os maias 2O que há de comum entre 1888 e 2014?

Os Maias de Eça de Queirós são também agora Os Maias de João Botelho, que adaptou o romance oitocentista ao grande ecrã. Ainda não vi o filme, mas decerto valerá a pena, tendo em conta que se junta ao génio do escritor português o génio do cineasta. Apesar da estreia nacional ter sido no passado dia 11, só estará em Leiria nos dias 17 e 18 de Novembro, no Teatro José Lúcio da Silva. Até lá, recordemos a obra escrita.

Quem não se lembra de ter de ler Os Maias no ensino secundário? Para muitos, uma autêntica tragédia (não o romance, mas a leitura do mesmo), tendo em conta o número de páginas e a quantidade de descrições da sociedade portuguesa, sobretudo lisboeta, da segunda metade do século XIX. Para outros (e são também estes muitos), a descoberta de uma escrita sublime, de um manual de boas e más (sobretudo estas) condutas, de uma resenha histórica incomparável, de uma actualidade evidente e extraordinária.

O facto é que, gostando ou não gostando do romance e/ou do escritor, não se pode ficar indiferente a tamanha obra literária, capaz de nos fazer rir e de nos fazer chorar. Os episódios mostram-nos uma imagem de um país em bancarrota, lembrando-nos os dias de hoje. O desfile de personagens da época é magnífico. Para além dos elementos da família central: Afonso, Pedro, Carlos, Maria Eduarda, há tipos sociais fantásticos e actuais. Os meus preferidos são Dâmaso e Ega.

Dâmaso Salcede é uma das personagens mais actuais da trama, o novo rico, que tenta copiar Carlos em tudo, mas que acaba sempre por mostrar o seu lado mais provinciano, até pela forma como se veste. Adoro o fato azul com que se apresenta no jantar do hotel central, parecendo um noivo de província. Ainda consigo dar uma sonora gargalhada, quando leio a descrição do seu traje no episódio das corridas de cavalos, sobretudo o pormenor do véu que usa agarrado ao chapéu, como se de uma senhora se tratasse, para evitar apanhar pó, acabando por ser alvo de críticas e concluindo que nas próximas corridas virá nu, completamente nu. Já para não falar da carta que Ega o obriga a escrever, para se redimir do escândalo que causou na vida de Carlos e Maria Eduarda, alegando que é um bêbado, sempre foi um bêbado reles e por isso nada do que diz é verdade, apenas fruto da bebedeira.

João da Ega é o dandy, o excêntrico, mas também o amigo fiel, portador da descoberta trágica que a mulher que o amigo ama é afinal sua irmã. É incrível a forma como lida com o adultério, deleitando-se na cama com Raquel e fazendo jantares em honra do seu marido traído, Cohen, de quem se faz muito amigo. Gosto imenso do pormenor da personagem, quando, no jantar do hotel central, manda alterar o menu, apresentando “petits pois a la Cohen”, um prato de ervilhas com molho branco, para homenagear o convidado mais especial. Imagino cada detalhe da sua indumentária, sobretudo quando reencontra Carlos e se apresenta com uma peliça à russa e umas luvas cor de canário, ou quando se mascara de Mefistófeles e acaba por ser descoberto por Cohen.

O episódio final é uma reflexão espantosa sobre a vida, sobre as nossas escolhas, as nossas fraquezas e os nossos sonhos. Penso que esta é a melhor parte do romance, sentir que, apesar de tudo, a vida faz sentido, tal como a narrativa ter sido deixada em aberto, sendo completada por cada leitor à sua maneira. Os Maias não são uma obra de época, mas sim uma obra intemporal. Por isso, a recente adaptação cinematográfica da obra homónima por João Botelho, uma espécie de libreto de ópera, tendo como pano de fundo algumas telas de João Queiroz, é uma reflexão da sociedade portuguesa actual. O próprio cineasta o afirma: “Nunca faço filmes de época, são do dia em que os faço.”

Texto de Vanda Balão
(Publicado a 18 Setembro 2014)