Selfie

Rute Violante esteve debaixo do Olho de Lince desta semana. Há quase duas décadas que a fotografia é a sua vida. Passou de formanda a formadora, registou a sua marca (Fotograf´arte), faz parte do corpo fundador da Zenith 9 – Associação de Fotógrafos e da empresa Charisma e também organiza expedições fotográficas nacionais e internacionais. Uma vez ela disse “respiro fotografia, estudo fotografia, viajo pela fotografia, trabalho em fotografia e sonho com fotografia”. Será que há mais algo para dizer? Há sim senhora. Ora leiam:

“Quando tiro uma fotografia da qual gosto muito, é como se acendesse um fósforo dentro de mim”

Descreve-nos o teu trabalho: o que gostas mais de fotografar, o que desejas ou gostas mais de transmitir, em que área da fotografia te sentes mais à vontade…
Em termos artísticos tenho vindo a explorar duas grandes temáticas: a “prisão”, enquanto metáfora de todo e qualquer sofrimento humano; e a liberdade, fé, resiliência e libertação com ênfase nas viagens, no amor e na dança enquanto caminhos de libertação. Do seu cruzamento resulta uma espécie de “caminho”, de compreensão das ferramentas de que dispomos para viver em “equilíbrio”. Interessa-me sobretudo a natureza do ser humano, é isso que me move. Esse caminho leva-me também, inevitavelmente, ao auto-conhecimento.

No início, o que te atraiu mais na fotografia?
A fotografia é das únicas coisas no mundo que me consegue manter sossegada e concentrada, faz com que me esqueça das horas e isso é maravilhoso. Por vezes, quando tiro uma fotografia da qual gosto muito, é como se acendesse um fósforo dentro de mim. Traz-me essa emoção. 

Escolhe até três fotografias da tua autoria e conta-nos a história de cada uma delas.

A
Esta imagem foi  captada no Alentejo num dia em que os termómetros marcavam 40 graus. Os noivos, que vivem em Angola, realizaram o casamento num hotel onde ficaram alojados com muitos dos convidados. Os quartos estavam caóticos, com roupa, sapatos, sacos e pessoas a passear de um lado para o outro. Só eu pude entrar no quarto da noiva porque supostamente ela estaria despida e os meus colegas eram homens. Entrei e deparei-me com a melhor amiga da noiva grávida despida a penteá-la.

B

Esta imagem foi realizada num retiro artístico e espiritual organizado pela minha empresa (Fotograf’arte). Os filhos dos donos da quinta onde estávamos alojados levaram-nos pelo meio do bosque para uma gruta escondida e disseram-nos que dava para saltar lá de cima para a água. Um dos participantes resolveu tentar. E claro… saltou apenas uma vez. Foi um momento muito bonito.

C

Esta fotografia foi captada num convento abandonado. Lembro-me de sair já de noite, sem luz, por uma janela mínima e, de seguida, saltar o portão (carregados de equipamento). Para mim esta imagem representa o começo e o fim, como algo indissociável… a roda da vida, com luz e escuridão.

Se tivesses de escolher um fotógrafo de referência, qual escolhias e porquê.
Creio que escolheria o Sebastião Salgado porque une um fotógrafo de excelência a um ser humano maravilhoso.

Já tiveste algum momento ou situação que tivesses gostado de fotografar mas, por alguma razão, não conseguiste?
Já… quando produzi um programa de viagens para a SIC Notícias (“Best of travel” – 2004) estava sem máquina fotográfica. Tinham-me roubado a minha num estádio de futebol. Nessa altura “vi fotografias” nos países pelos quais viajei em trabalho. Consigo descrever algumas com todos os detalhes como se efectivamente as tivesse tirado.  Senti que me faltava uma parte de mim. Uma dessas situações foi num hotel no bairro gótico, em Barcelona. Entrámos num quarto frio, decorado em estilo minimalista, com preto e branco. Nas janelas do quarto havia fitas artesanais com vidrinhos translúcidos (como diamantes) que reflectiam os raios de sol para o interior do quarto. Não há palavras para descrever aquela “fotografia”.

Qual a situação mais embaraçosa ou inusitada em que estiveste para conseguires tirar uma fotografia?
Fotografei uma sessão boudoir de casal. Não foi embaraçoso mas foi estranho [sorriso] principalmente na parte em que tinha de os orientar: “Toca-lhe na perna”… “dá-lhe um beijo” não sei onde… 

Com a chegada dos telemóveis com câmara e com as redes sociais começou-se a verificar uma “overdose” de fotografias. Na tua opinião, esta situação prejudica ou beneficia a fotografia?
A curto prazo prejudica, a longo prazo beneficia. Com isto quero dizer que, neste momento, qualquer pessoa com telemóvel, Pad ou câmara compacta digital, consegue tirar “boas” fotografias, mas tirar fotografias não é ser fotógrafo. Ser fotógrafo profissional implica mais experiência e mais conhecimento e as pessoas conseguem notar a diferença. Neste momento o mercado sofre com isso porque as pessoas cometem o erro de contratar amadores e semi-profissionais para trabalhos que requerem outra preparação. Muitos erros serão cometidos, muitos clientes se vão desiludir. A poeira terá de assentar. 

O que é preciso para ser um bom fotógrafo: é só ter olho de lince?
Continuo a defender que existe um fotógrafo em cada ser humano, cada um de nós tem um olhar especial sobre o mundo. Devemos perceber que não temos de imitar ou copiar o que vemos. Podemos ver coisas mais bonitas ou mais interessantes com a nossa percepção. É preciso explorar esse olhar… fotografando muito. Julgo que seja importante sermos bons observadores e antevermos algumas situações. A esta receita adicionaria ainda a criatividade e a capacidade de maravilhamento com o inesperado. 

Que local, pessoa e objecto gostarias ainda de fotografar?
Local: Gosto que a vida me surpreenda. Ainda assim, gostava que o Tibete me surgisse perante os olhos. Pessoa: Todos os seres humanos são celebridades. Gostava de os fotografar a todos [sorriso]. Objecto: O boneco favorito de um(a) filho(a). 

Para conhecer melhor o trabalho de Rute Violante:
facebook.com/pages/Fotografarte
charisma.pt
facebook.com/rute.violante
facebook.com/zenith9A

Entrevista de Catarina Pedro
(Publicada a 9 Abril 2015)