Nunca os Dead Combo foram tão mediáticos e em grande parte o devem a um cozinheiro de Nova Iorque. A esta hora, restam só algumas dezenas de bilhetes para o concerto de Leiria – que é já na sexta-feira, dia 10.

Falámos com Pedro Gonçalves, o contrabaixo gangster que contracena com o guitarrista cangalheiro, Tó Trips. Acerca do espectáculo no Teatro José Lúcio da Silva, do novo álbum, da Dona Emília e do encontro com Anthony Bourdain.

Nenhum dos dois combos vê televisão e talvez por isso sobra-lhes tempo para coleccionar histórias de ruas vadias, que invadem as 13 canções de A Bunch of Meninos.

Continuam a sonorizar a alma portuguesa, como só eles sabem. A boémia, a Lisboa castiça, o fado na escuridão, numa linguagem muito própria, com direito a homenagens: da amiga da Galeria Zé dos Bois aos bons sacanas Waits e Cave.

Ao quinto registo em estúdio, a dupla que parece saída do western spaghetti convoca novas sonoridades do mundo, só para lhes vestir a roupagem a la Dead Combo. América Latina, África, Hawai em Chelas. Tudo bem embrulhado e toma lá um selo com destino aos palcos internacionais.

E como o cenário deste filme inclui becos e marginais, também se discute aqui a (não) política cultural de sucessivos governos.

O concerto do Teatro José Lúcio da Silva está agendado para as 21h30 e os bilhetes custam 12,50 euros.

“Sempre que tentámos fazer planos falhámos redondamente”

O que podemos esperar da vossa passagem por Leiria?
Pedro Gonçalves: Em Leiria iremos estar nós os dois [Pedro Gonçalves e Tó Trips] e iremos focar a nossa atenção no nosso último disco, A Bunch of Meninos, embora também passemos por outros discos.

Depois de Lusitânia Playboys e de Lisboa Mulata, que Lisboa é esta em A Bunch Of Meninos?
É uma Lisboa que está lentamente a desaparecer, mas que se encontra também nas nossas memórias. A Lisboa boémia, escura, castiça. No fundo, continua a ser a cidade acerca da qual tocamos desde o primeiro disco.

O que tem Lisboa que vos amarra tanto à cidade?
É a nossa cidade natal. Para além de tudo aquilo que a torna única, é a nossa cidade. As palmeiras, o rio Tejo, as ruelas de Alfama, as cúpulas brancas, as colinas, tudo isso.

Neste álbum há personagens inspiradas na vida real?
Sim. Há a Dona Emília, que é nossa amiga desde há muitos anos e trabalha na Galeria Zé dos Bois, há também o Tom Waits e o Nick Cave.

Em A Bunch of Meninos experimentam novos géneros. De que andam à procura?
Não diria que experimentamos novos géneros, o que fazemos desde sempre é ir buscar à nossa memória a impressão que temos de certo tipo de música e depois interpretá-la à nossa maneira.

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Como é que se explica a vossa música a um estrangeiro?
Costumamos dizer que é música com Lisboa lá dentro. No fundo são muitas músicas com muitas Lisboas lá dentro.

Sentem-se embaixadores da alma portuguesa?
Não. Apenas fazemos aquilo de que gostamos e temos a sorte de o poder fazer um pouco por todo o mundo, mas não somos nem pretendemos ser “embaixadores” do [quer] que seja. A música portuguesa não precisa de embaixadores, precisa sim é de apoios sérios por parte do governo no sentido de a exportar, como é prática comum em qualquer país civilizado. É pena que os sucessivos governos encarem a exportação da cultura portuguesa única e exclusivamente como adorno a eventos diplomáticos. Se olharmos para os exemplos de países como o Canadá ou a Suécia, percebemos muito rapidamente que a exportação de cultura pode ser um negócio extremamente rentável.

A vossa estética tornou-se inconfundível. Chegar onde estão agora é fruto de um processo ou era o plano de voo desde o início?
Planos é coisa que infelizmente não conseguimos fazer. Sempre que o tentámos, falhámos redondamente. O nosso caminho é fruto de trabalho, sorte, e acima de tudo fruto do trabalho das pessoas que nos ajudaram e ajudam.

Sabiam quem era o Anthony Bourdain quando gravaram o programa com ele?
Não. Eu não tenho televisão desde há 20 anos e o Tó tem mas não vê. Só depois, através de amigos, é que percebemos a dimensão do programa dele.

Como é que descrevem o efeito Bourdain na carreira dos Dead Combo?
Efeito BOOOOOOOOMMMMMMMMMMMMMM!

Entrevista de Cláudio Garcia
(Publicado a 9 Outubro 2014)