Conto_2

Pedimos voluntários para a nova série de contos. Paulo Kellerman elaborou o questionário e eles responderam. Agora são personagens dos textos de duas dezenas de autores a publicar aqui na Preguiça, com fotografias de Ricardo Graça. De 15 em 15 dias, a ficção imita a realidade.

72 HORAS
Texto de Elisabete Antão

Estou especado no meio da praça Santa Maria de Trastevere em Roma e pareço um vagabundo. Não tenho telefone, nem dinheiro e fiquei sem documentos.

Doem-me os pés dentro destes sapatos pindéricos. Será que é proibido visitar a Basílica descalço? Vou mas é sentar-me num lugar discreto, assim não corro o risco que ela me veja primeiro.

Tenho o coração tão apertado que até me custa respirar. É inacreditável que ainda só tenham passado três dias desde que aqui cheguei. Foram 72 horas surreais.

O primeiro dia começou atribulado e terminou comigo numa desgraça. Cheguei ao aeroporto de Roma perto das oito da manhã. Apanhei um táxi para o hotel, que ficava perto do centro e à chegada fui surpreendido com uma enorme manifestação contra a austeridade. Os manifestantes atiravam ovos e laranjas contra os edifícios. Entretanto, os ovos e as laranjas devem ter acabado e começaram a lançar petardos e pedras.

O trânsito estava parado (um cheiro a pólvora misturado com ovos podres que não se podia) e arriscando levar com um pedregulho em cima fui a pé para o hotel, que não fazia ideia nenhuma onde ficava. Entrei num labirinto de ruas estreitas e becos de onde saíam manifestantes histéricos.

Tive alguma dificuldade em encontrar ”pessoas normais” para pedir ajuda e optei pelos estabelecimentos comerciais. Entrava e mostrava um cartão com o nome do hotel. Foram todos muito prestáveis. Gente simpática, estavam era num dia mau.

Por fim, encontrei o tão desejado hotel Trastevere, onde a Ana esteve tantas vezes. Aquele contratempo deu-me uma ideia para a procurar, usar uma fotografia dela, como fiz com o hotel. Era uma ideia parva, mas era a única que tinha.

No hotel fiz a experiência, com o funcionário da recepção e ele não foi simpático, mas é compreensível.

Quando saí do hotel, a manifestação ainda não tinha dispersado. Optei pelas ruas mais tranquilas até chegar a um bairro que segundo o roteiro era o bairro da moda lá do sítio.

Quando vi a loja Chanel lembrei-me do fascínio que ela tem por esta marca e decidi entrar. Mostrei a fotografia da Ana à empregada e a gaja olhou para mim com um ar do tipo: “Acha que alguém como você alguma vez iria encontrar amigos numa loja destas?” Fiquei para lhe desfazer a tromba!

Quando saí da loja, comecei a reparar no aspecto dos gajos que passavam e por momentos pareceu-me que estava noutra galáxia. Logo eu, que não me lembrava da última vez que tinha comprado roupa. Não é que a Ana alguma vez se tivesse queixado disso, mas eu sei que as gajas ligam a essas merdas. As minhas botas, então, pareciam as botas do Charlot.

Entrei numa loja só porque achei que a empregada tinha um ar simpático, o que de facto veio a verificar-se. Ela vestiu-me dos pés à cabeça e fiquei irreconhecível, mas quando vi a conta, fiquei tão perplexo, que pensei: “Não vais gastar esta fortuna em roupa!” Mas eis senão quando, entreguei-lhe o cartão de crédito, como se aquela situação fosse banalíssima para mim.

Saí da loja dominado por instintos masoquistas, estive quase a dar um par de estalos a mim mesmo e, como se não bastasse de estupidez, ainda deitei a roupa velha no lixo.

Regressei à loja Chanel e desta vez fui recebido com uns dentes enormes a sorrir para mim. Num italiano muito rudimentar disse-lhe:

– Então e agora, já me acha digno para procurar alguém na sua loja? Desfez-se em desculpas, mostrei-lhe novamente a foto, mas ela disse-me que não se lembrava de ter visto a pessoa lá retratada.

De volta ao hotel reparei no cartaz da ópera As Bodas de Fígaro. Uma das óperas preferidas da Ana. Depois pensei que hipóteses teria de a encontrar num teatro com aquelas dimensões, mas eu estava decidido a acreditar num feliz acaso.

O espectáculo era às 19h00 no Teatro Del’ Opera Di Roma, que ficava no centro histórico.

