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São funcionários públicos, administrativos, da área do marketing, professores e lojistas, mas com um amor incondicional ao teatro. São amadores e é assim que querem continuar, porque é assim que se sentem bem. Têm manias e superstições. Aqui não há “pancadas de Molière”, mas há “muita merda”. Já actuaram em cima de grades de cerveja e mesas de bilhar. Esta quinta-feira, dia 16, o palco é maior: é no Miguel Franco. O Teatro Amador de Pombal apresenta: Romeu e Julieta.

São seis em palco. À esquerda um banco, à direita idem, aspas. Ao centro uma caixa de madeira, que serve de cama, varanda, confessionário e caixão. Depois de muitos “Capuletos”, “Montecchios” e cuspidelas, dá-se início a uma luta ao som de espadas invisíveis.

Há alegria, há tristeza – é aquilo a que se pode chamar uma peça tragicómica – há poesia, há dança, há uma Rosalina que depressa é esquecida por um amor maior e desmedido: Julieta. É num chão preto, cada vez mais pintado de pétalas vermelhas, que a paixão entre Romeu e a sua mais-que-tudo se desenrola. Entre o “Glória a Deus” – umas vezes cantado a timbre de tenor e outras trauteado – e uns goles de cerveja, o casamento acontece. O fim já todos conhecem. Este é o Shakespeare de José Carlos Garcia.

Catarina Ribeiro, presidente do Teatro Amador de Pombal, conta que a vontade de trabalhar com o director artístico do Chapitô já existia há muito e surgiu a oportunidade. “Este é um Shakespeare simples de ver, que nos dá poesia e nos faz rir ao mesmo tempo, muito ao estilo de José Carlos Garcia.”

Para esta quinta-feira, o TAP espera que o público de Leiria se divirta, e que “tentem ver Shakespeare noutra perspectiva, a de José Carlos Garcia, e que a determinado ponto alguém se identifique, porque ele tem muito essa característica humana. Que se riam, que pensem, ponderem, porque o teatro também é isso, não pode ser só puro entretenimento”.

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Fazer acontecer

Esta não é a primeira vez que o TAP trabalha com encenadores profissionais. O grupo de escola que foi fundado em 1976 é hoje um colectivo que faz acontecer, que cria cultura e que leva o nome de Pombal por todo o país.

Apesar de no grupo não existir ninguém da área do teatro a trabalhar, “os 10 ou 15 anos de experiência de alguma malta que aqui trabalha valem de muito”, diz Catarina. Para além disso, o TAP já formou três actores profissionais – Miguel Sopas, Filipe Eusébio e Tiago Poiares – “três pessoas do grupo que seguiram, foram tirar o curso e neste momento são actores profissionais e têm trabalho!” E isto não é trabalho de amadores, contudo é assim que querem continuar a ser chamados porque “é assim que nos sentimos bem. O teatro amador em Portugal já não é um mau teatro, não tenham esses preconceitos”.

Entre o ensaio que decorre no palco, Catarina fala com orgulho da “experiência incrível” que é estar à frente do TAP. “O teatro é o trabalhar em colectivo. Dá-me muita força dinamizar o grupo, mas acima de tudo é o amor de fazer teatro, de conhecer pessoas incríveis e de viver experiências em palco que não viveríamos noutras ocasiões”.

Tenho pena que existam bons equipamentos e pessoas com conhecimentos e não haja uma aposta mais agressiva na cultura, porque o público educa-se e faz-se” – Catarina Ribeiro

Acerca do panorama cultural pombalense, a presidente acredita que está em crescimento, mas há necessidade de mais diversidade, de uma aposta mais agressiva. “Tenho pena que existam espaços tão bem fornecidos de equipamentos e pessoas com conhecimentos e não haja uma aposta mais agressiva na cultura, porque o público educa-se e faz-se”. Por um lado, Catarina pensa que “é uma obrigação da autarquia e das instituições”, mas, por outro lado, “e isso Leiria mostra-nos muito, é uma obrigação também das associações e da comunidade envolver-se e fazer coisas. Havendo ideias e gente que queira trabalhar, as coisas acontecem”.

Pode acontecer terem três peças em palco na mesma altura, mas isso “é canja”, para quem dedica uma média de 40 horas semanais ao teatro. Para além disso, “os actores vão rodando de peça para peça”, o que se torna uma maratona, mas o facto de existir disparidade de idades e de experiências “é muito bom”.

Actualmente estão em cena com a peça Romeu e Julieta, mas já pensam na próxima, que será dedicada ao público infantil e que em princípio terá a sua estreia no Festival de Teatro de Pombal, em Abril/Maio de 2015, e que é organizado pelo TAP, em parceria com a autarquia pombalense. Até lá é vê-los em palco, ou quiçá em cima de umas grades de cerveja. A qualidade, essa mantém-se.

Peça: Romeu e Julieta

Pelo Teatro Amador de Pombal
Encenação de José Carlos Garcia e Nádia Santos
Teatro Miguel Franco, Leiria
16 de Outubro, 22 horas
Bilhetes a 5€ (4€ com desconto)

Texto de Joana Areia
Fotografia de Ricardo Graça
(Publicado a 16 Outubro 2014)