Era uma vez uma palavra que vivia confortavelmente no dicionário, tentando passar despercebida entre a multidão de letras. Até que – ah-ha! – alguém lhe apontou um holofote e fez com que toda a gente reparasse nela. É mais ou menos isso que se pretende com esta rubrica: mostrar, com as letras de uma mão e os desenhos de outra, porque é que estas são Palavras de Que Eu Gosto.

#11: LAGARTIXA

Considerando o binómio velocidade/movimento, há os animais em câmara lenta e os em câmara rápida. A lagartixa pertence claramente ao segundo grupo.

Gosto de a ver como uma versão jovial da osga, mais pequena e rabina. Tem aquele ar de moça gaiteira, arisca, fugidia: até faz esquecer o toque viscoso que é uma espécie de karma de todo o réptil. Deve ser por isso que a lagartixa é o único elemento dessa família escamosa e pegajosa que tem o condão de não meter nojo nem medo a ninguém.

Mexe-se de maneira cómica. Aqueles movimentos pouco fluídos lembram-me uma marioneta ou um filme do Charlie Chaplin, sempre a avançar aos solavancos, a deixar um rasto de linhas oblíquas no seu encalço, como o movimento das peças num tabuleiro de damas.

A sua melhor amiga, como não podia deixar de ser, é a sardanisca. São a Thelma & Louise da lagartagem, em versão benigna e brincalhona.

A lagartixa é uma espécie de retrato-do-lagarto-quando-jovem: a filha irrequieta da prole, o puto traquina. Anda sempre com a prima osga a fazer disparates, quais crianças rebeldes e curiosas, a enfiarem-se em tudo o que é buraco.

Papa a bicharada insectívora (sem ter o ar pachorrento e anafado do sapo, que em matéria de agilidade e graça, está nos seus antípodas) e põe-se na alheta enquanto o diabo esfrega um olho, de cauda a dar a dar, qual limpa pára-brisas das paredes de cal. E o nome condiz com ela: la-gar-ti-xa. Também nos dá à cauda dentro da boca quando o dizemos em voz alta.

Texto de Catarina Sacramento
Ilustração de Rita Cortez Pinto
(Publicado a 20 Novembro 2014)

  • Catarina Sacramento (Leiria, 1977). Começou a ler e a escrever aos 6 anos e desde então não faz outra coisa. Licenciada em Ciências da Comunicação (FCSH/UNL), trabalhou sempre na área da cultura/artes (jornal Blitz, revista Time Out Lisboa, Texto Editores) e turismo/lazer (portais online, Lifecooler e Myguide). Viveu meia vida em Leiria e outra meia em Lisboa, com um saltinho a Macau pelo meio. É jornalista, parteira de livros e caçadora de erros em regime freelancer. Para a Preguiça Magazine, depois da série ‘Na Espreguiçadeira com…’ (uma entrevista em forma de questionário literário), criou agora esta rubrica mensal: ‘Palavras de que Eu Gosto’ são crónicas mais ou menos delirantes, ilustradas por Rita Cortez Pinto.
  • Rita Cortez Pinto (Lisboa, 1977). Construtora de desenhos em papel, o seu trabalho cruza vários universos que têm sempre em comum o mundo do Desenho. Movimenta-se entre as artes plásticas, a ilustração e também a arte-educação, com diferentes públicos, em especial o infantil. Tem formação superior em Arquitectura de Design pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa e o Curso Avançado de Artes Plásticas pelo ArCo. Expõe regularmente desde 1999 e colabora desde 2003 em diferentes instituições museológicas e projectos individuais na área da educação artística para crianças. Mais info no blogue acaixavoadora.blogspot.com e no site www.ritacortezpinto.yolasite.com.