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Nestas férias, não abandone os seus animais na rua nem os seus livros na estante. Porque o tamanho conta, porque dificilmente há outra altura em que se consiga um rácio mais satisfatório entre horas livres e páginas lidas, e porque no Verão as horas esticam e as probabilidades de não estar a cabecear ao fim da primeira página também, sugerimos 5 livros para levar de férias. Um de cada vez, vá.

Não acontece muitas vezes, não se iludam. Uma vez por ano, se tanto, há um livro que lá consegue a proeza de conquistar um lugar na Primeira Liga dos Calhamaços. Que é como quem diz: aquela onde só entram livros grandes que também sejam grandes livros. O critério usado para esta lista foi esse. Subjectivo, sim, por isso vale o que vale. Também ninguém disse que a literatura era uma ciência exacta.

O número mágico, desta vez, é o 5: entre clássicos e contemporâneos, escolhemos 5 títulos de 555 páginas para cima. Além disso, pretende-se que quantidade também queira dizer qualidade: a ideia é aproveitar bem o sol de Agosto sem precisar de sombras de Grey. Quem tiver miúfa de deslocar o pulso, pode sempre ler no tablet. Em seis palavras: estes livros não são para meninos.

ANNA KARÉNINA
De Lev Tolstoi
(Ed. Relógio d’Água, 858 pp.)

Anna Karenina
Só este início diz tudo sobre a genialidade de Tolstoi a analisar a natureza humana a raio-X: “Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” E daqui em diante é sempre a melhorar.
Anna Karénina, a agarrar leitores desde 1877. Se, 137 anos depois, continua a encabeçar as listas de melhores romances alguma vez escritos, não deve ser por acaso. A tradução de António Pescada, directamente do russo, é mais um argumento a favor.
Argumento contra: são 850 páginas, pois são. Mas também não é o Everest literário (o Guerra e Paz são 4 volumes, que até estala). Se não for nas férias, depois de fazer reset à rotina, de desligar o botão da lufa-lufa semanal e dos 3000 metros barreiras, que são os nossos melhores dias, quando é que vai ser?

2666
De Roberto Bolaño

(Ed. Quetzal, 1030 pp.)

2666
Roberto Bolaño (1953-2003) é uma espécie de fora-da-lei no panorama das letras latino-americanas do século XXI e 2666 um fenómeno literário sem rival nos tempos mais recentes.
Infelizmente o autor chileno já não viveu para ver o seu maior livro (nos dois sentidos, pois) publicado, nem o eco estrondoso que teve junto da crítica por todo o mundo.
Dele já se disse que tem “a vida humana inteira dentro destas páginas” (The Independent), que “foi concebido como uma câmara de ressonância da angústia humana” (New York Times Book Review), que é “o seu corpo e o seu sangue” (El Mundo) ou que é “a trajectória do Universo no limiar do apocalipse” (Slate). Hã? Se isto não é coisa para impressionar, então não sei o que é.
A edição portuguesa tem tão-somente 1030 páginas. E são capazes de dar luta, mesmo a quem já tem um CV considerável a papar letras com os olhos. Mas se assim de repente o número vos intimidar, há que ver as coisas pela positiva: podiam ser 2666. Ou se calhar é uma boa altura para fazer olhinhos ao tablet.


AMERICANAH
De Chimamanda Ngozi Adichie

(Ed. Dom Quixote, 714 pp.)

Americanah
Ora aqui está um exemplo de um livro que pertence à categoria dos falsos calhamaços. Falso não por conter algum tipo de impostura, longe disso, mas apenas porque, na verdade, se lê a uma velocidade de fórmula 1. Não se deixem intimidar: há outros aparentemente pequeninos e de digestão bem mais complicada.
Passado entre a Nigéria e os Estados Unidos, Americanah parte de uma história de amor para construir um romance de ideias universal e desconcertante. E pelo meio disseca conceitos tão fulcrais como identidade, nacionalidade, raça, diferença, solidão e amor.
Foi um dos livros-sensação de 2013 e arrancou umas boas linhas de elogios ao New York Times, Guardian, Diário de Notícias e Público. A Preguiça também não anda a dormir, o que é que pensam?
Ah, é normal que demorem um bocado a decorar o nome da autora, mas não se preocupem, com a prática isso vai lá. Com o Haruki Murakami acontecia o mesmo e agora é o que se vê.

MOBY DICK
De Herman Melville

(Ed. Relógio d’Água, 612 pp.)

Moby Dick
Este épico marítimo – com quase tantas camadas de significados como tons de azul nas águas do mar – é das melhores metáforas existencialistas da humanidade.
Vingança, obsessão, ambiguidade moral: a história do capitão Ahab e da baleia-leviatã é o exemplo acabado de que, no que toca a profundezas, o fundo do oceano e o da alma têm mais em comum do que à primeira vista se pensa.
Foi isso que fez de Moby Dick a obra-prima que imortalizou Melville. Mas isso só aconteceu mais tarde. Como o mundo não é justo – já não é de agora –, o livro não teve grande sucesso comercial quando foi editado (1851) e Melville morreu sem saber que viria a ser o grande farol a iluminar tantos cérebros das letras norte-americanas. William Faulkner, por exemplo, disse que este foi o livro que ele gostava de ter escrito. Elogio maior era difícil.

TRILOGIA MILLENNIUM
Os Homens que Odeiam as Mulheres (540 pp.)
A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo (616 pp.)
A Rainha no Palácio das Correntes de Ar (720 pp.)
De Stieg Larsson
(Ed. Oceanos)

Trilogia Millennium
Ok, fiz batota, porque isto não é um livro, são três. Mas é a coisinha mais viciante que se pode levar para férias, ideal para tirar da cabeça ideias feitas, tais como: 1) não gosto de policiais; 2) não consigo ler livros grandes; 3) ler dá-me seca. Se já deram convosco a pensar/dizer pelo menos uma das frases anteriores, o Stieg Larsson é a pessoa certa para mandar isso tudo por água abaixo.
O ritmo alucinante da história, a densidade das personagens (sobretudo a de Lisbeth Salander, que é para lá de espectacular) e a surpresa sempre à espreita na auto-estrada que vai do coração à boca compensam bem o facto de ter de carregar com uns quilitos de papel. (A boa notícia é que também já há edição de bolso, mais maneirinha.) Experimentem mergulhar no primeiro volume e duvido que consigam sair do banho tão cedo. É ver-vos a virar páginas como o rei do churrasco vira frangos.

E mais 5 (se estes não chegarem):

  • Joseph Anton, de Salman Rushdie
  • Doutor Jivago, de Boris Pasternak
  • O Jogo do Mundo, de Julio Cortázar
  • Liberdade, de Jonathan Franzen
  • Ulisses, de James Joyce

Texto de Catarina Sacramento
(Publicado a 24 Julho 2014)