coca bichinhos_rita_cortez_pintoEra uma vez uma palavra que vivia confortavelmente no dicionário, tentando passar despercebida entre a multidão de letras. Até que – ah-ha! – alguém lhe apontou um holofote e fez com que toda a gente reparasse nela. É mais ou menos isso que se pretende com esta rubrica: mostrar, com as letras de uma mão e os desenhos de outra, porque é que estas são Palavras de Que Eu Gosto.

#12: COCA-BICHINHOS

O coca-bichinhos é o perfeccionista inveterado, o picuinhas que desconhece o significado do verbo relativizar. E porquê coca-bichinhos? Talvez por ser uma espécie de cata-piolhos da vida, com uma pulsão irresistível por ampliar os problemas com o seu olhar de lentes microscópicas. E como vê tudo aumentado, detecta as mais pequenas imperfeições e descobre coisas que mais ninguém vê. Não é a visão raio-X do Super-Homem, mas quase: é o mais próximo disso que um humano consegue arranjar.

O coca-bichinhos tem o radar sempre ligado e nem o mínimo pormenor escapa ao seu minucioso escrutínio. É uma peneira de malha apertadíssima, sempre atento e preocupado com coisas muito pequeninas. É o rei das minhoquices. Tem olhos de águia, nariz de perdigueiro e mãos de carteirista: ponham-no diante de um texto, por exemplo, e vão vê-lo de sentidos elevados ao cubo, a esquadrinhar a folha, letrinha a letrinha, com determinação de maratonista e persistência de faquir.

Eu, coca-bichinhos, me confesso. Embora a minha coca-bichice se revele sobretudo num contexto muito específico: quando encontro erros nos livros. Especialmente em bons livros. Lá está ela, toda contente, a ler. Os olhos vão lançados na sua marcha habitual pelas linhas fora, num ziguezaguear ritmado, esquerda direita, esquerda direita… eis senão quando tropeçam numa gralha distraída: duas letras trocadas, uma palavra em falta ou uma a mais, um ponto final que se deixou dormir e lá ficou a frase pendurada. Maaaaau! Alto e pára o baile.

É nesse momento que os olhos – quais agentes da autoridade incorruptíveis – se recusam a avançar sem tomar nota da ocorrência. E ficam mesmo perturbados: são incapazes de voltar ao trabalho enquanto o assunto não for resolvido. O que obriga a suspender a leitura de imediato. Ora bolas.

Nestes casos, é preciso a intervenção célere de um lápis (sempre um lápis, que o respeitinho é muito bonito), para apaziguar o quanto antes as inflamadas hostes de bichinhos: os tais que fazem tanta comichão a quem é alérgico a erros. O lápis está para o coca-bichinhos como a autoridade para o polícia: é a sua mais poderosa arma secreta. Não se vê, mas está sempre lá.

Ou deve estar. Mas se, por acaso, não houver lápis por perto, a única forma de dizimar de uma vez os bichinhos e conseguir prosseguir a leitura é pegar de imediato no telemóvel e anotar a linha e a página onde o malfadado gato se encontra (como quem denuncia um criminoso em silêncio, para depois o poder surpreender em flagrante). Começa-se a escrever um sms, com a mesma naturalidade de quem se lembrou de repente que acabou o detergente da loiça e tem de o comunicar urgentemente ao cônjuge. Depois de registado o delito, fica guardado nos rascunhos, à espera do momento certo para o contra-ataque.

É o plano perfeito: ninguém vai desconfiar da ligação sub-reptícia entre o livro aberto e a mensagem escrita. Não passa de uma antecipação puramente estratégica: mais tarde ou mais cedo, o implacável lápis será apontado à cabeça do perpetrador do atentado contra a leitura. Só aí o erro estará de vez exterminado. Operação Coca-Bichinhos concluída com sucesso.

Este foi um método que elaborei sozinha, de modo a que – quer esteja a ler deitada na cama, na praia ou numa esplanada – em situação alguma deixe os erros passarem incólumes. Só um coca-bichinhos se lembraria disto, de certeza. Mais concretamente, um coca-bichinhos da ortografia, que já deve ter nascido com um corrector instalado. Não deixa de ser uma obsessão a roçar o patológico, mas para ter direito a tal epíteto, há que reconhecer que vale a pena. É que picuinhas ninguém quer ser, mas coca-bichinhos sim: é tão cutchi-cutchi, tão Anita na montanha. Até dá um certo orgulho. Os outros coca-bichinhos que estiverem a ler isto que se acusem.

Texto de Catarina Sacramento
Ilustração de Rita Cortez Pinto
(Publicado a 11 Dezembro 2014)

  • Catarina Sacramento (Leiria, 1977). Começou a ler e a escrever aos 6 anos e desde então não faz outra coisa. Licenciada em Ciências da Comunicação (FCSH/UNL), trabalhou sempre na área da cultura/artes (jornal Blitz, revista Time Out Lisboa, Texto Editores) e turismo/lazer (portais online, Lifecooler e Myguide). Viveu meia vida em Leiria e outra meia em Lisboa, com um saltinho a Macau pelo meio. É jornalista, parteira de livros e caçadora de erros em regime freelancer. Para a Preguiça Magazine, depois da série ‘Na Espreguiçadeira com…’ (uma entrevista em forma de questionário literário), criou esta rubrica mensal: ‘Palavras de que Eu Gosto’ são crónicas mais ou menos delirantes, ilustradas por Rita Cortez Pinto.
  • Rita Cortez Pinto (Lisboa, 1977). Construtora de desenhos em papel, o seu trabalho cruza vários universos que têm sempre em comum o mundo do Desenho. Movimenta-se entre as artes plásticas, a ilustração e também a arte-educação, com diferentes públicos, em especial o infantil. Tem formação superior em Arquitectura de Design pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa e o Curso Avançado de Artes Plásticas pelo ArCo. Expõe regularmente desde 1999 e colabora desde 2003 em diferentes instituições museológicas e projectos individuais na área da educação artística para crianças. Mais info no blogue acaixavoadora.blogspot.com e no site www.ritacortezpinto.yolasite.com.