Resumo do assunto pelo qual se realizou o serviço . Ex: Época 2011/2012 Euro 2008 Quartos de Final Portugal ??? Espanha (10-0), no Estádio José AlvaladePara quem gosta de fotografia, nada melhor do que espreitar o Olho de Lince, rubrica que estará por cá quinzenalmente para mostrar o trabalho de alguns fotógrafos e deixá-los falar sobre o que fazem. Rui Miguel Pedrosa nunca pensou fazer da fotografia profissão. Começou a tirar fotos incentivado por um amigo e, na altura, esse era o seu passaporte para poder ver concertos das bandas de que gostava. Aos poucos começou a ganhar-lhe o gosto e, actualmente, trabalha como freelancer. Diz que não é capaz de estar parado e, talvez por isso, precisa da adrenalina que o fotojornalismo e a fotografia de espectáculo lhe dão. Já se viu metido em algumas aventuras para conseguir algumas imagens, como uma vez em que acabou no meio de um incêndio. Querem saber mais e conhecê-lo melhor? Então vejam o que ele nos disse.

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade…
Vou começar ao contrário e começo por dizer o que não gosto de fotografar, porque é mais fácil de nomear: fotografia de estúdio. Simplesmente não tenho paciência. Gosto de estar no terreno, na rua… e se tiver adrenalina no trabalho que estiver a fazer, melhor! Na realidade, essa é uma pergunta difícil e que parece ter uma resposta óbvia… sinceramente gosto de fotografar um pouco de tudo. Mas muitas dessas fotografias acabam por ficar arquivadas e acabo por nunca mais me lembrar da existência delas. Existem duas áreas que me dão imenso prazer. O fotojornalismo, que é o meu dia-a-dia… é o stress… é a adrenalina… enfim… tanta coisa que me faz gostar! Gosto de ver a coisa de uma forma mais utópica e achar que estou a fazer parte da História. E fotografia de espectáculo, que é a área que me dá mais prazer fazer e onde tento juntar o máximo possível do que aprendo diariamente no fotojornalismo e aplicar durante um espectáculo. Um espectáculo vai muito além dos músicos. Em forma de brincadeira, até costumo dizer que a fotografia de espectáculo se divide entre o óbvio (entenda-se, os músicos) e o espectáculo, onde se tenta, para quem estiver a ver as fotos, que sinta que esteve presente e, para os que não foram, se sintam tristes por não terem ido. Mas, infelizmente, esta é uma área que não paga contas. E em Portugal ninguém dá valor.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
Sinceramente nem sei responder a essa questão… Quando comecei, o que eu queria era fotografar. Uma das minhas paixões na vida é a música, mas como nunca tive jeitinho nenhum para isso, então comecei a fazer fotografia de concertos porque desde novo que ia a tudo o que era concertos. Conheci várias pessoas, muitas delas já nem sequer têm bandas. E foi num desses concertos, na ADAC (Pombal), no início de um concerto de My Cubic Emotion (actuais The Year) que o guitarrista, e meu grande amigo João Correia, veio ter comigo a apresentar-se e a dizer que gostava bastante das minhas fotos e que seria muito bom eu ir lá fotografá-los. Nesse momento senti-me bastante bem e pensei: “Porra, eu acho que consigo!!!” [risos] Conhecer cada vez mais artistas de bandas que eu admirava era algo que me estava a dar muito gozo (na realidade, nesta área, todos começam por essa “fantasia”). E foi quando decidi apostar mais nessa área, mesmo sabendo que seria muito difícil… e continua a ser! [risos]

Escolhe três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.


RMP_3540_dentroEsta primeira foto é de uma banda que eu ouvia bastante quando era adolescente, que se chama Glassjaw. A banda esteve algum tempo em hiato e recentemente voltou para dar alguns concertos. Tive a oportunidade de os fotografar e adorei! Banda difícil de fotografar… mas é uma foto que adorei mesmo! Creio que consegue transmitir um pouco do feeling do concerto. Na segunda temos Sam Carter, vocalista de Architects, uma banda que eu adoro! E em 2014 tive a hipótese de estar com eles em três datas que fizeram em Portugal, junto com os The Year e More Than a Thousand. Foram três dias brutais com amigos fantásticos!

