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Nove fotografias, nove histórias. O olhar de uma leiriense a morar no Porto que nos oferece retratos de quem migra e emigra.

Um pato de peluche, uma embalagem de detergente, um ramo de flores. Podia ser a ronda final da Bota Botilde, mas são três respostas a duas perguntas com rasteira: o que lembramos das nossas origens quando mudamos de casa, de cidade ou de país? Que objectos levamos connosco para manter a ligação às raízes?

Quem pergunta é Ana Guedes, 25 anos, leiriense a morar no Porto. Quem responde são nove amigos, e amigos de amigos, que em comum têm o facto de viverem na foz do Primavera Sound. A separá-los, entre outras coisas, proveniências tão díspares como o Lubango (Angola), Albacete (Espanha), Abrantes e Caldas da Rainha.

Os que migram e emigram conhecem de cor a filosofia Ratatui: se vives focado no passado, não vês o que está à tua frente (Paris, primeira aparição do chef Gusteau ao nosso amigo rato). E se o que interessa é viver o agora, de que serve olhar para trás?

Responda quem souber, mas cada percurso é como uma segunda pele, que cresce sobre a primeira camada.

Vamos ao passado de quem está atrás da máquina. Deixou Leiria aos 18 anos para estudar jornalismo em Lisboa, mas percebeu que gostaria de rumar a norte e assim acabou no Porto. À beira do Douro, Ana Guedes trabalhou na televisão, daí saltou para a comunicação de empresas e agora faz assessoria de imprensa na área da música.

Nos concertos, a disparar, descobriu uma nova paixão. Que a levou ao Instituto Português de Fotografia e ao projecto “O passado é uma terra estrangeira”. Ponto de partida: a relação com as origens. A objectiva como ponte do presente para os dias que já não voltam.

Todos os migrantes residem no Porto, para que houvesse um traço comum entre eles. Quanto aos objectos com que escolheram ficar no retrato, são o veículo para voltar atrás no tempo, anular a distância e mergulhar no baú das emoções. “Quis trazer para a composição elementos que ligassem as pessoas a casa”, explica a autora à Preguiça. Destaca a bandeira do MPLA – “porque se prende muito a uma ideologia” – e a embalagem de detergente – porque “é mais do que um objecto, é uma sensação”.

Ela própria reconhece influências: Sannah Kvist, August Sander e Gabriele Galimberti. A primeira por ter fotografado jovens com o que têm nos quartos, os dois últimos pela pose formal e pelo trabalho com crianças de todo o mundo e respectivos brinquedos.

Só falta a escolha de Ana Guedes. “Lençóis passados a ferro. Porque o cheiro de estarem lavados e passados a ferro é muito característico… e a preguiça, fora de casa, às vezes domina-nos e só em casa é que existem lençóis passados a ferro”.

Texto de Cláudio Garcia
(Publicado a 16 Outubro 2014)

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Ana Guedes