jose_polido_2Aula Magna, 24 de Abril de 1997. Para quase todos os que amam a música dos dEUS, é este o concerto inesquecível, o expoente máximo de celebração entre a banda de Antuérpia e o público português. Na próxima segunda-feira (24 de Novembro) sai a colectânea oficial Selected Songs 1994-2014, mas aqui fala-se de outra recolha, um enorme festim de vídeo, em modo bootleg, com apresentações ao vivo e entrevistas, onde não falta, claro, aquela noite na Aula Magna de Lisboa. A liderar o projecto, José Polido, da Marinha Grande, vocalista dos Estado Sónico e fã de Tom Barman, Stef Kamil Carlens e Rudy Trouvé desde que ouviu “Suds & Soda” pela primeira vez.

A Shocking Lack of Copyright, assim se chama a colecção de bootlegs recolhida por fãs de vários países, acaba de chegar ao Facebook, mais um pretexto para esta entrevista, agora que os dEUS estão a assinalar 20 anos de carreira. É neste bairro da web que os 8 apócrifos DVD vão ser disponibilizados em torrents, de forma faseada (podem descarregar o primeiro capítulo aqui). Com mais qualidade de som e imagem, para substituir a primeira geração, que data de 2005.

José Polido, o homem que sabe tudo sobre dEUS, ou quase, fala de pirataria e de partilha, da paixão pelo bootlegging, da ligação entre a banda e os fãs, das noites no Bairro Alto depois dos concertos, da namorada de Tom Barman e, claro, da irresistível cena artística de Antuérpia.

“Quando tens bandas que ao vivo se transcendem, os bootlegs tornam-se um vício”

És um ávido comprador de discos, um coleccionador, vais a concertos com frequência, andaste na estrada e em estúdio com os Estado Sónico… como é que apareces envolvido nesta violação de direitos de autor?
Esta colecção é uma recolha exaustiva de material de vídeo sobre os dEUS. Material coleccionado por fãs que percorre toda a carreira da banda. O material mais antigo que se conseguiu localizar é de 1994. Uma enorme bootleg. Não sei quantas horas de música estão aqui, mas é um grande festim. Não se pode comprar, apenas trocar e obter através de download num site de torrents. Apesar de o bootleging ser combatido também por alguma legislação, é diferente da pirataria, que consiste no acto de fazer e negociar cópias ilegais. Concordo que os músicos devem ser reconhecidos pelo seu trabalho, mas também tenho a noção de que quando uma canção é lançada deixa de ser nossa. Há uma propriedade intelectual inerente, mas depois de criada e apresentada ao público a música é para ser consumida e divulgada, e aí acredito que a música deve ser livre.

Trata-se de material novo em comparação com os documentos oficiais?
A banda até hoje apenas lançou dois DVD oficiais, uma colecção intitulada No More Video de 2002 e um outro que acompanha a edição deluxe do Worst Case Scenario, de 2009. Mas havia já, no circuito alternativo de coleccionadores, muito material que circulava por troca e que era muito apelativo para os fãs. A essência de uma banda não passa apenas pelos seus belos discos, ela nasce no trabalho ao vivo, esse é o verdadeiro pulsar da banda e os dEUS sempre foram míticos nesse campo. Musicalmente a banda sempre conseguiu em palco transpor-se para lá dos discos. Foi por isto que este projecto nasceu, porque muitos dos que tinham material em seu poder pensaram disponibilizá-lo de alguma forma para os que não o tinham, um simples acto de evangelização. A ideia foi lançada no fórum semioficial da banda que era uma comunidade bastante activa e dedicada e também criativa.

Eles sabem disto?
Sim, este projecto teve o conhecimento da banda e cópias foram entregues. Curiosamente, acho que há uma relação directa entre o primeiro volume desta colecção e o DVD lançado na versão deluxe do WCS. A cópia para a banda foi entregue bem antes do lançamento daquela edição deluxe e a maioria do material que está nessa edição está no nosso primeiro volume. Não na sua totalidade, mas parte está lá.

