JOANA_BARTOLOMEU_ANIME

Entramos e sentamo-nos. Pedimos uma bebida e ao som de um rock ‘n’ roll começamos a conversar, sobre cinema, claro está. Para a reentré fui pôr-me à conversa com a Joana Bartolomeu, realizadora de curtas metragens de animação, tais como a premiada ‘The Tailor’s Kiss’ ou ‘M’.
É uma apaixonada pelo cinema e isso nota-se. Ora leiam:

1. Qual foi o último filme que viste? Que dizes?
O último filme que vi foi, na verdade, uma revisão: o Guerra dos Mundos, de Byron Haskins (1953). Foi um filme que vi bem pequena e me marcou muito, pois durante anos tive pesadelos com aqueles “olhos gigantes” no céu. Desta vez, talvez uns 30 anos mais tarde, foi bastante divertido ver a disparidade entre a dimensão do meu medo e a crueza dos aliens – acho que foi mais assustador o que eu imaginei naquela altura do que o que realmente vi – e continua a ser esse o tipo de filmes que me apaixonam, aqueles que permanecem em mim muito tempo após o seu visionamento.

2. O teu top 3 filmes:
A lista é difícil de fazer… Como seleccionar só três filmes de um universo que faz parte de mim?
Posso citar três filmes que me marcaram: Blow Up (de Michelangelo Antonioni), The Man with Pendulous Arms e A Trilogia das Cores – Vermelho, Azul e Branco (de Kryzstof Kiewsloswi). Mas daqui a pouco a lista muda. E aumenta. Vamos ficar por aqui.

3. O teu top 3 realizadores:
Aqui já não dá mesmo para ficar por três: Jarmusch, Hitchcock, Antonioni, Fellini, Kusturica, Kiarostami, Kieslowski, Coppola, Tarantino, Tornatore, Cronenberg, Tarkovski, os Cohen, Jeunet & Caro, Kubrick, Polanski, Cassavetes…
Se começar a citar realizadores e autores de outras coisas animadas e não, estamos aqui uma semana a beber cafés.

4. Um actor e/ou actriz preferido(a)?
Há também muitos actores/actrizes que admiro e adoro.
Haverá sempre o par Bogart/Bacall que é maravilhoso ver, e me lembram sempre a minha avó.
Há um senhor português que adoro pela sua voz – o falecido Canto e Castro, e que nos deixou um legado no campo das dobragens fabuloso, precioso. Adoro o Nuno Lopes – é extremamente versátil e genialmente bom em tudo o que faz, quer seja em teatro, cinema ou TV. Adoro também a Juliette Binoche, e o seu mix de candura com sensualidade e força.

5. Um clássico do cinema que andes sempre a adiar?
O Aniki Bobó. Nunca consegui vê-lo e vou adiando, adiando…

6. O que te leva a ver um filme? O realizador? A premissa? O elenco? Tudo isto junto? Ou nada disto?
Um pouco de tudo. Varia. Mas ir ao cinema é sempre algo que eu nunca recuso. É das minhas coisas preferidas mesmo.

7. Que filme viste tantas vezes, ao ponto de saberes as falas de cor?
Nightmare Before Xmas, do Henry Sellick.

8. Qual o filme da tua infância?
O E.T., do Spielberg.

9. Um momento cinematográfico do qual te lembras recorrentemente? 
A cena do chuveiro do Psycho. Acompanhada pelo som, e abrilhantada pela expressão facial da Vera Miles. Genial. (Mas há tantos momentos lindos…)

10. Sei que nem sempre é fácil de admitir mas… choras a ver cinema? Um momento de ir às lágrimas?
Ui, o clássico. O Cinema Paraíso, do Tornatore, faz-me SEMPRE chorar. É-me impossível de evitar as lágrimas em catadupa quando ele espera por ela à chuva, noites a fio – ou aquele momento (que já se tornou cliché, mas who cares? eheh), em que ele está no cinema a ver os pedacinhos censurados. Sou uma romântica, que posso dizer?

11. Se fosses uma personagem de cinema, qual serias e porquê?
A Mary Poppins. Só e simplesmente para poder voar com o guarda-chuva. O que não é para qualquer um.

12. Com que personagem do mundo do cinema gostavas de ter uma conversa de café?
Assim de repente, gostava de beber um café com a Amélie Poulain. E com a Mia Wallace.

13. Melhor banda sonora de sempre?
Tantas tantas bandas sonoras me influenciaram ao longo dos anos… The Piano, Pulp Fiction, Hair, Natural Born Killers, The Good, The Bad and The Ugly, My Fair Lady, Nightmare Before Xmas, In the Mood For Love, Buena Vista Social Club, só para mencionar algumas que me vieram agora à cabeça… And still counting. Mas acho que talvez a mais intemporal de todas seja a do Paris Texas, do Ry Cooder – é incrível como o tempo passa e se mantém com a mesma frescura de sempre.

14. Qual o teu realizador de filmes de animação preferido?
Opá… Essa é bem difícil de responder! É quase como para uma criança responder a “gostas mais do papá ou da mamã?” Tenho um grupo de pessoas cujo trabalho adoro, contemporâneas e mais “clássicas”. Jan Švankmajer, Michaela Pavlatová, Osamu Tezuka, Zepe, Laurent Gorgiard, Jan Balej, Jiří Trnka, Ivan Maximov são nomes incontornáveis para mim – mas se voltarmos a isto daqui a 10 minutos, a lista não parará de aumentar…

15. Um filme de animação que gostasses de ter sido tu a realizar?
Como podes calcular, são quase incontáveis os filmes de animação que adoro e que revejo vezes sem conta (podes sempre cuscá-los no meu blogue: kafkianmood.blogspot.com) – mas penso que foi o The Man with the Pendulous Arms, do George Gorgiard que me deu o final push para seguir animação. É um filme emotivo e simples, tão simples que se torna perfeito. O personagem é misterioso, a história tem margem para a interpretação pessoal e parece-me também um daqueles filmes que sobreviverá ao tempo.

Entrevista de Catarina Mamede
Ilustração de Rui Cardoso
(Publicado a 11 Setembro 2014)