Ana de Amsterdam

Ana Cássia Rebelo

Há mar e mar, há ir à Póvoa e voltar – para mais uma edição das Correntes d’Escritas, claro. O maior encontro literário de expressão ibérica acontece na Póvoa de Varzim, de 26 a 28 de Fevereiro. A Preguiça fez o bê-a-bá do que por lá se vai passar e falou com uma das estreantes no plantel, Ana Cássia Rebelo. Ana de Amsterdam para os amig… perdão, para os leitores.

E como se de um Primavera Sound da Literatura se tratasse, o cartaz das Correntes alinha perto de 60 nomes. Uns que saltam logo à vista, outros menos conhecidos, que a ideia também é revelar novos talentos. Só que aqui, em vez de concertos, há livros. E autores. Muitos autores, ao vivo e a cores, a falar do que escrevem, lêem e pensam.

Para quem se alimenta de letras e ideias, as Correntes são uma espécie de shot multivitamínico: o equivalente ao sumo de romã ou às bagas de arando. Um superfruto literário, concentrado em três dias, que alimenta a cabeça para o resto do ano.

«Saber sempre onde estão as costas e o norte»

Nada melhor do que um verso da Margarida Ferra para apontar a direcção a seguir nos próximos três dias. O destino, não há dúvida, é a Póvoa de Varzim. Tudo para cima, segue-segue-segue e só pára no Cine-Teatro Garrett, que este ano é o palco principal dos acontecimentos: 7 mesas, cada uma subordinada a um tema, 6 autores por mesa, e ainda há tempo para conversas, lançamentos de livros, filmes e exposições. Tudo de entrada livre: só é preciso chegar a tempo de conquistar um lugar ao sol.

Não chega a ser a Costa da Caparica em Agosto, mas de ano para ano tem batido recordes de público. Sobretudo nas mesas de sexta à noite e sábado, as cadeiras do anfiteatro são especialmente cobiçadas e é normal haver lotação esgotada e gente espalhada pelas escadas e em pé. Hipsters das letras, gente da cultura ou simplesmente interessada em livros, e também alguns poveiros curiosos por ver o motivo de tanta agitação lá na terra por estes dias.

Esta 16.ª edição começa, tal como as anteriores, com o anúncio do Prémio Literário Casino da Póvoa, um importante galardão das letras nacionais. O vencedor vai ser conhecido na quinta-feira às 11 da manhã. À tarde, o tiro de partida é dado por Guilherme d’Oliveira Martins, na conferência de abertura com o tema ‘Quem tem medo da cultura?’.

Feito o aquecimento, daí para a frente é sempre a abrir, mesas atrás de mesas: de Afonso Cruz a Eduardo Lourenço, de Gonçalo M. Tavares a Manuel Jorge Marmelo, de José Tolentino Mendonça a Inês Pedrosa, entre estreantes e repetentes, a lista de escritores – e aspirantes a tal – é longa e diversa. E não faltaram as apostas na chamada nova geração (sub-40 e picos, vá): como Ana Cássia Rebelo, Bruno Vieira Amaral, Claudia Clemente ou Fausta Cardoso Pereira.

Tratando-se de um encontro de expressão ibérica, de Barcelona vêm Clara Usón (autora de Corazon de Napalm, 2009) e Carlos Castán (que acaba de lançar Má Luz, pela Teorema); Nelson Saúte, de Moçambique; ou Leonardo Padura, de Cuba.

A maior ausência do cartaz (oooooh…) é mesmo Matilde Campilho. Com o frissom gerado em volta de Jóquei e da sua poesia pouco convencional que viaja entre o português de Lisboa e o do Rio de Janeiro, era uma forte possibilidade vê-la entre os participantes deste ano. Mas não: o tiro da Preguiça saiu ao lado. Esperam-nos, decerto, outras boas surpresas. Como de costume.

