Choné_RitaCortezPinto_palavras_de_que_eu_gostoEra uma vez uma palavra que vivia confortavelmente no dicionário, tentando passar despercebida entre a multidão de letras. Até que – ah-ha! – alguém lhe apontou um holofote e fez com que toda a gente reparasse nela. É mais ou menos isso que se pretende com esta rubrica: mostrar, com as letras de uma mão e os desenhos de outra, porque é que estas são Palavras de Que Eu Gosto.

 #9: CHONÉ

Primeiro que tudo, há que fazer a distinção: o choné não é maluquinho de todo, chalupa, com um parafuso a menos. Não haja confusões. O choné não passou irremediavelmente para o outro lado. É mais um artista de circo, equilibrado em cima do muro da loucura. Mas sem cair, que lá em cima a vida tem muito mais graça.

Não pensem que o choné é doido. Desmiolado, talvez. Cabeça no ar, vá lá: um bocadinho amalucado, mas um amalucado feliz. E um louco saudável, daquela loucura boa, que quer mais dizer alegria do que inconsciência.

Ser choné é uma forma de estar. É não abdicar do último reduto da infância, a pièce de résistance conservada até à idade adulta. Um trunfo que atravessa décadas e que se guarda para sacar mais tarde, nas emergências, sempre que for preciso fazer frente ao seu arqui-rival: o grande chato. O choné e o grande chato formam uma dupla de opostos, são o Tico e o Teco que vive na cabeça de toda a gente.

Sim, temos de ser adultos, responsáveis e blá blá blá. Mas a única forma de não nos tornarmos insuportáveis, a tábua de salvação para conseguir escapar à rotina estupidificante é tirar o pé do travão de vez em quando e soltar o choné que há em nós. O puto reguila de sorriso maroto à espera da sua deixa para entrar em cena.

O truque é não manter as emoções todas bem seguras com rédea curta, com medo de sei lá o quê, não vá o diabo tecê-las. Arriscar um bocadinho e permitirmo-nos sentir aquela alegria infantil que dá carta-branca para poder brincar em situações em que os outros ficam sérios, sisudos ou se escudam atrás da desculpa perfeita-hífen-evidência irrefutável: «Já não tenho idade para isso.»

É isso e ter sempre o sentido de humor bem à mão. Ao pé das facas, na cozinha, por exemplo. Ser adulto nas coisas importantes para se poder dar ao luxo de ser choné no resto, diria o nosso Monty Python interior. Say no more.

Texto de Catarina Sacramento
Ilustração de Rita Cortez Pinto
(Publicado a 9 Outubro 2014)

  • Catarina Sacramento (Leiria, 1977). Começou a ler e a escrever aos 6 anos e desde então não faz outra coisa. Licenciada em Ciências da Comunicação (FCSH/UNL), trabalhou sempre na área da cultura/artes (jornal Blitz, revista Time Out Lisboa, Texto Editores) e turismo/lazer (portais online, Lifecooler e Myguide). Viveu meia vida em Leiria e outra meia em Lisboa, com um saltinho a Macau pelo meio. É jornalista, parteira de livros e caçadora de erros em regime freelancer. Para a Preguiça Magazine, depois da série ‘Na Espreguiçadeira com…’ (uma entrevista em forma de questionário literário), criou agora esta rubrica mensal: ‘Palavras de que Eu Gosto’ são crónicas mais ou menos delirantes, ilustradas por Rita Cortez Pinto.
  • Rita Cortez Pinto (Lisboa, 1977). Construtora de desenhos em papel, o seu trabalho cruza vários universos que têm sempre em comum o mundo do Desenho. Movimenta-se entre as artes plásticas, a ilustração e também a arte-educação, com diferentes públicos, em especial o infantil. Tem formação superior em Arquitectura de Design pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa e o Curso Avançado de Artes Plásticas pelo ArCo. Expõe regularmente desde 1999 e colabora desde 2003 em diferentes instituições museológicas e projectos individuais na área da educação artística para crianças. Mais info no blogue acaixavoadora.blogspot.com e no site www.ritacortezpinto.yolasite.com.