Joana Areia c

Esta é a história de amor entre um português e uma húngara. Uma história de família com mais de 50 anos. Uma história de dedicação, carinho e muitos beijinhos. É a história da Confeitaria Vale.

Era uma vez um jovem alto, oriundo de Trás-os-Montes, e uma jovem húngara, fugida da Segunda Guerra Mundial, que se conheceram no Brasil. Depois do casamento e do nascimento dos filhos, partiram para Portugal, Santarém. É aqui que começa a história da família Vale, que transformou um pequeno negócio de compra e venda de “argolas”, conhecidas também por cavacas, numa unidade fabril que leva o nome de Pombal aos quatro cantos do mundo.

Ao chegar à Ladeira das Leais, em Pombal, sente-se um cheiro doce no ar. Ao aproximarmo-nos da Confeitaria Vale pensamos: ”temos de entrar e já!”. Ali, por esta hora (11 da manhã), estão a ser confeccionados os bolos da avó, uma das muitas especialidades da doçaria da Confeitaria. Há-os para todos os gostos, aliás, para 13 gostos diferentes, desde o tradicional bolo de chocolate, passando pelo bolo de coco ou até mesmo de frutos silvestres. Contudo, durante muitos anos ali só havia lugar para cavacas e beijinhos.

Ora dá cá um e a seguir dá outro

Quando cantou pela primeira vez a Canção do Beijinho, Herman José sabia do que falava. Podia não conhecer os de Pombal, mas a carapuça serve-lhes e muito bem. “Ora dá cá um, E a seguir dá outro, Depois dá mais um, Que só dois é pouco, Ai eu gosto tanto, É tão docinho, E no entretanto dá mais um beijinho”, podia muito bem ser o hino ao que vamos falar a seguir. São leves e de forma arredondada, envolvidos por uma cobertura branca com sabor a baunilha. Nasceram porque a D. Wilma e o Sr. Ferreira, o casal desta história, acharam que era boa ideia aproveitar os espaços vazios, entre as “argolas”, que havia nos tabuleiros, e preenchê-los com pequenos pontos de massa e – puf! – fizeram-se os beijinhos.

Chega agora aquela altura em que a malta diz: “Ah e tal, mas isso é igual às cavacas e beijinhos das Caldas!”, mas aqui a Preguiça – que provou e aprovou – desmente tal afirmação. Algumas cavacas e muitos beijinhos depois, podemos afirmar que nem tudo o que parece é. É uma espécie de jogar ao Encontre as Diferenças no nível “muito fácil”. É a forma, a massa, os ingredientes, o sabor, a textura, a cozedura. “É como estar a comparar um bolo-rei a um pão-de-ló, mas pronto, não nos livramos da comparação”, diz Helena Vale, sócia-gerente.

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Num trabalho que exige muita mão-de-obra e que passa por várias fases de confecção, a boa disposição e a simpatia é uma constante, sendo esta uma das vantagens de ser uma empresa familiar. Ali, em cerca de 11 horas de trabalho, são produzidos cerca de 6000 beijinhos. A Confeitaria ganha o prémio de empresa mais beijoqueira de Portugal.

Apesar desses níveis de açúcar no sangue já estarem bem lá em cima, ainda vamos adocicar mais a coisa para a malta começar a rebentar pelas costuras. Na Confeitaria do Vale ainda há espaço para os folares – tradicional, com nozes, com pepitas de chocolate e com fruta cristalizada -, as broinhas d’aldeia e os corações, biscoitos amanteigados com sabor a limão, baunilha, amêndoa e chocolate.

Agora com o aproximar da época natalícia iniciam também a produção de bolo-rei tradicional, com cerca de 97% da produção a ser exportada para o “mercado da saudade”: França, Inglaterra, Suíça, Luxemburgo, Bélgica, Canadá, Alemanha e EUA. A família Vale orgulha-se de os seus produtos se encontrarem em todo o lado, desde o pequeno comércio às grandes superfícies.

Começou com uma história de amor improvável, e é com esse mesmo amor que todos os dias a família Vale produz os deliciosos doces. Esta é uma história de sucesso com final feliz.

Confeitaria Vale
Ladeira das Leais
3100-346 Pombal
Telefone: 236 213 149
www.confeitaria-vale.pt
facebook.com/confeitariavale

Texto de Joana Areia
Fotografias de João Matias e Joana Areia
(Publicado a 13 Novembro 2014)