duas rodas em cima de uma passadeira, mas a 5 metros do sítio onde estava. Fiz as fotos. Chegou a GNR, fui multado, mesmo pedindo para não o ser com todo o meu bom humor. O carro estava mal estacionado? Estava. Mas eu fui multado porque os rapazes não me curtiram. É curioso, eu também não os curti.

Fiz mais uns telefonemas. Segui para outro trabalho: fazer imagens de pinheiros retorcidos para uma empresa. Andei à procura no meio do pinhal, à espera de um golpe de sorte. Fiquei na reserva. Liguei à minha sogra para ir buscar o puto. Continuei à procura do pinheiro ideal e não encontrei. Fui pôr gasolina e apercebi-me de que me sinto muito estúpido enquanto atesto o carro, com os olhos a saltitar da mangueira para o contador. Pus 40 euros porque tinha um desconto qualquer que só descontava acima dos 25 litros, 40 euros dá menos do que 25 litros. Chulos.

Fui buscar o puto, ouvi o meu sogro, que é médico, a refilar com o ministro da Saúde. Fui deitar o puto sozinho porque ela anda no Francês. Cantei-lhe uma canção, coitadinho, não merece tamanho castigo. Vim editar fotos e escrever um texto. São cinco da manhã. Tenho 1o pastas a dizer ‘Arrumar’ num arquivo indecifrável e mando para lá mais estas sabendo que vai ser um pincel encontrá-las. Amanhã vou fotografar chouriços, 200. Daqui a nada são sete da manhã. E continuo sem ser o Gursky, sou 4,3 milhões de dólares menos. Porra, não percebo.

São Pedro

Sou freelancer. Se tudo correr mais ou menos, sempre serei. Nesta cruzada do recibo verde sou contabilista, marketeer, comercial, homem das cobranças, entertainer, psicólogo, telefonista, motorista, marido, pai e um gajo que fotografa tudo e mais um par de botas, a qualquer hora e em qualquer circunstância. Meretriz sem critério e especialista do mais ou menos na luta do dia-a-dia, para salvar as contas da apneia profunda para onde mergulharam sem querer.

A vida como a imagino pode e deve ser simples. As condições para criar o filho como deve ser, ter talvez mais um, algum guito para uma viagem de vez em quando, uma jantarada com copos de vez em quando, um concerto de vez em quando, um cinema de vez em quando, um livro e um CD de quando em vez, esporadicamente a  possibilidade de fazer trabalhos dos quais me orgulhe, e ter a família e os amigos por perto. Simples. Uma vida digna e justa. Sem hiperventilar desenfreadamente com o tempo, com os atrasos e a pressa, sem o  arreliar das finanças, do IVA, da Segurança Social, das papeladas e das tributações. Imune ao pessoal que não presta nem nunca vai prestar, aos talões de desconto que não dão para descontar, à incerteza sobre se há trabalho para o mês que vem, e se o cartão tem saldo. Sem a indignação com o preço do gás, da luz, da água e de tudo o que é preciso para viver dignamente e sem merdas. É o que todos queremos, não é? Ainda não tenho o que quero e não quero muito, mas infelizmente sei que estou mais perto do que muitos alguma vez estarão de viver o que devia ser uma vida à maneira. E isso é triste.

Texto e fotografias de Ricardo Graça
(Publicado a 26 Junho)