Atazanar_Palavras de que gosto Rita Cortez PintoEra uma vez uma palavra que vivia confortavelmente no dicionário, tentando passar despercebida entre a multidão de letras. Até que – ah-ha! – alguém lhe apontou um holofote e fez com que toda a gente reparasse nela. É mais ou menos isso que se pretende com esta rubrica: mostrar, com as letras de uma mão e os desenhos de outra, porque é que estas são Palavras de Que Eu Gosto.

 #8: ATAZANAR

Sempre me pareceu que esta palavra podia perfeitamente significar chatear o próximo agitando-lhe uma ratazana morta à frente do nariz. Segurar-lhe pela cauda, com a bicha a oscilar para um lado e para o outro, assim tipo pêndulo, como aqueles senhores que tentam hipnotizar alguém nos programas de magia na televisão.

Porém, ao contrário desses, duvido que um hipnotizador de ratazana em punho conseguisse manter o seu candidato a hipnotizado parado à sua frente mais de 1,3 segundos – por mais ar sério e compenetrado que arvorasse – sem este fazer um esgar de nojo e desatar a fugir esbaforido, em histeria decibélica e saltitante.

No fundo, atazanar mais não é do que fazer precisamente isso mas em sentido figurado. É capaz de mexer menos com as vísceras do que ter o Michael Phelps do esgoto ali, de patas para o ar, diante dos nossos olhos, mas consegue ser igualmente perturbador. Toda a gente sabe que atazanar é aborrecer alguém até à quinta casa, quer seja por lhe moer o juízo e infernizar a molécula repetidamente, com uma persistência e acutilância bem treinadas, seja por o atazanador levar a estratégia do água-mole-em-pedra-dura ao seu mais alto grau, que é como quem diz ser um pica-miolos impossível e azucrinar a paciência ao atazanado até o vencer pelo cansaço.

Afinal nem é assim tão estranho o facto de a palavra ter começado por ser atenazar, que significa apertar qualquer coisa entre as pinças de uma tenaz – aquelas das lareiras, da salada ou dos caranguejos. É que atazanar também é assim uma espécie de método de tortura, em que só se liberta a vítima depois de a conseguir tirar do sério. Só aí o atazanador se dá por satisfeito, e ainda finge um ar espantado, depois de deixar provada a fraca resistência do alvo.

Atazanar consiste nessa nobre arte de ser um arreliador profissional: alguém que nos atazana não se limita a ser levemente incómodo; há toda uma escala de intensidade em que o atazananço é o limiar máximo. Não é chatear só um bocadinho. Atazanar alguém é mesmo pôr-lhe os nervos em franja, melgá-lo tão insistentemente por um qualquer pretexto, num crescendo que testa os limites da Madre Teresa de Calcutá que há em nós, até deixar uma pessoa fora de si e acabarmos por mandar um berro estilo trovão ou desatar num chorrilho de impropérios que não estavam no programa. São Valium nos acuda.

Texto de Catarina Sacramento
Ilustração de Rita Cortez Pinto
(Publicado a 4 Setembro 2014)

  • Catarina Sacramento (Leiria, 1977). Começou a ler e a escrever aos 6 anos e desde então não faz outra coisa. Licenciada em Ciências da Comunicação (FCSH/UNL), trabalhou sempre na área da cultura/artes (jornal Blitz, revista Time Out Lisboa, Texto Editores) e turismo/lazer (portais online, Lifecooler e Myguide). Viveu meia vida em Leiria e outra meia em Lisboa, com um saltinho a Macau pelo meio. É jornalista, parteira de livros e caçadora de erros em regime freelancer. Para a Preguiça Magazine, depois da série ‘Na Espreguiçadeira com…’ (uma entrevista em forma de questionário literário), criou agora esta rubrica mensal: ‘Palavras de que Eu Gosto’ são crónicas mais ou menos delirantes, ilustradas por Rita Cortez Pinto.
  • Rita Cortez Pinto (Lisboa, 1977). Construtora de desenhos em papel, o seu trabalho cruza vários universos que têm sempre em comum o mundo do Desenho. Movimenta-se entre as artes plásticas, a ilustração e também a arte-educação, com diferentes públicos, em especial o infantil. Tem formação superior em Arquitectura de Design pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa e o Curso Avançado de Artes Plásticas pelo ArCo. Expõe regularmente desde 1999 e colabora desde 2003 em diferentes instituições museológicas e projectos individuais na área da educação artística para crianças. Mais info no blogue acaixavoadora.blogspot.com e no site www.ritacortezpinto.yolasite.com.