contoPedimos voluntários para a nova série de contos. Paulo Kellerman elaborou o questionário e eles responderam. Agora são personagens dos textos de duas dezenas de autores a publicar aqui na Preguiça, com fotografias de Ricardo Graça. De 15 em 15 dias, a ficção imita a realidade.

ELE NÃO TINHA SOMBRA E ELA MURMURAVA-LHE AO OUVIDO
Texto de Sandra Gonçalves

Estava sentado sozinho nos degraus do recreio. Nada de invulgar. Sempre fora assim. Luís não interagia com os outros. Preferia ficar a observar. Tinha então 13 anos. Pais e professores não tinham razões de queixa. Era bom aluno, educado, e sempre prestável para ajudar aqueles que precisavam. Numa ocasião, num dia anormalmente quente de fim de Primavera, com os raios de sol a ofuscarem-no, deu por si a olhar atentamente durante todo o intervalo para uma menina. Sabia que se chamava Maria. Também ela tinha 13. Maria trauteava baixinho uma música enquanto apanhava caracóis junto às ervas daninhas que cresciam junto ao gradeamento da escola. Depois, dispunha-os ao longo dos braços e fazia apostas; aquele que chegasse primeiro às pontas dos seus dedos era cuidadosamente colocado no chão e ficava livre de continuar a sua rotina de molusco. Ao toque da campainha, recolhia os restantes e colocava-os na lancheira, que havia revestido com folhas de alface. Menina peculiar, aquela. Tal como Luís.

Certo dia, Maria estava a ler um livro precisamente nos mesmos degraus onde Luís se sentava. Deixou a lancheira entreaberta ao seu lado para que os caracóis respirassem. Volta e meia desviava a atenção das páginas para ver se nenhum escapava. Estava de tal forma absorta que nem deu pela presença de Luís. Ou então fingiu não dar conta. Nunca o saberemos. Coisa certa é que o ritual começou a tornar-se cada vez mais frequente. Não trocavam palavra, nem sequer olhavam um para o outro. Simplesmente partilhavam os mesmos degraus. Maria por vezes ausentava-se para ir ao encontro do mundo dos caracóis. E aí Luís reparava que sempre que ela o fazia cantarolava. Intrigava-se, gostava de lhe ouvir a voz, mas era reservado e nunca conseguiu tomar coragem para lhe pedir para a ouvir cantar. Passaram anos nisto. Depois das férias escolares, nos intervalos das aulas, repetiam o mesmo; os dois sentados nos mesmos degraus.

Numa ocasião, um caracol escapuliu-se, matreiro, da lancheira. Maria pousou o livro. Já o caracol deslizava atabalhoado pelos degraus deixando um rasto de baba quando olhou para o chão. Ela fazia sombra, a lancheira fazia sombra, brincou inclusivamente com as sombras, até que parou. Algo não batia certo. Olhou para o lado, pela primeira vez, e viu Luís. Voltou a deter-se no chão e percebeu que ele não fazia sombra. Ficou intrigada. Mais do que isso até. Admirada. Fitou-o nos olhos e sorriu. Luís retribuiu. Tomou coragem e apresentou-se. Sim, não faço sombra, disse. Nunca ninguém havia reparado nisso. Maria sentiu-se estonteada. Falaram durante todo o intervalo, sobre tudo, sobre nada, mas sobretudo sobre caracóis e livros. Os encontros repetiram-se. Os dois ansiavam cada vez mais pelos intervalos. Aos poucos, a recolha de caracóis foi sendo substituída pela conversa. Maria continuava com as suas leituras, mas agora, por vezes, já lia excertos em voz alta para o Luís. Noutras ocasiões, falavam sobre os seus projectos, os seus sonhos. Aqueles degraus eram o seu refúgio. Tudo o que os rodeava obliterava-se miraculosamente naqueles instantes. E o mais curioso é que ninguém em toda a escola parecia ter intenções de interferir. Apaixonaram-se. Trocaram um beijo, e outro e mais outro. Meses passaram e um dia Luís foi surpreendido por Maria a cantarolar-lhe ao ouvido, quase como um murmúrio. Repetia: “Um dia a beleza irá salvar o mundo”. Ela tinha a voz mais cândida que ele já alguma vez ouvira; quase hipnótica.

Terminaram o secundário. Ele foi estudar oceanografia e Maria canto. Separados por vários quilómetros, nunca deixaram de se corresponder. Confidenciavam por escrito as suas fantasias, os seus desejos. Luís queria estudar os tubarões, o que até fazia todo o sentido; uma vez que não fazia sombra dificilmente se tornaria um alvo fácil. E assim também poderia ajudar os surfistas, prevenindo-os sempre que avistasse algum. Maria sonhava em cantar numa imponente sala de teatro, e até sabia onde, no La Fenice, em Veneza. Numa das cartas, sugeriu a Luís que viajassem juntos. Ezra Pound era o seu poeta preferido e gostaria de visitar o seu túmulo em Itália. Já com 26 anos prepararam as malas e partiram, ansiosos.

Depositaram as malas num hostel barato que encontraram através da internet e correram em direcção à sepultura de Ezra Pound. Luís manteve-se um pouco à distância, embora o suficiente para ouvi-la repetir 13 vezes “I love, therefore I am”, em alusão a uma das citações que mais gostava do poeta. E depois riu-se, riu-se que nem uma desbragada.

Mais de uma década depois de se terem conhecido, continuavam a ser dois seres peculiares, das combinações mais improváveis, mas amavam-se, cada dia mais. Luís tinha preparado uma surpresa para aquela ocasião. Sabia que ia deixar Maria arrebatada. Pediu que naquele instante fossem lançados mil balões ao ar. Naquele dia, naquele momento, o céu de Veneza encheu-se de cor. Adultos e crianças emocionaram-se. Luís emocionou-se ao olhar para Maria e vê-la a chorar de comoção. Abraçou-a com tanta força que quase se fundiram e apontou para o alto, tentando acompanhar a trajectória de cada um dos balões.

Após isto, levou-a pela mão até ao teatro La Fenice. Tinha outra surpresa. Enquanto assistiam a uma reposição de uma ópera de Mozart, Luís irrompeu pela plateia, subiu ao palco e gritou a plenos pulmões “Um dia a beleza irá salvar o mundo”. Maria ovacionou-o de pé. Foi a única. Um cavernoso silêncio instalou-se. Mas não um daqueles incómodos. Os espectadores paralisaram apenas porque ficaram estupefactos. Nunca nada do género havia acontecido naquela sala. Maria continuava a aplaudir de pé, com as mãos já túmidas, enquanto via Luís a ser levado em braços por quatro corpulentos seguranças por entre a multidão. Seguiu-o, mas não sem antes clamar gloriosamente “Somos livres!”

Acabariam por casar na esquadra, após algumas diligências. Não houve convidados, apenas dois polícias como testemunhas. Devido ao episódio, que embora insólito teve muita graça, todos os funcionários do posto contribuíram para contratar um serviço de pirotecnia. No momento do “sim”, por toda Veneza ecoaram as explosões do fogo-de-artifício. Hoje têm 33 anos. Já têm um filho. Os dois trabalham na Austrália, ele como oceanógrafo e ela como mezzosoprano na Ópera de Sidney. Quem os visitar em casa deparar-se-á na porta da entrada com um quadro que diz “Amo, ergo sum” e ainda uma mescla de postais com tubarões colados com baba de caracol.

Texto de Sandra Gonçalves
Fotografia de Ricardo Graça
(Publicado a 4 de Setembro 2014)