Fui uma hora antes, para ver quem chegava. Quem diria. Eu que nunca tinha visto ópera na vida.

À medida que as pessoas iam chegando fui ficando cada vez mais tenso, mas estava entusiasmado com a ideia de a encontrar ali. Seria sem dúvida o encontro perfeito, a não ser que a encontrasse acompanhada. Esse pensamento era recorrente, mas eu desviava-o sempre.

Sentei-me na plateia deslumbrado com a grandiosidade daquele teatro e no início do espectáculo estava espantado com a qualidade da cenografia, mas depois aqueles timbres de voz começaram a dar comigo em doido.

Fui obrigado a abandonar o espectáculo antes do fim e enfiei-me no primeiro bar que me apareceu.

Encabrei-me de tal forma que quando saí do bar, comecei a andar à toa nas ruas do bairro judeu. Embora o hotel ficasse no mesmo bairro, não o conseguia encontrar. Estava perdido naquele labirinto de ruas estreitas, cada vez mais escuras e sem gente.

De súbito comecei a ouvir vozes sussurrantes atrás de mim e pensei: – Estou lixado! E não me enganei, fui assaltado por um bando de putos. Provavelmente seguiram-me e esperaram pela melhor oportunidade. Entreguei o dinheiro, mas eles também queriam a carteira. Como tentei resistir, levei uma sova tal que nem me consegui levantar.

De madrugada despertei com um monte de crianças curiosas à minha volta a remexerem-me os bolsos. Disse-lhes que já não havia mais nada para roubar e fui-me embora. Quando olhei para trás, senti que nunca mais esqueceria aquela imagem.

Quando finalmente cheguei à rua do hotel, vi o velhote da livraria a quem eu também já tinha perguntado pela Ana. Estava especado a olhar para mim, o que não era para menos, eu estava com um aspecto deplorável.

Fez-me sinal para entrar na livraria e perguntou-me quem era aquela mulher que eu procurava. Respondi-lhe que era apenas alguém de quem eu gostava muito, virei costas e saí antes que perdesse a compostura. No hotel queriam que eu fosse à polícia, mas eu achei desnecessário, pois o passaporte tinha ficado no hotel. Fiz uns telefonemas para cancelar os cartões bancários. No bolso de um casaco encontrei alguns euros e fiquei aliviado, pois ainda faltava ir a um lugar. Num último fôlego de a encontrar apanhei um táxi para a cidade do Vaticano.

O taxista disse qualquer coisa, mas eu estava tão absorvido pelos meus pensamentos que não entendi o que dizia, mas pareceu-me que o assunto tinha a ver com mulheres. Perguntava se eu estava a gostar das mulheres italianas. Respondi-lhe que ainda não tinha reparado nelas. Ele olhou para mim através do retrovisor com desprezo e começou a dizer algo parecido com “maricas de merda”.

Não estava para grandes discussões, mas é claro que tinha reparado nas mulheres. Aliás, não tinha feito outra coisa desde que tinha aterrado, mas não houve nenhuma que me tivesse ficado na memória. Algumas despertaram-me a atenção, mas foi apenas porque pensei que podiam ser ela. Pequenas analogias como uma silhueta pequena, uma tatuagem, um corte de cabelo ou um cheiro familiar.

A viagem tinha chegado ao fim e o taxista levou-me o dinheiro quase todo. Inflacionou a tarifa, não sei se foi por achar que eu era maricas, por ter sido ignorado, ou ambas as coisas.

Quando entrei na Basílica de São Pedro, lembrei-me das imagens do desfile de moda sacra do filme Roma, de Fellini, e tive de me controlar para não soltar uma gargalhada, mas ainda assim o meu ar irónico não deve ter passado despercebido. Estava uma mulher aparentemente chocada a olhar para mim.
Na Praça de São Pedro, no meio daquele mar de gente, deparei-me com um paradoxo: “Procuro-a no meio da multidão, quando dentro dela vive uma?”

A natureza dela é de uma transmutação constante. Tanto pode ser uma mulher sexy e dominadora, cheia de glamour, outras vezes uma menina frágil e inocente como nos contos de fadas, ou ainda uma mulher simples e prática ligada às questões humanistas e da fé.

Por vezes ficava sem saber como lidar com a sua complexidade. Optava pela solução mais pacífica, que era deixar-me guiar por ela.

Sentia que se alguma vez soubesse a dimensão do meu amor por ela, a perderia para sempre, pois seria impossível agradar-lhe.

Estava enganado. Não só a perdi como também tinha desperdiçado momentos incríveis.

