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No mundo das velharias e antiguidades há uma espécie de linguagem única dominada apenas pelos verdadeiros apreciadores e conhecedores. Têm em comum um espírito recolector, uma curiosidade infinita e são, regra geral, exímios negociantes. Alexandre Estrela é uma dessas pessoas. Guarda num pavilhão de 600 m2 uma infinidade de objectos com história e, na memória, o desafio da aquisição de muitos deles.

De altares a estatuetas, de instrumentos musicais a cerâmica, do mobiliário à arte sacra, passando pelos mais variados bibelôs e adereços, da quinquilharia a peças valiosas, Alexandre Estrela tem de tudo, para todos os gostos, tem é de ser antigo, está claro.

Entrar neste pavilhão, em Regueira de Pontes, é embarcar numa aventura que ao princípio pode parecer mais difícil do que é. Na verdade, tudo está bastante organizado, mais ou menos por temas, e por entre o labirinto de corredores vamos sendo seduzidos por objectos enigmáticos, interessantes, curiosos, bonitos e até feios de morrer, mas que certamente alguém lhes achará graça ou reconhecerá o devido valor.

Aconteceu com o nosso fotógrafo, que ficou embeiçado por um bibelô de loiça que não é mais do que um cão, vestido de robe florido, com uma pistola na mão. Queria trazê-lo, mas não tinha verba. Cem euros pediu Alexandre pelo cão pistoleiro, ao que o nosso preguiçoso arregalou o olho e disse: “O quê, 100 balas? A minha mulher matava-me!”

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Atenção que este cão tem uma pinta do caraças

Mas para a descasca que o Ricardo ia levar em casa está-se o Sr. Alexandre nas tintas: “Isto é uma peça da extinta cerâmica alcobacense Vestal”. E vira o cão de pernas para o ar, onde se atesta a autenticidade do tareco. Pois é, minha gente, a ignorância é tramada. Até podia lá dizer Bestal e o argumento ser o mesmo, que nós comíamos e calávamos.

Mas Alexandre Estrela garante que não é desses. “Destesto quando me tentam enganar, porque eu também não engano as pessoas”. Acredita que, de outra forma, não conseguiria estar neste ramo, onde diz haver “muita gente desonesta, mas que também não chega a lado nenhum”.

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É certamente pela honestidade, mas sem dúvida também pela paixão de uma vida dedicada ao coleccionismo – em que a relação com cada peça adquirida vive de um respeito imenso pelo valor afectivo, histórico ou monetário que lhe está associado -, que Alexandre Estrela consegue há mais de 25 anos ser respeitado pelo seu trabalho.

Lamenta que a crise, as feiras, outros empecilhos que tal e até as rasteiras da idade tenham quebrado a dinâmica que o negócio conheceu noutros tempos. Mas há coisas que ainda não lhe conseguiram tirar: o poder de argumentação, a garra com que defende o valor das suas coisas, a assertividade com que negoceia e, acima de tudo, o respeito por si próprio, pela sua arte e o compromisso de entregar a peça certa à pessoa certa.

Visitem, que vão gostar!

Texto de Paula Lagoa
Fotografias de Ricardo Graça
(Publicado a 24 Julho 2014)