JIBOIAR_Rita_Cortez_Pinto_Palavras_de_que_eu_gostoEra uma vez uma palavra que vivia confortavelmente no dicionário, tentando passar despercebida entre a multidão de letras. Até que – ah-ha! – alguém lhe apontou um holofote e fez com que toda a gente reparasse nela. É mais ou menos isso que se pretende com esta rubrica: mostrar, com as letras de uma mão e os desenhos de outra, porque é que estas são Palavras de Que Eu Gosto.

 #7: JIBOIAR

Domingo, quatro da tarde. Na sala de minha casa é hora de jiboiar. Ou borregar, que vai quase dar ao mesmo. Jiboiar é uma arte: a arte de abandonar o corpo, de o deixar desprender-se do espírito e oferecer-se ao deus-sofá.

Esse é o objectivo máximo de jiboiar: a fusão completa entre a preguiça e a matéria. Mas não se chega lá assim às primeiras. É preciso refinar os métodos, aprender paulatinamente toda uma série de truques para, quais mestres de yoga, um dia nos podermos tornar reis do jiboianço.

O primeiro requisito é ficar muito quietinho no mesmo sítio, quase inerte durante o máximo de tempo possível. Fixar os olhos num ponto é uma coisa que ajuda, por exemplo, na televisão. Um filme estúpido ou uma série de médicos lamechas serve perfeitamente. Um livro nem por isso, que desperdiçar coisas boas é feio.

A ideia é desligar o fio que liga o corpo ao cérebro. Por isso, nada de estimular muito os neurónios. Depois, abrandar o ritmo da respiração à velocidade mais lenta que conseguirmos. Inspiiiiira, expiiiiira. E não mexe. Jiboiar é assim tipo hibernar, mas só durante uma tarde. Há que reduzir os movimentos corporais ao mínimo indispensável e reservar todas as energias para os maxilares: sim, porque o terceiro passo é devorar um pacote de bolachas ou um chocolate (em caso de ressaca, acrescentar hambúrgueres e bebidas frescas com gás), de modo a facilitar a tarefa da gravidade e conseguir maximizar a pressão do corpo contra a estrutura à qual se encontra alapado, segundo as leis da física e da inércia.

O mais difícil é alcançar a posição ideal, aquela em que temos a certeza de que poderíamos ficar horas a fio: mas chegando a esse ponto, atingimos um estado de comunhão completa e absoluta com o sofá, ao ponto de ele e nós sermos já um e o mesmo corpo, sem saber bem onde é que acaba um e começa o outro. Só aí estarão verdadeiramente prontos para o nirvana: a sesta.

PS – Em jeito de nota final, aproveito para ripostar contra o facto de a palavra jibóia e seus derivados não começarem por g. E logo uma letra que já tinha forma de cobra, uma letra com uma apetência natural para o enroscanço. Fazia todo o sentido! Acho mal. Senhores manda-chuvas do mundo das letras, considerem isto um protesto contra a injustiça linguística. Queremos giboiar com g! Alguém tem de defender os direitos dos verbos.

Texto de Catarina Sacramento
Ilustração de Rita Cortez Pinto
(Publicado a 10 Julho 2014)

  • Catarina Sacramento (Leiria, 1977). Começou a ler e a escrever aos 6 anos e desde então não faz outra coisa. Licenciada em Ciências da Comunicação (FCSH/UNL), trabalhou sempre na área da cultura/artes (jornal Blitz, revista Time Out Lisboa, Texto Editores) e turismo/lazer (portais online, Lifecooler e Myguide). Viveu meia vida em Leiria e outra meia em Lisboa, com um saltinho a Macau pelo meio. É jornalista, parteira de livros e caçadora de erros em regime freelancer. Para a Preguiça Magazine, depois da série ‘Na Espreguiçadeira com…’ (uma entrevista em forma de questionário literário), criou agora esta rubrica mensal: ‘Palavras de que Eu Gosto’ são crónicas mais ou menos delirantes, ilustradas por Rita Cortez Pinto.
  • Rita Cortez Pinto (Lisboa, 1977). Construtora de desenhos em papel, o seu trabalho cruza vários universos que têm sempre em comum o mundo do Desenho. Movimenta-se entre as artes plásticas, a ilustração e também a arte-educação, com diferentes públicos, em especial o infantil. Tem formação superior em Arquitectura de Design pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa e o Curso Avançado de Artes Plásticas pelo ArCo. Expõe regularmente desde 1999 e colabora desde 2003 em diferentes instituições museológicas e projectos individuais na área da educação artística para crianças. Mais info no blogue acaixavoadora.blogspot.com e no site www.ritacortezpinto.yolasite.com.