Quer dizer que a igreja continua activa?
A igreja esteve sempre activa e em sessão permanente, com menos fulgor por parte dos fiéis, mas sempre atenta e ativa. O fórum é ou era, acho que ainda existe mas não sei se alguém ainda lá vai, um simples lugar de conversação, um bom bar virtual onde íamos falar sobre tudo e sobre nada em redor da banda e da sua música, de arte, livros, política, nada era tabu. Era um local povoado por gente de todo mundo, Portugal, Bélgica, França, Austrália, Estados Unidos, Inglaterra, Holanda, Japão, Grécia, Israel, entre outros. Era bastante global e por breves momentos chegou a ter algum peso no seio da banda através de pessoas que a ela eram mais chegadas e que lhes faziam saber de algumas coisas mais interessantes que ali se passavam.

Nesta história, os portugueses são uma espécie de povo eleito, certo?
Acho que fomos daqueles que captaram e mais se identificaram com a música e conceito da banda. O primeiro concerto em Portugal surge na Queima das Fitas em Coimbra, em 1995, é o único em Portugal com a formação original, porque só voltariam para a apoteose (ou grande missa, se lhe quiseres chamar) em 1997 e já sem o Stef [Kamil Carlens]. Há para mim um ponto no percurso da banda que deixa transparecer um apreço acima da média pelo nosso público: em 1998, durante o processo de gravação do Ideal Crash, a banda realiza uma série de seis concertos onde vai testar novas canções. Um acontece em Bruxelas, dois na Holanda e três em Portugal. E quem assistiu pôde comprovar o processo criativo da banda porque 60% do set foi preenchido com canções novas em estado embrionário e que vieram, de alguma forma a fazer parte do disco. É um momento muito especial e que muitas vezes não é compreendido pelo público. É preciso ter alguma coragem para o fazer, mas também revela respeito por quem ouve por expor de forma tão directa aquilo que é ainda uma ideia embrionária.

Desde aí o Tom Barman mantém uma relação próxima com Portugal.
A vida pessoal deles nunca me interessou, mas acho que o Tom tem casa e namorada portuguesa. Há um álbum novo dos Magnus, um projecto do Tom com o CJ Boland, e neste disco, Where Neon Goes To Die, podemos encontrar uma canção, “Last Bend”, onde entra a Blaya e o Tom canta em português. É um projecto electrónico interessante.

Houve pelo menos um concerto, logo dos primeiros, em que o Tom Barman convidou o público para aparecer num bar do Bairro Alto… isto era frequente?
Era. Apenas estive numa ocasião dessas e foi totalmente casual. Nunca tive vocação. Depois também havia todo o universo de pessoas que pululava à volta dessas situações. As moças que faziam de tudo por um beijo e algo mais, os gajos que não se calavam a falar com eles sobre a música deles, o que eu acho deve ser a coisa mais maçadora, e depois tudo isto se tornava um caldeirão que para mim era desinteressante. Mas havia uma legião que ia a todas e fazia questão de conviver quase a qualquer custo.

“Descobrir os dEUS levou-me a conhecer uma cidade onde a criatividade e a cultura fluíam”

Como é que te envolveste nesta seita?
Colecciono bootlegs há muito tempo porque sempre me cativou o momento ao vivo, o concerto, a comunhão com o público, a imprevisibilidade do momento irrepetível. E quando tens bandas que ao vivo se transcendem, como é o caso dos dEUS, os bootlegs tornam-se um vício. Durante muito tempo ouvi mais bootlegs do que discos originais. Era por aí que ia conhecendo muitas das canções novas. Era interessante porque quando as ouvia em registo de estúdio percebia um pouco o percurso que tinham feito até aquele formato. Com o material dos dEUS foi o mesmo processo, mas como a paixão é maior, a procura foi exponencial, resultando em muito material de áudio e vídeo onde se incluem as preciosas três primeiras cassetes com demos. Já estive em 14 concertos dos dEUS, e só soube agora porque me perguntaste, e vi duas vezes o Tom Barman na sua aventura a solo.

