Virgilio_ Acordeão na praça_ interiorEm dias de sol, ou quando ele ameaça espreitar, e nos sentamos numa das esplanadas da Praça Rodrigues Lobo, se fecharmos os olhos por instantes e quiçá pedirmos um croissant au chocolat, podemos fazer uma viagem a Paris em segundos. Uma espécie de “vá para fora cá dentro” instantânea. E tudo isto se deve ao acordeonista que, sentado junto à estátua do escritor que dá nome ao local, enche a praça de música e de vida.

Virgílio, ou como se diz em romeno Virgil, veio para Portugal há 16 anos, com a mulher e os dois filhos. É feliz. Esta até podia ser uma história bonita, cheia de romantismos, mas não. Virgil faz parte dos muitos emigrantes que saíram do seu país à procura de melhores condições de vida. Foi à Batalha que chegou, de malas e bagagens, e é ali que vive, actualmente só com a mulher, pois a crise que o fez sair de Iasi, na Roménia, foi a mesma, ou muito parecida, com a que levou os filhos a saírem de Portugal para Itália.

O artista de rua trabalhou na área da construção, mas um acidente, há quatro anos, deixou-o incapacitado para trabalhos que exijam grandes esforços. Para além disso, os seus 58 anos já não lhe permitem encontrar trabalho com tanta facilidade. Hoje em dia, Virgil gosta do que faz e gosta de cá estar. Não tenciona regressar à Roménia, até porque, devido à situação política e económica, seria muito difícil arranjar lá emprego.

Virgil estudou música durante muitos anos e na Roménia era disso que vivia. Tocava bateria e piano em bares, à noite. Em Portugal foi a vez do acordeão, instrumento que aprendeu a tocar quando era bastante novo. Músicas portuguesas sabe uma ou duas – o “Passarinhos a bailar” é uma delas –, mas o que gosta verdadeiramente de tocar é jazz, bossanova, swing e sons de bandas como Beatles ou Louis Armstrong.

O músico já tocou nas ruas de Alcobaça e Caldas da Rainha. Agora vem, regularmente, de mota, até Leiria. Consigo traz o acordeão e a mala de veludo vermelha, que às vezes vai meio vazia e outras meio cheia. Virgil não tem qualquer preconceito em tocar na rua. Aliás, é o que mais acontece nas grandes metrópoles europeias. Por cá, acredita que muitos gostariam de o fazer, mas não arriscam, por vergonha.

Depois de uma pausa, Virgil deixa a Preguiça e volta ao seu local de trabalho. E, puff, regressamos a Paris ao som de “Let it Be”.

Texto de Joana Areia
Fotografias de Ricardo Graça
(Publicado a 29 Janeiro 2015)