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Há muitos anos que a minha ginja preferida é a de Alcobaça e até sou do tempo em que não era fácil de encontrar. Esta semana fui beber um copito – vá, dois, que valeram por três – directamente da pipa, e se já era fã mais fiquei.

Fiquei a saber que a MSR é feita numa adega em Alcobaça, em pipas de carvalho e castanho, com uma única qualidade de ginjas de nome folha no pé e que tem um ginjal próprio com cerca de 3000 árvores, em Óbidos, onde todos os procedimentos utilizados são amigos do ambiente. É um licor artesanal, assim como a garrafa e embalagem, sem corantes, bebe-se ‘sem elas’ e dispensa copo de chocolate.

Mas nem sempre foi assim, quando Vasco Gomes e os irmãos compraram a marca MSR, em 1998, esta estava na iminência de desaparecer. Entregue a uma família de poucos recursos agrícolas, a produção era cada vez mais reduzida (daí ser difícil de encontrar no mercado) e com um futuro nada promissor pela frente. Aquele xarope merecia mais e os manos Gomes sabiam disso!

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Confiantes, investiram. Mas, na prática, o que adquiriram foi somente e apenas a fórmula do licor e a marca MSR. Percebiam alguma coisa de ginja? Só de a beber. E conhecimentos de agricultura? Nicles, nem de plantar salsa. Então o que é que vos deu para se meterem nisto? Queriam “fazer algo de valor acrescentado”, mas na verdade não imaginavam onde se estavam a meter.

É que só depois de comprarem a fórmula da MSR ficaram a saber que o licor se fazia apenas com ginjas folha no pé, uma espécie silvestre de alto teor de açúcar e acidez, que só meia dúzia de agricultores têm na região e em quantidades muito pequenas.

Pensamento imediato: Ok, temos a receita mas não temos a matéria-prima. O que fazemos? Plantamos um ginjal. Percebemos alguma coisa do assunto? Nada! Toca a meter as mãos na terra e a procurar um engenheiro agrónomo para orientar as tropas.

Mas até o ginjal dar fruto foram 7 anos a comprar todas as ginjas que conseguiam a agricultores da região Oeste, o que tinha o inconveniente de não controlarem preços nem quantidades. Por isso, durante essa longa temporada a quantidade de garrafas que saía para o mercado estava dependente de cada colheita.

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Hoje é muito diferente porque, apesar de haver anos em que as árvores se enchem de fruto e outros que dão muito menos (isto deve-se a questões de clima, que não são controláveis), com o controlo de todo o processo, desde a produção do fruto até ao seu engarrafamento, a MSR consegue ter sempre produto em stock.

Se fosse noutros tempos não vos dizia onde encontrar a MSR à venda, mas como agora sei que não se acaba assim de qualquer maneira posso dizer-vos que é na mercearia do Sr. Ferreira, na Rua Direita, que costumo abastecer-me.

Escusam de procurar em hipermercados porque estas garrafinhas com história só se encontram no comércio tradicional, lojas gourmet, mercearias e garrafeiras. Mas, atenção, os preços podem variar entre os 17 e os 40 euros. Não caiam em conversa para turista de bolso cheio de notas.

Se quiserem saber porque é que se chama MSR e outras curiosidades históricas espreitem aqui, mas têm de ter mais de 18 anos.

Saúde!

Texto de Paula Lagoa
Fotografias de Ricardo Graça
(Publicado a 6 Novembro 2014)