Nesta semana que passou, dois dos maiores vultos da música contemporânea sopraram as velas e ofereceram presentes aos seus admiradores. O canadiano Cohen e o australiano Cave.

Leonard Cohen completou 80 anos e lançou um novo disco que, à primeira audição, parece um regresso tão ou mais feliz que em Ten New Songs. Recebeu homenagens um pouco de todo o lado e parece querer adiar a reforma até que a voz lhe doa. Talvez tenha medo de deixar de conseguir fazer aquilo que o mantém realmente vivo: compor e pisar o palco.

Esse sentimento é um dos muitos que assalta Nick Cave num filme que acaba de estrear. Nascido em 1957, conta 57 anos e cerca de 20.000 dias na face deste planeta, e resolve partilhar momentos íntimos de convívio e criação numa longa-metragem que promete ser muito mais do que uma simples biografia.

Passados vários anos, a dupla de realizadores promove reencontros de Nick Cave com Blixa Bargeld ou com Kylie Minogue, vasculha o seu passado e arranca das suas expressões e das suas palavras autênticas lições de vida.

O anjo negro do rock chegou muitas vezes a ser descrito como o resultado perfeito de um cruzamento de Iggy Pop com Leonard Cohen, mas a verdade é que, não atingindo o mesmo grau de reconhecimento daqueles dois vultos, consegue uma carreira em constante crescendo, com uma aura cada vez maior e com a sensação de ainda ter muito de novo para dar.

Popular Problems, de Cohen, até pode não figurar nas listas de melhores discos do ano, mas 20.000 Days On Earth vai ser um dos melhores filmes de 2014.

Texto de Hugo Ferreira
(Publicado a 25 Setembro 2014)