Pedi o meu pequeno milagre, e regressei ao hotel, desta vez com um taxista que não era dado a falas.
Tomei um banho e tentei relaxar, mas já não conseguia evitar pensar que ela tinha um caso amoroso. Passou-me pela cabeça que ela tivesse regressado a Portugal e pensei em ligar ao irmão dela, mas isso implicava ter de explicar como é que tinha vindo ali parar e isso não me convinha nada.

A verdade é que eu tinha estado em casa dela e tinha cometido o delito de lhe vasculhar as coisas. Sei que para ela é uma atitude detestável.

Ela tinha-me ligado há uns dias para eu ir buscar os meus pertences. Coisa que, desde que nos separámos, eu tinha vindo sempre a adiar. No dia combinado ligou-me a dizer que tinha ido para Itália, mas que mesmo assim fosse lá a casa, pois tinha deixado ordens à vizinha para me entregar as chaves do apartamento.

Quando lá entrei foi um tormento, o cheiro dela deixou-me completamente extasiado. Na entrada estava um arranjo floral Ikebana a dar as boas-vindas a quem entra.

Fiquei feliz por ela ter conseguido concretizar o sonho de aprender aquela arte japonesa. É admirável o gosto que ela tem por coisas difíceis.

Os meus caixotes estavam na entrada e quando os abri não encontrei a minha caixa de ferramentas. Fui à dispensa procurá-la e reparei numa mala com aspecto antigo que eu nunca tinha visto, a curiosidade falou mais alto e não consegui resistir a abrir a mala.

Tinha apenas alguns livros antigos, um caderno em branco e várias facturas do hotel. As datas coincidiam com as vindas dela a Milão, segundo ela por motivos profissionais. Se as razões que a trouxeram a Roma foram as mesmas, por que razão escondeu isso de mim?

Fiquei perdido! Cheio de ganas de ir à procura dela e o que me levou a ir procurá-la não foram só os ciúmes. Tomei consciência do meu desconhecimento sobre os seus interesses e necessidades.

A minha “aparente” indiferença fez com que ela não partilhasse comigo o seu universo pessoal. Desfazer esse mal-entendido era o motivo que me tinha trazido ali e, independentemente do desfecho, de uma coisa eu tinha a certeza: “Não estava arrependido de ter vindo, porque à procura da Ana foi a mim que eu encontrei.”

Este pensamento deixou-me mais tranquilo e adormeci profundamente.

De manhã acordei com o telefone a tocar. Tinha um recado na recepção e era urgente. Saltei da cama num instante, cheguei à recepção e estranhei a forma atenciosa como o funcionário me tratou, nada habitual até então.

Disse-me que o senhor Francesco da livraria precisava de falar comigo com urgência, que era um assunto do meu interesse. Pensei imediatamente que podia ter a ver com a Ana e desatei a correr para a livraria.
Quando entrei na loja, fechou a porta dizendo que era para não sermos interrompidos.

Segui-o até uma pequena sala, pediu-me para eu me sentar e disse-me:
– Vejo que os seus sentimentos pela menina Ana são sinceros.
– Sim. É verdade. Embora isso não tenha sido o suficiente…

Depois de um breve silêncio ele disse:
– Ela é minha cliente. É coleccionadora de livros antigos, coisa de família, sabe? Passou de geração para geração. O avô dela e eu éramos muito amigos.
– Então ela já sabe que estou aqui?
– Que eu saiba, não.
– E porque que me está a contar estas coisas?
– Quando me perguntou por ela, fiquei muito arreliado sem saber o que fazer. Confesso que pensei seriamente em ligar à menina Ana, mas depois de o ver no estado em que anda compadeci-me de si e pensei numa solução. Tenho aqui uma encomenda para ela. Na semana passada liguei-lhe para a avisar e ela disse-me que esta semana viria levantá-la. Ontem, assim que tomei conhecimento que você regressaria hoje a Portugal, decidi de imediato ligar à menina Ana. Disse-lhe que tinha surgido um imprevisto, que tinha sido obrigado a fechar a loja durante um tempo indeterminado e se era possível para ela estar em Roma no dia seguinte, pois podia entregar-lhe o livro noutro lugar. Marcámos um encontro para hoje às 15h00 na Piazza de Santa Maria.

Entregou-me o livro e disse-me:
– Entregue-o você e boa sorte.

Texto de Elisabete Antão
A partir do questionário respondido por Teodora Baruc
Fotografia de Ricardo Graça
(Publicado a 9 Outubro 2014)