FigueiredoSe houvesse cientista da fotografia, podíamos dizer que Manuel Figueiredo é um deles. Aos 14 anos já comprava químicos na farmácia para revelar as suas fotografias, criou o seu estúdio profissional, foi o primeiro português a manipular digitalmente uma fotografia e, ainda hoje, quando o equipamento que existe no mercado não o satisfaz, põe mãos à obra para construir o que pretende. Pouco do que faz é ao acaso porque estuda sempre a melhor forma de alcançar o resultado que pretende. Talvez por isso ele diga que não tira mas faz fotografias. Para além disso, é um fotógrafo de grandes voos, literalmente. Gosta de parapente e, quando anda nas alturas, muitas vezes leva também a máquina. Vejamos que mais tem ele para nos contar.

“Fui o primeiro fotógrafo português a fazer fotografia digital”

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade…
Os abstractos são o tema que mais me fascina devido às suas várias interpretações que prevalecem no tempo sem nos cansar. Nunca tive problemas em abordar qualquer área da fotografia, mas só no início do século XXI me dediquei à verdadeira arte fotográfica. Na década de 80, trabalhei na fotografia técnica e industrial para empresas. Os meus maiores clientes foram: Nestlé, UNICER, fábricas de vidro, plástico, moldes, móveis, etc. Na década de 90 dediquei-me inteiramente ao desenvolvimento da fotografia digital. Esse sonho só se tornou realidade no final da década, mas fiquei feliz depois de gastar toda a fortuna adquirida na década anterior. O maior flagelo da humanidade é a ânsia pelo dinheiro, pela fama e pelo poder. Talvez por isso nunca participei em concursos e muito pouco em exposições. Para mim o know how é o mais importante. Com ele se consegue tudo o que precisamos e ninguém nos pode roubar. Sei que muitas pessoas não acreditam nisto, mas a felicidade é o pico de uma sinusóide com um comprimento de onda e respectiva frequência, e quanto maior for o pico positivo maior será o negativo, ninguém poderá fugir a esta realidade. Quem não aprender todos os dias, morreu. Nesta arte é como na tropa: o melhor é permanecer sempre no centro do pelotão. Nunca à frente nem atrás.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
A magia da revelação. Descobri a fotografia em 1964: desde logo comecei a revelar filmes e papel com produtos químicos comprados na farmácia. Fazer aparecer uma imagem latente no papel foi sempre magia e paixão, não importa o sujeito.

Escolhe até três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.

O mundo ali aos meus pes
Viajei 3 vezes ao sul da Turquia para voar de parapente e fotografar de cima a maravilhosa baía de Oludeniz e o Vale das Borboletas, um local onde só é possível chegar de parapente ou de barco. A descolagem é na montanha mais alta do mundo à beira-mar. Babadag tem cerca de 2000 metros, subi na térmica até aos 2500 e segui em direcção ao mar para fotografar. Larguei os comandos do parapente, passando a pilotar só com o corpo para me concentrar na fotografia. Distraído com a paisagem, entrei tanto no mar que o meu Top Navigator apitou informando que estava a esgotar o planeio para chegar à praia. Arrumei a máquina à pressa e quando olhei directo para terra, achei que seria impossível não ficar na água. Então, dirigi-me na direcção de um veleiro que estava a uns 50 ou 100 metros da costa, onde podia aterrar sem molhar o material. Cheguei ao veleiro pouco acima do seu mastro, quando percebi que talvez conseguisse chegar à praia; e então continuei a voar, acabando por chegar à areia no máximo com 2 metros de altura. Esta fotografia foi tirada com a lente Canon 15 mm, nesse emocionante voo.

O futuro do presente
“O futuro do presente” é um projecto inovador de Street photo que está relacionado com a actual situação no mundo. O objectivo é fotografar pessoas com os pés assentes na terra, mas o futuro à sua frente tem de ficar desfocado. Para evitar o direito à imagem dos retratados nunca lhe foco o rosto. Para o efeito já construí várias lentes TS que podem ver aqui e aqui. Como podem verificar em algumas imagens, é possível fazer uma focagem selectiva longitudinal ou diagonal. O mais recente Kardan conta com 16 movimentos Tilt, Shift e rotação, mais versátil do que qualquer câmara técnica de grande formato.

Animais na cascata
“Animais na cascata” foi a minha última descoberta. Através da baixa exposição é possível transformar as bolhas da água em cabelo, simulando animais a beber água ou, neste caso, um ouriço a refrescar-se. Mas os abstractos podem ter outras interpretações que dependem de cada observador. Todas as imagens são registadas pela câmara, apenas fiz a calibração.

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê?
Nunca tive nem tenho fotógrafos de referência porque a técnica é universal e a arte nasce em cada um de nós. O importante para mim é fazer uma fotografia que me agrade. Se os outros não gostarem, nada posso fazer.

Já tiveste algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Não. Primeiro é preciso acreditar, depois querer e por fim executar. É muito importante conhecer estes três pontos.

Qual a situação mais embaraçosa ou pouco usual em que tiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Não uso o termo tirar fotografias, eu apenas faço fotografias. A minha situação mais embaraçosa foi numa noite em Peniche quando fazia uma exposição de 10 minutos na Nau dos Corvos: aos 8 minutos escorreguei, bati no tripé e tive de parar a exposição. Essa fotografia ficou ligeiramente subexposta, mas não ficou muito mal.

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou-se a verificar uma ‘overdose’ de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
Fui o primeiro fotógrafo português a fazer fotografia digital. Só acho que se perdeu muito a magia da revelação, contudo o resultado é positivo. A fotografia ganhou muito com isso porque agora é muito mais fácil a divulgação dos novos artistas.

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
Não! A técnica aprende-se e a arte que nasce em nós é subjectiva. Muitas vezes é considerado bom fotógrafo aquele que faz fotografia de êxito fácil ou tenta imitar imagens já existentes, o que acho ridículo. A arte é muito pessoal e nem sempre os outros a sabem entender, depende da cultura de cada um. Uma fotografia bonita e tecnicamente perfeita pode não tem nada a ver com arte.

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
Quando me surge uma ideia nova, tento pô-la em prática logo que possível. O meu maior problema é arranjar tempo para me concentrar na fotografia.

  • Manuel Figueiredo investe parte do seu tempo na construção de sites nos quais vários fotógrafos podem divulgar fotografias da sua autoria: a fineart-portugal.com é uma galeria de arte com curadoria que publica as melhores 24 imagens por dia (uma por hora). Tem artistas de 77 países. Trabalho de Manuel Figueiredo em figueiredo.fineart-portugal.com.

Entrevista de Catarina Pedro
(Publicada a 12 Março 2015)