joao_pombeiro_intO que é que liga o Homem do Bussaco ao radialista António Sérgio? A resposta é João Pombeiro. Dividido entre o humor e a música, o senhor que vêem aqui em cima no modo fotocópia esteve em várias temporadas do Bruno Aleixo e actualmente trabalha com Nuno Markl, Bruno Nogueira e Filipe Melo na nova websérie Uma Nêspera no Cu. Uma experiência que está a ser mais ou menos e ao mesmo tempo muito interessante, segundo o próprio.

Quase sempre ocupado com o lado visual dos projectos, enquanto realizador, director de arte, ilustrador ou responsável pela animação gráfica, este leiriense que estudou em Caldas da Rainha também se dedica a produzir vídeos para gente como Luísa Sobral, DJ Ride e os nossos adorados Cave Story – e está a iniciar as filmagens do quarto documentário com Eduardo Morais.

João Pombeiro cresceu na Domingos Sequeira (aka escola comercial), estudou artes visuais no Oeste e afirmou-se em Lisboa. A palavra videógrafo, que provavelmente não existe, ajuda a explicar o que faz. Também se desenrasca como argumentista e ainda arranja criatividade para as artes plásticas.

Posto assim, fica difícil acreditar que se aborrece com facilidade, mas ele garante que é essa a explicação para tanto frenesim. Isso e as pessoas talentosas que gosta de ter por perto e que lhe despertam uma espécie de inveja saudável e desafiadora. Quanto a Leiria, confessa que esteve desligado da cidade, mas agora até cá vem mais vezes. Diz que há sempre qualquer coisa para fazer.

Vicente (Lisboa), colagem digital de João Pombeiro, 2013

Vicente (Lisboa), colagem digital de João Pombeiro, 2013

O que é que te mantém ocupado por estes dias?
Desde meados de Janeiro que estou a fazer a animação de “Uma Nêspera no Cu”, que é uma websérie do Bruno Nogueira, do Nuno Markl e do Filipe Melo, e que, por alguma razão eles insistem em chamar-lhe “podcast”. Para além disso, estou a terminar um videoclip para os Cave Story e comecei a filmar para o novo documentário do Eduardo Morais.

Em que outros projectos tens estado envolvido nos últimos anos?
Para além dos projectos de artes plásticas que vou desenvolvendo, tenho trabalhado em diversos projectos de humor. Realizei alguns webisódios do “Há Vida em Markl”, depois, juntamente com o Pedro Santo e o João Moreira, fiz um montão de séries do “Bruno Aleixo”, e colaborei na adaptação das bandas desenhadas “Dog Mendonça & Pizzaboy”, do Filipe Melo. Agora ando a fazer aquela coisa da Nêspera e tenho-me dedicado mais à produção de vídeos musicais (videoclips, making ofs, concertos, projecções ao vivo, etc.) de artistas como a Luísa Sobral, João Hasselberg, Marta Hugon, Filipe Melo, DJ Ride, Beatbombers, loopooloo e Cave Story. Colaboro ainda com o Eduardo Morais nos seus documentários (Música em Pó, Uivo e um novo que ainda não sei se posso divulgar).

O que é que mais te interessa explorar?
Independentemente da área em que estou a trabalhar, interessa-me essencialmente encontrar soluções e formas criativas (e muitas vezes preguiçosas) de contornar as limitações. Sejam estas orçamentais, tecnológicas ou de outra ordem qualquer. Para mim, é esse o grande desafio em qualquer projecto e a melhor forma de continuar a aprender e de melhorar, tanto a nível técnico como de construção do processo mental. Muitas vezes, dou por mim a aceitar e a propor-me fazer coisas que nunca fiz, ou que não sei fazer muito bem, só para me obrigar a dar a volta à situação e não repetir fórmulas. Até porque sou uma pessoa que se aborrece com demasiada facilidade.

Como está a ser a experiência neste projecto com o Markl, o Bruno Nogueira e o Filipe Melo?
Está a ser só mais ou menos. E ao mesmo tempo, muito interessante.

O que te influencia para criar?
A resposta mais óbvia será dizer que é tudo. Eu gosto de estar rodeado de pessoas que fazem coisas, que investem e que se dedicam a sério ao seu trabalho. Isso desperta em mim uma espécie de inveja saudável, que me não me deixa ficar acomodado.

As possibilidades oferecidas pelo digital entusiasmam-te?
Sem dúvida. Cada vez mais os meios de produção e a informação estão acessíveis, graças ao digital. Seria impensável, há uns anos, poder fazer tanto com tão pouco. Qualquer dispositivo barato, de consumidor, ou um simples software livre, permite criar e produzir com uma qualidade e resultados incríveis. E, com a internet e essas modernices de agora, há imensas formas de adquirir novos conhecimentos, de colaborar, de partilhar ideias e de mostrar trabalho.

Depositas algum tipo de propósito superior no teu trabalho?
Se o faço, é sem querer. Mas sim, sou capaz de ter a mania de tentar fazer sempre o melhor que sei. Não consigo contentar-me com o “está bom assim” e o “ninguém vai reparar nisso”. Acho que a culpa é da minha formação académico-artística. É muito fácil atribuirmos um sentido de missão ou um propósito superior às nossas criações, porque a Arte é sempre colocada num plano elevado e escreve-se, a maior parte das vezes, com A maiúsculo. Mas julgo que deveria ser assim em todas as profissões e actividades. Eu, pelo menos, não gostaria de ir a um dentista que pensasse de outra forma.

Que tipo de relação tens com Leiria?
Eu sou um leiriense desnaturado. Durante muitos anos estive desligado da cidade, porque fui estudar para fora (isto assim parece que fui para o estrangeiro, mas fui só para as Caldas da Rainha). Cresci a achar que em Leiria não se passava nada e que para que acontecesse alguma coisa, era preciso sair daqui. Só há pouco tempo é que percebi que, felizmente, a realidade cultural da cidade se alterou bastante nos últimos anos. Agora já há uma série de iniciativas culturais promovidas por diversas pessoas e associações que, mesmo sem grande apoio, teimam em fazer. Por causa disso, até já cá venho mais vezes e tudo.

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Entrevista de Cláudio Garcia
(Publicada a 12 Março 2015)