António Gregório 1

Entrevista rara com uma pessoa a quem a Preguiça teve de fazer uma espera aí num café. Não foi em nenhuma manga de avião, valha-nos isso. O Condómino é o novo livro de António Gregório, pessoa avessa a multidões, muito menos a apresentações. O melhor é deixar a conversa fluir.

Preguiça Magazine: Tu que embirras com novelas que contam histórias, foste escrever uma novela que conta uma história? Ensandeceste, criatura de Deus?

António Gregório: Ainda hoje me aparece o fantasma de José Régio a dizer: “não vás por aí, carago”. Mas já fui. É que, sobretudo nestas manhãs mais frias, as novelas custam a pegar – e uma história é um combustível jeitoso. De resto, os meus livros (digo assim para parecer que são muitos) não são os meus livros preferidos, felizmente.

De que fala o teu livro, O Condómino? É um antro de maus vizinhos?

Fala, creio, sobre o fim do mundo (no sentido vasco-santanista da expressão: fins de mundo há muitos, seu palerma). E reparo agora – fui ver por acaso – que termina com a palavra “mamada”. Que bonito trailer.

Parece que o magnata Rockafeller não se interessava muito por grandes especializações intelectuais ou teorias várias. Para ele, e referindo-se ao pintor Mark Rothko, a sua obra “oferece espaço de relaxamento ao homem de negócios cansado”. Para quem escreves tu, António Gregório?

Lembro-me vagamente de ter lido há uns meses valentes numa entrevista Philip Roth dizer, creio que respondendo a uma questão semelhante, que “nunca foi importante pensar no que o leitor quer ler”. Digo crer que era resposta a uma questão semelhante e não que tenho a certeza disso porque agora, buscando de ouvido o artigo, fui bloqueado pelo Ípsilon, que me acusa de já ter esgotado por hoje o meu saldo de borlista.

Escusava, para dizer que não faço a menor ideia de quem são os leitores que eventualmente venham a ler o que escrevo e que é, aliás, contraproducente pensar no assunto e só me resta fazer o melhor que posso esperando que, desse melhor, saiam os meus defeitos mais peculiares, as minhas irrepetíveis limitações, ou seja, os itens que poderão tornar pertinente aquilo a que, ao fim de muitos anos, com um gajo já de pé para a cova e à rasca para não sucumbir ao peso da Grã-Cruz de não sei quê enquanto pensa que “estes Presidentes da República são cada vez mais novos”, se chamará “obra”; e, olha, perdi-me.

Uma pessoa julga-se com a segurança do homem das farturas a enrolar uma frase longa e depois já não sabe onde entra a tesoura e quando dá por si é um homem-fartura às tesouradas no seu próprio apêndice (Dalí?). Mas recapitulando: para dizer que não faço puto acerca de quem está do lado de lá do livro não precisava de citar Philip Roth. Mas mandaste-me com o Rothko e o Rockefeller para cima e isso eu não admito.

Não durmo há três noites, pois mandaste-me a capa de um disco de uma banda de death metal em que aparece um gajo acabadinho de se suicidar, e tem os miolos de fora e tudo. É por viveres nos Marrazes, não é?

Quando era criança, no largo em frente à mercearia do senhor Manuel (isto parece uma generalidade pau-para-toda-a-obra mas havia mesmo uma mercearia de um senhor Manuel com um largo em frente), havia uma fonte pública daquelas com uma torneira que se abria premindo uma espécie de êmbolo difícil às mãos pequenas e, pendurada à torneira por um cordel, uma caneca de lata donde toda uma geração bebeu água. Podia ter sido sangue; percebes a Força? Por isso, muito cuidado quando voltares aos Marrazes. A banda não era de death metal, mas de black metal.

Também tens uma ligação muito estreita com a música. Ora brilha lá um bocadinho para os leitores da Preguiça e fala disso.

A história é curta: colaborei com o Paulo Pereira num projecto (hoje embirro chamar projecto às bandas, mas na altura usava-se muito) chamado Do Amor y Outros Demónios. Escrevia as letras, ele compunha as músicas. É um trabalho muito frustrante quando se olha para os milagres poéticos (passe a redundância porque não os há prosaicos, valha-nos Deus), por exemplo, de algumas canções da Bossa Nova. O projecto acabou antes de eu ter qualquer hipótese de ser beatificado.

És uma criatura de hábitos: foi assim que eu te encurralei para realizar esta entrevista, pois sei onde vais à bica pela manhã. A rotina pode ser uma fonte de criatividade?

É uma faca de dois gumes. A rotina pode funcionar como um bloqueio de distracções inúteis (os ambientes e os gestos repetidos não nos pedem atenção) ou – e inclino-me mais para esta hipótese porque, ao contrário do Tony de Matos, não sou um romântico – como uma fábrica de cromos. Ou seja, arranjaste maneira de eu não poder ir ao café da praça nos próximos tempos: alguém que tenha lido isto e vá de passagem perguntará ao acompanhante: “Olha lá, aquele ali não é o cromo tal e tal?”

Vou-te citar: “Se o engenheiro Sousa Veloso não tivesse morrido com a sua idade, estaria agora de consciência carregada pelas pragas que lhe roguei quando ele, extasiado com um belíssimo exemplar de vaca mirandesa, me retardava o gozo supremo do Bana e Flapi.” Ora despede-te lá com amizade dos leitores, e conta os teus planos para o futuro.

Agora que falas nisso, há quantos anos não como uma bela posta mirandesa? E, ai, que saudades da caneca da fonte pública dos Marrazes, quando os americanos ainda não tinham inventado as bactérias. A hora vai adiantada (em sentido estrito, em sentido lato): irei para o Youtube, assim como quem se embebeda, ver episódios a eito do Bana e Flapi, e que se lixe se só os houver dobrados em castelhano (também há da Heidi, mas ela, ao contrário do engenheiro Sousa Veloso, envelheceu mal).

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Livro: O Condómino
Autor: António Gregório
Edição Língua Morta
Capa: Ricardo Castro
Encomendas: edlinguamorta@gmail.com
250 exemplares

Entrevista de Pedro Miguel
Fotografia de Manuel do Tripé
(Publicado a 11 Dezembro 2014)