Ainda te lembras da primeira missa?
“Suds & Soda” foi o clique e o mesmo deve ter acontecido com outras pessoas. Mas era incontornável, aquele turbilhão sonoro acompanhado por duas vozes que se misturavam na perfeição, a melodia e a força da canção. Era impossível ficar indiferente àquela canção. E nessa altura, 1995, sem internet ouvia-se rádio e foi por aí que essas canções surgiram. RUC, Antena3, XFM eram veículos para esta sonoridade. Quanto à primeira missa, é inesquecível: Aula Magna a 24 de Abril de 1997, sala apinhada de ouvidos curiosos e ávida de comunhão e celebração e os dEUS deram tudo isso, até na falha de luz e do PA em que tocaram sem amplificação no meio das doutorais. O concerto foi um crescendo de emoção e intensidade, um momento realmente único que transportou o público e a banda para um nível superior de existência. Mágico.

E a partir daí todo aquele universo de Antuérpia?
Descobrir os dEUS levou-me a conhecer uma cidade onde a criatividade e a cultura fluíam sem regras e sem preconceitos. O que tendo em conta a realidade portuguesa era, e ainda é um pouco, raro. Todos tocavam com todos, do jazz ao punk ao rock, aos blues tudo era permitido, tudo era experimentado e isso apaixonou-me ainda mais e quis conhecer o que faziam juntos músicos tão díspares. Tudo era, e ainda é, um enorme caldeirão criativo como nunca tinha vivido. E da música às artes plásticas surgiam nomes, ideias, conceitos diferentes do que conhecia e comecei a explorar tudo isso e conheci coisas como Kiss My Jazz, Gore Slut, Daan, Kris Dane, Dead Man Ray, Tres Tigres Tristes (sim, Belgas), 2000 Monkeys, DAAU, Evil Superstars, Mauro & The Grooms, Flat Earth Society, Zita Swoon, Rudy Trouvé, The Love Substitutes, Maxon Blewitt e muitos outros. Vale a pena dar ouvidos a algumas coisas destas.

Há uma banda com Stef Kamil Carlens e outra depois ou não és fundamentalista?
Não sou fundamentalista, mas tenho preferências, como todos nós. Obviamente o Stef é uma peça fundamental em toda a estética inicial da banda, mas a banda já criou mais sem o Stef do que com ele e evoluiu. Os dois discos com o Stef são mágicos e fundamentaram todo o imaginário da banda onde a maioria das canções são incontornáveis. Outra coisa que me cativa imenso é a conjugação melódica das duas vozes, Tom e Stef. Há vozes que parece existirem para estarem juntas e nesses dois discos isso é tão evidente e ao vivo ainda o era mais. Depois tudo se foi reformulando e reinventando, mas não podemos cingir as particularidades da banda ao Stef porque havia a guitarra do Rudy Trouvé completamente anárquica e que criava paisagens sonoras distintas, simples mas marcantes e completamente lunáticas, fora de tudo o que geralmente era ouvido em canções pop. Poucas bandas conseguem criar uma irreverência sonora que diz olá ao mainstream como os dEUS criaram nesses dois discos iniciais.

E a última renovação, em que entraram o Stéphane Misseghers, o Alan Gevaert e o Mauro Pawlowski, como é que te deixa?
Como acólito deixa-me bem. Já se digeriu o Vantage Point, já se percebeu os pontos fortes e fracos desta formação e o Keep You Close e principalmente o Following Sea mostram que a banda se encontrou, está coesa e esteticamente definida de novo. Até porque ter um músico como o Mauro, o homem das mil experiências e sonoridades, numa banda é um trunfo enorme e mesmo que ele ali não seja exuberante, tem um papel determinante na sonoridade.

Tens alguma explicação para o sucesso dos dEUS em Portugal, que não deve ter comparação com nenhum outro país, excepto a Bélgica?
Não sei explicar isso, para além de uma série de acasos, que já referi, como o sentido de oportunidade do primeiro concerto e a celebração da aula magna, que despoletaram um interesse na banda mas que se não fosse suportado por uma qualidade musical que lhes é inerente não teria por certo resultado em nada. E depois houve a identificação por parte do público com a música e as canções e foram adoptados. Talvez haja ali um pouco da latinidade com que nos identificamos, no fundo a Flandres foi ocupada pelos espanhóis durante muito tempo e por vezes algumas características latinas são visíveis em Antuérpia. Não sei se é por aí, mas mesmo gozando de boa popularidade no Benelux e em outros países europeus, e não só, o fenómeno português é curioso.

Entrevista de Cláudio Garcia
Fotografia de Rui Miguel Pedrosa
(Publicado a 20 Novembro 2014)