ON página 30Algo se passa em Aveiro: uma espécie de filme de terror, com rituais demoníacos, espíritos, pessoas possuídas, bruxaria e caçadores de monstros de uma ordem mundial nascida no tempo do rei Salomão.

Mas se calhar é só a imaginação de Diogo Carvalho a funcionar. Obscurum Nocturnus é uma novela gráfica que bebeu influências na tradição oral portuguesa. Apetece dizer: Fugem, que eles andem aí!

A malta conhece Aveiro pelas melhores razões: pelos moliceiros e os canais da ria, pela universidade, pelas bugas, ovos moles, a Associação Cultural Mercado Negro, etc…

Por agora interessa falar do autor Diogo Carvalho, um pacato professor do 1º ciclo do Ensino Básico e do 2º ciclo da disciplina de EVT, que vive com a sua esposa e o seu filho entre a ria de Aveiro e o mar, na vila da Torreira.

O autor Diogo Carvalho. Fotografia de Nelson Nunes.

O autor Diogo Carvalho. Fotografia de Nelson Nunes.

Diogo é o autor desta graphic novel de contornos do outro mundo, e diga-se, a bem da verdade, se tem o prefácio de Filipe Melo só pode ser bom.

Preguiça Magazine: Quando começaste a desenhar? Eras daqueles meninos que tinha jeitinho para desenhar e tirava 5 a Educação Visual na escola?

Diogo Carvalho: Comecei a desenhar desde que me lembro. Tenho recordações de estar na pré-primária a desenhar o Super-Homem e o Batman (pelo menos a minha versão, mesmo que mais ninguém os reconhecesse). Sempre criei histórias à volta dos desenhos e vice-versa, e isso naturalmente foi evoluindo. Quanto a tirar 5 a Educação Visual, penso que é um pouco inglório estar a responder, uma vez que hoje em dia sou Professor de EVT (risos).

Obscurum Nocturnus é uma BD gore, policial, gótica, de suspense…? Como a defines?
Obscurum Nocturnus vai buscar inspiração principalmente às histórias antigas contadas oralmente pelo nosso Portugal, nas aldeias, sobre fantasmas, bruxas e lobisomens. Também se inspira em obras de terror e aventura no cinema, na banda desenhada, nas séries de TV e na literatura escrita. Procurando afastar-se das grandes metrópoles, a história passa pela serra da Freita, Aveiro e Pardilhó. É uma BD principalmente de terror, fantasia e aventura, com uns toques de humor.

É o teu primeiro trabalho? Quais são as tuas influências?
Não, já faço BD desde o liceu, há mais de 15 anos. Alguns dos trabalhos publicados estão no megafanzine internacional Mutate & Survive, no BDJornal, na Terminal, no Venham +5, nos Celacanto, nos livros Murmúrios da Profundezas (vencedor de melhor fanzine nos Troféus Central Comics 2008) e Voyager. Como autor a solo fiz o fanálbum Cabo Connection, nomeado para melhor fanzine nos Troféus Central Comics 2007. É, sim, o meu segundo trabalho a solo.
As minhas influências são várias, desde a BD, o cinema, as séries de TV e a literatura escrita. Enfim, tudo o que me apele. Pode até ser um momento corriqueiro na rua. Para este trabalho específico, vários filmes de suspense e terror, bandas desenhadas como The Walking Dead, Preacher, Y the last man, Hellboy e séries como o Sobrenatural.

A estória e os desenhos são teus. Qual é o teu método de trabalho? Vais desenhando a ver o que dá, e só depois constróis o argumento, ou és mais perfeccionista e tens uma linha de execução bem delineada?
Sou mais perfeccionista, com um método de trabalho muito próprio. Primeiro nasce a ideia e o fio condutor do trabalho. Ou seja, início, desenvolvimento e fim. Ainda não está tudo colado, mas os momentos importantes estão definidos. A partir daí é trabalho. Construir uma história toda coerente, passá-la a esboços alterando alguns pormenores, desenhar as pranchas alterando alguns pormenores, dar os cinzas, fazer o lettering alterando alguns pormenores, e rever, rever, rever até eu estar completamente dentro de todos os pormenores da BD e satisfeito. Como se vê, é um processo que não é estanque, mas sim moldável até ao produto final.

Desde o esboço até à sua publicação, quanto tempo demoraste a efectivar este Obscurum Nocturnus?
Foram 3 anos na arte e escrita da BD em si e mais um ano a decidir como editar o livro.

O panorama da banda desenhada em Portugal está bom e recomenda-se?
O da banda desenhada em Portugal não é mau. Temos de volta vários livros da Disney distribuídos por todo lado, os super-heróis com distribuição pela Panini e com jornais, cada lançamento de um Astérix é um acontecimento e existem algumas editoras a apostar em edições de culto. É pena não acontecer é o mesmo na BD portuguesa. O mercado da BD portuguesa é muito limitado a certos eventos e circuitos. Normalmente ou são editoras especializadas em BD que operam em poucas tiragens (uma tiragem média é de 300 exemplares) e distribuição limitada ou são editados pelo próprio autor, como no meu caso.

A pergunta inevitável, mas que dá sempre jeito: projectos para o futuro?
A resposta ideal à pergunta inevitável: sempre.

ON prancha 65 web

Se o diabo anda à solta na região de Aveiro, o melhor é ter cuidado, mas depois das injecções zombie daqueles que andavam por aí, tipo Walking Dead, o melhor é conferir na próxima sexta-feira, no lançamento leiriense da obra, no espaço do Clube Musique, em Leiria. A seguir há DJ set e tudo.

Apresentação em Leiria:
4 de Julho, sexta-feira, Clube Musique, 23h30
Rua Machado Santos, n.º 5 | Leiria

Entrevista de Pedro Miguel
Artwok de Diogo Carvalho
Fotografia de Nelson Nunes
(Publicado a 3 Julho 2014)