Ana de Amsterdam: de blogue a livro

Na lista de estreantes nas Correntes está Ana Cássia Rebelo. Se Peter Handke escreveu A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty, já ela escreve sobre as suas próprias angústias. Fá-lo desde 2006 no seu blogue, Ana de Amsterdam, que acaba de ter edição em livro, com o mesmo título da canção de Chico Buarque.

É uma espécie de diário íntimo, onde confessa o que para muitos seria inconfessável: aquele lado da vida que não é bonito nem cor-de-rosa, onde cabem a depressão, a falta de desejo e tantos momentos difíceis da vida de uma mulher de quarenta e poucos anos, que se sente asfixiada entre um trabalho que não a realiza e o rol de tarefas intermináveis de uma mãe de 3 filhos.

Tudo isto é agora transposto para o papel, em Ana de Amsterdam (Quetzal, 2015), numa prosa límpida, que tem tanto de perturbador como de viciante: não cola cientistas ao tecto mas cola-nos os olhos às páginas. É bem sabido que mais vale um bom drama do que uma má comédia. A Preguiça fez-lhe 5 perguntas, uma por cada dedo da mão:

Já se referiu a este livro como o seu “diário do desespero”. Ao longo destes anos (desde que iniciou o blogue, em 2006), a escrita tem sido uma forma eficaz de terapia?
Ana Cássia Rebelo (ACR): A escrita nunca é uma forma eficaz de terapia. A terapia só se faz através do confronto com o outro. O confronto é necessário para reflectir e perspectivar. Os textos que escrevi são como pequenos gritos. Esses gritos nunca me livraram dos problemas, mas, em determinadas alturas, deram-me uma sensação transitória de alívio.

Neste processo de fazer da vida matéria de literatura, passar a ser personagem da sua própria história foi, de certa forma, libertador?
ACR: É verdade que me tornei personagem da minha própria história. Não sei se foi libertador. Escrever no blogue, espécie de diário, tornou-se num hábito. Mas desejo libertar-me desse registo confessional e autobiográfico. Quero escrever sobre os outros, criar personagens. O maravilhoso da literatura, alguém o disse, é a possibilidade de criar outras vidas.

Mesmo sabendo de antemão que é volátil a fronteira onde acaba a autobiografia e começa a ficção, há uma dimensão de grande intimidade bem visível nestes textos. Tocam em temas normalmente difíceis de abordar na primeira pessoa e ao lê-la fica-se com a impressão de que (apesar do aparente paradoxo) é para si mais fácil expor-se do que esconder-se…
ACR: Não sou diferente dos outros. Vivemos numa época de exposição e partilha. Toda a gente se expõe. Mostram-se fotografias de cães, gatos, filhos, refeições, leituras, férias. Faço exactamente o mesmo: exponho-me. Só que o faço através da escrita e, ao contrário da maior parte das pessoas, em vez de alegrias, partilho angústias. Mas a angústia, a tristeza, a insatisfação também fazem parte da vida.

Lida bem com esta fixação do efémero no papel, com a vida transformada literalmente em livro aberto?
ACR: Lido mesmo muito bem, até porque o efémero é sempre efémero, ainda que fixado no papel. Daqui a meia dúzia de dias ninguém se lembrará do que escrevi, voltarei à minha vida, sossegada, tranquila.

Foi buscar o nome do blogue – e do livro – à canção de Chico Buarque: Ana de Amsterdam. Onde é que o Chico entra nesta história e que espaço ocupa a música (dele e não só) na banda sonora da sua vida?
ACR: Gosto dessa canção do Chico Buarque e foi só por essa razão que a escolhi. Escuto muita música brasileira e portuguesa, mas tenho gostos diversificados. Por exemplo, há duas ou três semanas que não oiço outra coisa que não seja o Thriller, do Michael Jackson. É um álbum estrondoso, todas, mas mesmo todas, as canções são muitíssimo boas.

  • Correntes d’Escritas 2015: programa completo aqui.

Texto e entrevista de Catarina Sacramento
(Publicado a 26 Fevereiro 2015)