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Este Verão tímido, disfarçado de Primavera, já chateia. Fins-de-semana consecutivos de tempo manhoso, aqueles vinte e picos graus na praia, que nem convidam a banhos, já para não falar das ventanias à traição. Eh pá, já não há paciência. Sugestão da Preguiça: em vez de fazeres 30 km até à costa, fazes um bocadinho mais rumo ao interior, onde o sol brilha quase sempre sem piedade e as águas cristalinas, de temperaturas frigoríficas, das nossas praias fluviais te rejuvenescem.

A malta trabalha a semana toda e merece aproveitar o fim-de-semana ao máximo. Verdade? Se o sol não se quer encontrar com mar o problema é dele, mas se não queremos chegar ao fim do Verão sem desbundar uma boa calora, mandar uns mergulhos e branquinhos como a cal, temos de ir ao encontro dele.

O distrito de Leiria tem várias praias fluviais à maneira, quase todas concentradas nos concelhos do norte interior. Conheço bem e recomendo as Fragas de São Simão e Ana d’Aviz, em Figueiró dos Vinhos, ou a barragem do Cabril, no Pedrógão Grande, mas desta vez fui rumo ao desconhecido e encontrei outras tão boas ou melhores.

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Praia do Mosteiro

Primeira paragem: Praia do Mosteiro, no Pedrógão Grande, distrito de Leiria.
Toca a untar o corpinho com protector solar que o amiguinho lá de cima já bufa uns 30 graus e ainda são só 11 da manhã. Assim está bem, cinco minutinhos na toalha bastam para começar a suar e cá vai o primeiro mergulho que até te congela o cérebro.

Por aqui reina o sossego. O ambiente rural convida ao descanso, as margens do rio são relvadas e há bastantes sombras. Numa das margens, um antigo lagar de azeite e um moinho de rodízio reconstruídos são agora bar/restaurante de apoio à praia, o que dá sempre jeito.

O lugar é muito simpático e o cenário bem convidativo a dormir aquele bocadinho que se ficou a dever à cama, mas nada disso, que a malta tem bicho carpinteiro e já está a levantar arraiais.

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Poço da Corga

Segunda paragem: Poço Corga, em Castanheira de Pera, distrito de Leiria.
Aqui só vêm os amantes da natureza. Os outros estão ali ao lado a curtir ondas artificiais no parque aquático Praia das Rocas.
Sem dúvida, a melhor surpresa deste passeio domingueiro. É mais do mesmo? Sim, água fria e transparente, calor abrasador, relvinha para esticar a toalha, mas o cenário vale por si e respira-se o cheirinho à hortelã que aqui brota como crentes em Fátima.

Mergulho dado, dez minutos ao sol para secar e ao ataque. Esta praia tem um parque de merendas com bastantes mesas, mas nós ficamos mesmo pela toalha. Munidos de um franguinho assado que comprámos à chegada na churrasqueira da terra, toca de esticar a toalha aos quadrados e é aqui mesmo que se dá cabo dele até ficarem só os ossinhos.

De barriga abastecida, é melhor não arriscar em banhos gelados. Relaxa-se o tempo suficiente para fazer meia digestão e pé na estrada.

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Talasnal

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Vaqueirinho, oficialmente o fim do mundo.

Terceira paragem: Vaqueirinho e Talasnal, Aldeias do Xisto na Lousã, distrito de Coimbra.
Numa incursão curiosa ao Vaqueirinho conhecemos Zappa, um hippie dos verdadeiros, que há 30 anos decidiu deixar o Porto e viver em comunhão com a natureza. Alguém a quem a solidão de viver rodeado por floresta não mete medo algum, mas que teme a descaracterização de lugares virgens como o seu Vaqueirinho por roteiros turísticos “da tanga”.

Talasnal. Um desses lugares a que se refere Zappa. Talvez já demasiado turístico mas, sem dúvida, bonito de se conhecer. Num percurso labiríntico, composto por casas e ruas recuperadas, descobre-se algum comércio e artesanato em actividade. Destaque para O Curral, um espaço que funciona como bar/café e alojamento e galeria de exposição de trabalhos em xisto. É de beber um licor na esplanada e apreciar a paisagem. Digestão feita, voltamos ao que nos trouxe cá.

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Praia Fluvial Sra. da Piedade

Quarta e última paragem: Praia Fluvial Sra. da Piedade.
Numa descida a pique furamos a serra rumo a uma espécie de vale encantado. Lá em baixo corre a ribeira de S. João e por entre cascatas e recantos vislumbra-se, lá no alto, o Castelo da Lousã, enquanto se chapinha mais um bocado.

Por aqui falta a relvinha nas margens, esticar a toalha é no chão de pedra aquecido pelo sol, mas não por muito tempo, que também se torna demasiado ortopédico.

Na Sra. da Piedade também há bar de apoio e o Burgo, um conceituado restaurante que acabámos por não experimentar porque não ficámos para a hora de jantar, mas que me ficou no goto. Prometo lá voltar e fazer um artigo para a nossa secção comes e bebes.

E ao que perece vem aí mais um fim-de-semana de solinho escondido, por isso fiquem com esta dica. Façam-se à estrada e ponham-se na rota do sol.

Texto de Paula Lagoa
Fotografias de Rafael Silva
(Publicado a 17 Julho 2014)