where is my mind_self_portrait

Esta semana foram as fotografias de Carla de Sousa que captaram a atenção do Olho de Lince. Ela começou com a fotografia móvel, tomou-lhe o gosto, apostou em formação nesta área e, desde então, a fotografia não deixou de fazer parte da sua vida. O seu olhar geralmente regista singularidades do momento e sensações, fazendo dela alguém que vive a fotografia de forma intensa e intuitiva. É uma das fundadoras do colectivo Zenith9 – Associação de Fotógrafos, tem vindo a participar em várias exposições e está prestes a atingir uma nova etapa no seu percurso: a sua primeira exposição individual – intitulada “(in)coerências”, que inaugura em Abril no Turismo Centro de Portugal. Querem conhecê-la melhor? Então vejam o que nos disse.

“Fotografo um pouco à flor da pele e do momento”

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade…
Fotografo um pouco à flor da pele e do momento. A fotografia para mim é uma forma de expressão, com particularidades muito próprias. Paradoxalmente é uma linguagem universal, mas não é unívoca. Ou seja, uma fotografia não precisa ser traduzida para ser interpretada, mas pode ter várias leituras. Isso faz da fotografia um singular meio de comunicação, em que se admite, desde logo, que a mensagem pode não ser recebida tal como se emitiu, o que ao invés de a desvirtuar, terá o potencial (esperamos nós) de a enriquecer. Na essência, o que procuro transmitir são sensações ou estados de espírito, a beleza do inusitado e até do despojado. Nos retratos procuro a cumplicidade e a intimidade. Curioso (ou talvez não) é que antes de me sentir confortável a retratar os outros, tive primeiro de passar por um processo pessoal de auto-retrato que entretanto evoluiu para algo mais próximo da auto-representação. Sei o que sentem as pessoas que me dizem que não gostam de ser fotografadas, porque eu própria já o senti. Foi a partir desse conhecimento pessoal que evoluí no retrato. “Escrevo”, assim, um longo poema com imagens que povoam os meus dias. Por isso não sinto necessidade de “catalogar” a minha fotografia, nem de a inserir nesta ou noutra categoria. Estou em construção.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
Sempre vi na fotografia um meio de comunicação e acho que foi isso que inicialmente me atraiu. Poder comunicar, às vezes, sem dizer uma palavra pode ser libertador.

Escolhe até três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.

sea's lullaby
O meu último dia de praia. Agosto de 2013, praia das Paredes de Vitória. Recordo que me levantei cedo e assim que cheguei à praia me arrependi de não ter levado a máquina. O telemóvel acusava pouca bateria. A neblina matinal era intensa. Estava fresco. Ao meu lado, um pouco afastada, deparo-me com uma mãe a embalar o filho ao som do mar. O cenário era enternecedor. Pedi mais uns escassos minutos de bateria ao meu telemóvel e fotografei-a, sem que desse por isso. Lembro-me de pensar para mim que se eu fosse aquela mãe, quereria aquela foto. Dirigi-me, pouco depois, à mãe que agora estava acompanhada pelo pai da criança e perguntei-lhe se gostariam que lhes enviasse a fotografia. O que fiz.

about light
Palácio do Freixo, Porto. Decorria um evento cerimonial. Uma das convidadas retirou-se para um espaço mais reservado no lobby do hotel para atender uma chamada telefónica. Vestia de forma sóbria e elegante, apropriada à festa de que fazia parte. Não me fiz rogada quando vi o efeito da luz naquela divisão do hotel, banhada em luz matinal. Fiz um primeiro teste e gostei do resultado quanto à luz, mas faltava algo. Esperei uns minutos. A posição do pé e a linha contínua da perna e do sapato predispuseram-me a uma segunda fotografia. A que escolhi. Nesta, a luz (subst. feminino) é a grande protagonista. Gosto particularmente de estudos de luz e, por isso, escolhi um dos meus preferidos.

end of any dream
Um passeio pelos lados do Polis, em Leiria, numa manhã de sábado solarenga. Vemos o que sentimos. E nessa medida há coisas com as quais nos relacionamos de imediato e outras não as chegaremos a alcançar, pois não fazem parte do nosso mundo interior. O meu olhar busca essencialmente o simbólico. Esta fotografia foi feita para evidenciar os momentos em que tudo nos parece prender a um status quo. O dramatismo da mesma, evidente no aprisionamento da própria sombra, parece sobrepor-se à réstia de esperança que alcança o topo libertado da fotografia.

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê?
Haveria muitos para mencionar aqui. Mas deixo aqui o meu apreço pelo trabalho de Francesca Woodman. Acho emblemática a última entrada no seu diário “I was inventing a Language for people to see…”. A sua obra é inspiradora e de uma intensa densidade interior.

Já tiveste algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Sempre que passo na auto-estrada no sentido Leiria–Coimbra, pouco depois de passar Pombal, há do lado direito uma árvore que se salienta das demais, não pela sua imponência, mas pelo facto de ser esguia até ao topo que se inclina para a esquerda. Ainda não a fotografei porque vou sempre em cima da hora e tenho alguma relutância em parar na auto-estrada para fotografar uma árvore…

Qual a situação mais embaraçosa ou pouco usual em que tiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Bem, talvez não devesse dizer isto, mas já fui convidada a sair de um espaço abandonado pela Polícia Municipal. Contudo, ainda tive tempo para um auto-retrato numa escada lindíssima, infelizmente muito degradada. Os espaços ou locais abandonados são geralmente muito fotogénicos, mas há que entender que não deixam de ser reservados, privados e muitos, ainda que aparentem estar abandonados, não o estão. Simplesmente não estão habitados ou utilizados. Por outro lado, alguns são autênticas armadilhas dado o seu mau estado de conservação. Por isso, aconselho muito cuidado.

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou-se a verificar uma ‘overdose’ de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
Iniciou-se apenas uma nova era na fotografia digital. Convivo bem com as redes sociais dedicadas, como o Instagram ou o EyeEm, onde encontro espaços de comunicação artística, além das suas vertentes sociais. Aliás, foi o Instagram que potenciou a minha paixão pela fotografia e nessa medida sou fruto dessa nova era. Creio que os profissionais se intimidam um pouco com esta forma de relacionamento/exposição ao mundo. O que é inevitável e natural. Não me sinto concorrência dos profissionais. A certo ponto, sou certamente mais livre do que estes, na medida em que fotografo o que me apetece e partilho o que quero. Não vivo da fotografia, vivo a fotografia.

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
Não sei o que é ser bom fotógrafo. Sei o que é ser um fotógrafo em construção e esse é, sobretudo, um ser generoso, sensível e atento.

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
Local: o deserto, esse local de constante reinvenção ao sabor dos elementos. Pessoa: gosto sobretudo de fotografar os amigos, por isso, será com certeza um amigo ou uma amiga. Objecto: o próximo que me apetecer.

Links:
instagr.am/carlaoliveirasousa
eyeem.com/u/carladesousa
behance.net/carladesousa
flickr.com/photos/carladesousa
facebook.com/carladesousa.graficpoetry

Entrevista de Catarina Pedro
(Publicada a 26 Março 2015)