Paulo Moreiras_Preguiça Magazine

É um novo livro de Paulo Moreiras, com certeza, com pão e vinho sobre a mesa. Foi entre quatro paredes caiadas, um cheirinho a alecrim, um cacho de uvas doiradas e duas rosas num jardim, que pedimos para falar com o escritor, humildemente. E ele sentou-se à mesa com a gente.

Preguiça Magazine – Antes de falarmos da obra propriamente dita, é preciso começar por dizer que tens uma ligação à gastronomia muito forte. A pergunta que se impõe é: Como vai esse colesterol?
Paulo Moreiras – É tudo uma questão de equilíbrio, mas os excessos por vezes acontecem. Depois faço um detox e tudo volta ao normal. Felizmente ando com os valores de colesterol e de triglicéridos regulares. Além de boa cepa, sou boa boca, tanto vai um prato vegetariano ou vegan como uma chanfana ou uma cabidela. O prazer da mesa partilhada com amigos é inolvidável.

Para este livro, como em outros anteriores, mergulhaste nas origens para enquadrar melhor. Os preliminares são importantes?
Os preliminares são importantes e são a base de todo um bom trabalho. Não por acaso dedico muito do meu tempo aos preliminares. Gosto de conhecer as histórias que andam associadas aos alimentos e tentar perceber qual o caminho que trilharam até chegar à nossa mesa. Tanto mais que temos um património inestimável. Contudo, permanece pouco conhecido e valorizado.

“Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa”.
Como especialista na matéria, como comentas esta afirmação eternizada por Amália?

Desde tempos imemoriais que o pão e o vinho, como alimentos nutritivos, vincaram a sua presença na nossa mesa e tal não foi alheio à Igreja, que se apropriou desses elementos e os incorporou na sua liturgia. Além disso, convém não esquecer que essa canção surge em pleno Estado Novo, quando o pão e o vinho foram altamente celebrizados por Salazar. A canção ratificou essa relação sobre a nossa mesa. Mas o certo é que uma mesa sem pão fica um pouco despida e sem graça. O pão e o vinho são duas grandes criações do Homem e um testemunho da sua criatividade e bom gosto, para bem do nosso espírito e do nosso corpo.

Aquela pergunta clássica de quem ainda não leu:
De que fala o livro? (Não vale responder “Fala de pão e vinho”).

Para este livro preocupei-me essencialmente, além de contar a sua história, em procurar aspectos relacionados com as nossas tradições populares. Como a sua presença se foi manifestando ao longo dos tempos, desde as adivinhas, por exemplo, às formas coloquiais que utilizamos para expressar ideias ou sentimentos, assim como um vasto conjunto de curiosidades que existem sobre o pão e o vinho mas que andavam completamente esquecidas. O que ofereço é um outro olhar sobre dois produtos essenciais da nossa identidade e da nossa gastronomia. Ao fim e ao cabo, são mil e uma histórias para degustar com uma côdea e um caneco de vinho.

Sendo tu um aficionado de chá, ao escrever sobre pão e vinho, perdeste o controlo em alguma ocasião – no que diz respeito a experiência de campo – ou manténs aquela distância tipo comentador de TV?
Geralmente o chá está reservado para os momentos de trabalho, para o processo de investigação ou de escrita. Depois, claro, há o trabalho de campo. Mas esse começou a ser iniciado aos seis anos, quando cheguei a Portugal e comecei a comer pão em casa da minha avó. Sobre os tempos anteriores não tenho memória gustativa para me poder pronunciar. Mas depois disso, e ao longo da vida, sempre fui tendo uma especial atenção ao pão e o vinho. Para este livro provei muito pão e cheguei mesmo a visitar certos locais para o comprar, como foi o caso do pão do Torrão, em Alcácer do Sal, onde me desloquei propositadamente para o adquirir. Nem teve tempo de arrefecer, provei-o logo quando cheguei ao carro. Tenho por hábito, quando chego a alguma terra onde nunca estive, provar o pão local. Já faço isso há muito tempo.

Tens escrito livros, todos eles sobre uma premissa de tributo. Ao invés do elogio, há planos para o futuro de começar a escrever sobre coisas de que não gostas?
Nunca tinha pensado nisso, mas acho que o meu tempo é precioso e não tenho por norma dedicar-me a coisas de que não gosto. Tudo isto exige muito trabalho e esse trabalho aguenta-se com muita paixão. Geralmente escrevo sobre coisas de que não gosto nos meus romances, onde vou colocando subliminarmente as minhas opiniões ou sentimentos. Por isso, duvido muito que no futuro venha a escrever sobre algo de que não goste. É preciso ser uma oferta muito choruda para me fazer mudar de opinião.

Pão & Vinho_capa

  • Pão & Vinho,
    de Paulo Moreiras
    Edição: 2014
    Páginas: 256
    Editor: Dom Quixote
    ISBN: 9789722055949

Entrevista de Pedro Miguel
Fotografia de Ricardo Graça
(Publicado a 23 Outubro 2014)