Para terceira escolha, é impossível não falar sobre esta foto do regresso dos Silence 4 que, no fundo, não tem nada de outro mundo… é daqueles casos em que me arrisco a dizer que basta estar lá!RMP_2368

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê?
Lamento, mas não consigo salientar um fotógrafo de referência. São tantos, e nas mais diversas áreas, que se torna complicado… existem trabalhos fantásticos! E fotógrafos e fotojornalistas muito bons! E digo isto sem qualquer problema! Eu vejo imensas fotografias e, com a ajuda da internet, esse trabalho ficou bastante facilitado. Passo horas a fio a ver fotos… Por algum motivo, a maioria dos fotógrafos/fotojornalistas não fala de outros trabalhos, talvez com medo de serem mal interpretados. A sociedade apenas gosta de ouvir coisas boas, mas quando são coisas más já não acham tanta piada. Mas eu tenho um problema… falo! E gosto de saber a opinião de quem está a ver as fotos. Não sejamos hipócritas: quando fotografamos, além de o estarmos a fazer para nós, estamos também a fazer para todos os que vão ver as fotos e, é óbvio, que gostamos de saber as opiniões… saber o que está bem e o que está mal. É isso que nos ajuda a melhorar. Mas para não me desviar muito da pergunta, deixa-me dizer que existem duas pessoas, nas minhas áreas de eleição, que foram importantes e se tornaram referências por isso mesmo. Na fotografia de espectáculo, saliento o André Henriques. Ainda hoje falamos imenso e me ajuda bastante, tanto por ser uma pessoa espectacular como por ter mesmo muito conhecimento na área. No fotojornalismo, é impossível não fazer referência ao Ricardo Graça, que foi quem me começou a “levar para o terreno” e a cultivar a “pancada” nessa área. Do Ricardo não é preciso falar porque já todos conhecem o rapaz e o trabalho dele. [risos]

Já tiveste algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Curiosamente todos os momentos em que não tenho nenhuma máquina para registar o momento se tornam daqueles momentos que eu gostava de estar a fotografar… [risos] Tenho a certeza de que isto é um mal de toda a gente que fotografa… parece que estamos num local e constantemente a ver “momentos fotografáveis”. Até irrita! [risos]

Qual a situação mais embaraçosa ou inusitada em que estiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Dizer que me aconteceu um pouco de tudo é abusar, mas já tive algumas peripécias… Desde levar umas valentes “murraças” na cabeça, rasgar as calças naquele sítio que se rasgava quando éramos miúdos (e não me refiro aos joelhos), passar a noite escondido no meio do mato e ter de fazer fotos de um homicídio, durante a investigação dos elementos da Polícia Judiciária e a única luz que havia era a da lanterna deles… ou outra aventura que foi estar no meio de uma aldeia rodeado de, no mínimo, 100 pessoas (e não estou a exagerar nadinha!) e “estar a ver a minha vida a andar para trás” porque eu não devia estar ali, no meio de um incêndio e o helicóptero fazer uma descarga de água mesmo no sítio onde eu estava… enfim… histórias para os netos!

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou a verificar-se uma ‘overdose’ de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
Eu acho essa ‘overdose’ de fotografias bastante interessante! Vejo fotografias fantásticas e muitas dessas pessoas nem sequer são fotógrafos e nem aspiram ser. Já vi casos em que um sítio/detalhe mais “banal” que está ao nosso lado, e pelo qual passamos todos os dias e que já nem ligamos e vem alguém e faz essa foto e de repente parece um mundo novo! Esse é o lado bom dessa ‘overdose’. É claro que existem outros casos, nota-se cada vez mais nas diversas áreas da arte, e estou a referir-me às borlas ou aos preços absurdos! Entendo perfeitamente que se tenha de começar por algum lado, e todos os profissionais já fizeram e fazem borlas mas tem de se saber quando parar… Valorizem o vosso trabalho!

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
Trabalhar muito… conhecer outros fotógrafos… trocar opiniões… arriscar… a internet é uma ajuda incrível! O “olho de lince” pode ser treinado!

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
Local: Indonésia. Adorava ter hipótese de estar lá uns meses!
Pessoa: Tu, que estás a perder tempo a ler isto. [risos]
Objecto: Não tenho nenhum.

Para conhecer melhor o trabalho do Rui Miguel Pedrosa:
ruimiguelpedrosa.com
facebook.com/ruimiguelpedrosaphotographer

Entrevista de Catarina Pedro
(Publicada a 12 Fevereiro 2015)