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Se houve coisa que lhe mudou a vida foi ter visto em miúdo na televisão portuguesa o filme Great Balls of Fire (1989) dirigido por Jim McBride, com Dennis Quaid no papel de Jerry Lee Lewis. A partir desse momento, o rock passou a soar de outra maneira e a fazer parte da sua epiderme.

Um dos exemplos que devemos sempre ouvir os nossos pais é que pouco tempo depois de ver o filme, André Castela quis comprar um disco do Jerry Lee Lewis, mas não havia na loja: “Compra antes Elvis, que é melhor!”, disse-lhe o pai. Foi outro tiro, outro melro, e também adorou imediatamente este tal de Elvis. A partir daí, e como se costuma dizer… the rest it’s history.

Como qualquer adolescente à procura do seu rumo, a busca pela música levou-o ao disco ao vivo de 1972, Made in Japan, dos Deep Purple, assim como à discografia dos Doors, Johnny Cash ou dos Violent Femmes. As preferências musicais foram-se cimentando, e nunca mais parou na sua busca pelos clássicos.

Fã confesso dos Mão Morta e dos extintos Tedio Boys, as sonoridades mais psychobilly foram-lhe apresentadas na loja de roupa Garagem, comprou o seu primeiro disco de Cramps na discoteca Alquimia, foi conhecendo e apreciando bandas como Joy Division, Velvet Underground, Bauhaus, mas à medida que ia descobrindo coisas novas, nunca deixou de gostar das primeiras que ouviu, ou seja, o rock mais clássico.

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A ida para a faculdade em Lisboa fez o resto do estrago, onde apanhou precisamente um dos momentos áureos do Ritz, numa altura com muitos concertos da onda rockabilly. Tudo fez sentido, tudo se conjugou, e estava assim formado um rocker de corpo e alma, daqueles que quando se fala com ele, se sabe que o rock veio para ficar e será para sempre.

A sua voz grave já vem de muito cedo, mas também é de família, e como sempre gostou de cantarolar, o decisão de cantar, quer a solo quer com bandas, surgiu naturalmente, e assim firmou a sua passagem por bandas como Hypocaust, Noir, Sees Of The Moon – com boas críticas, inclusivamente na saudosa Mondo Bizarre – Velvet Flames, ou a solo como Psychotic Reaction, Chamas de Veludo – em português e ao piano – ou simplesmente como o seu nome próprio e de guitarra em punho.

Está a preparar um novo disco para Outubro: continuará a solo, mas com um instrumento extra que é a harmónica. Diz que se sente bem assim a tocar a solo. Apesar de dizer que canta sobre coisas tristes, não se considera assim: “É algo que sai de mim, uma espécie de purga. Mas também tem a ver com o ambiente blues em si, ou com aquele country outlaw“, diz André Castela.

É técnico farmacêutico durante o dia, mas à noite todos os gatos são pardos e troca a bata branca pelo casaco de cabedal negro. Não será o último dos bardos ao nível do rock’n’roll, mas é o próprio quem o afirma: “Sou capaz de ter sido, por momentos, em Leiria, o único rockabilly! Claro que havia mais pessoal a gostar dessa onda, mas a tocar e a cantar era o único”.

A Preguiça rematou uma pergunta final muito simples, e a resposta não poderia ter sido mais eloquente:
– Imaginas-te a tocar música até quando?
– Até morrer!

André Castela toca esta sexta no Clube Musique em Leiria.

Texto de Pedro Miguel
Fotografias de Ricardo Graça
(Publicada a 18 Setembro 2014)